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Das Viagens

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Das Viagens

24
Mar17

DOURO MANSARRÃO - PARTE QUARTA

Eduardo Gomes

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O dia de sexta-feira iniciou-se com a deslocação à Boavista, que os locais mais conhecem por Mártir, em Vila Marim, em busca dos bolinhos da D. Rosa. Anda-se um pouco à nora por caminhos por onde mal passa o carro, até que o nariz da Tânia detecta um forte odor a forno.

– Chegaram em boa hora... quentinhos estão, que os acabei de cozer. E donde são? Ah, Cascais! Pois saiba que tenho por lá um primo, uma jóia de pessoa, não desfazendo, é claro. Jardineiro lá pelos Estoris nos tempos de lazer, que trabalho a sério é no casino. Se calhar até conhecem...

– E como se chama o seu primo, senhora?

– Ilídio, pois não tem que ver, casado com a Alice e pai do Gonçalo e da Inês, uns amores.

– O senhor Ilídio? Então não conhecemos... se é quem eu penso... mas não trabalha no casino, é jardineiro a tempo inteiro.

– Pois, será. Saiba que já não nos vemos faz tempo... Como o mundo é pequeno... venham de lá dois beijinhos.

A conversa assim descrita parece cerejas, puxa-se uma e logo vêm as outras atrás. Ajuste-se o que se romanceia, e aceitemos que esta é viagem de desencontros. Ir dar lá pelos confins do Douro com uma desconhecida prima dum vizinho do Estoril, nunca poderia ter constituído um encontro e jamais algo combinado. A partir dali estavam lançados os dados para que a simpatia natural das gentes transbordasse. “Sente-se aí, que vou-lhe ensinar como se faz”, é o mote a que se segue a partilha da conversa com as funcionárias, a prova da iguaria, o telefonema a reclamar a presença do Ilídio na conversa. “Primaço”, assim o trata D. Rosa.

 

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Lamego é a próxima escala, que será feita um pouco à pressa.

 

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Na parte alta, percorrida com prazer, faz-se breve visita ao alindado castelo.

 

 

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Perto fica a igreja de Almocave, templo românico do século XII, a qual deve o nome ao vocábulo árabe “macab”, isto é campo sagrado, e, por tal, a população crer ter existido naquele lugar um cemitério mourisco. Está fechada, e tampouco parece albergar algo de interessante no seu interior, nem credibilidade histórica quanto a ter sido a sede das cortes de 1143 que definiram a sucessão dinástica.

 

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No pequeno jardim contíguo, fica o monumento alusivo à separação dos reinos ibéricos, cujo rasgo de baixo a cima acabou a deixar a Galiza no lado português. Emanação dos Trava, certamente.

 

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Não subirá o viageiro ao monte onde se situa a Senhora dos Remédios, já o fez em tempos, e tempo é coisa que não lhe sobra. O santuário e a sua monumental escadaria ficaram concluídos no princípio do século XIX. A igreja acolhe devotos desde 1361, sendo que até ao século XVI, aqueles o faziam para venerar Santo Estevão, que, tal como o primitivo templo se arruinou, também o orago caiu no apego popular, tendo, pelo mão do bispo D. Manuel Noronha, dado lugar à nova igreja com devoção actualizada à Virgem, cuja imagem em mármore havia sido encomendada a Roma. Material dado a finuras vedadas a imagens de santos de pau carunchoso, entenda-se.

 

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Vai o calcorreante em busca da sombra que o acolha no trajecto para a Sé, cruza a Rua dos Loureiros, vê a Casa do Poço que pouco tem da original, e fica a olhar para duas magníficas janelas manuelinas que nada possuem de gémeas, e por isso as valoriza.

 

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A Sé era originalmente românica – século XII –, as alterações sofridas mais tarde acabaram por dar-lhe um cunho gótico.

 

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O claustro, composto por doze arcos, é visivelmente renascentista. Fica a torre quadrada a certificar-lhe a construção primitiva. Não cabe aqui a descrição do interior, cujos tectos foram encomendados a Nasoni.

 

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O visitante gostou particularmente da capela de São Nicolau, dos azulejos setecentistas – livro aberto sobre a vida do santo – e do impressionante retábulo em talha. O túmulo de D. Manuel Noronha encontra-se, naturalmente, ali. Ao lado, no Museu Municipal, antigo Paço dos Bispos, a prioridade vai para as cinco tábuas pintadas por Grão-Vasco – Criação do Mundo, Anunciação, Visitação, Apresentação no Templo e Circuncisão--, as quais, em tempos, constituíam o retábulo da Sé. Não o verá o visitante, um homem não tem tempo para tudo, e, juntamente com o museu, deixa também para trás as Casas dos Soeiros e das Brolhas, esta com um decorativo friso a lembrar as inscrições árabes. Até à próxima. Lisboa está a quatro horas de viagem. No porta-bagagem seguem presunto, bolas, vinho, biscoitos e cerejas.

 

As últimas impressões vão para a arquitectura interior, isto é, os quartos do Água Hotel Douro Scala: simplesmente absurdos. Chuveiros para duche e uma estúpida banheira a ocupar valioso espaço, em ameno convívio, tu cá, tu lá, com a cama; parede de ripas espaçadas a separarem o lavatório da arrumação das malas; privacidade nula; incómodo total. Aquilo não é um quarto, é uma cama na casa-de-banho.

 

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Nota: São notáveis algumas das fotografias a preto e branco espalhadas pelas paredes nos corredores do hotel. Serão obra de um francês, segundo creio. Acima deixo a que me pareceu mais espectacular.

 

FIM

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