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Das Viagens

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Das Viagens

09
Jan18

ADEUS!

Eduardo Gomes

Fim de ciclo, este blog termina aqui.

A ideia de um espaço reservado a viagens surgiu -- tanto quanto o dedicado ao futebol -- a reboque do original da historia.blogs.sapo.pt, cuja existência é obrigatória em função do projecto que o suporta.

Gosto de escrever sobre viagens, na verdade possuo inúmeros relatos a envolver tanto o nosso país como múltiplas regiões na Europa e noutros continentes. Porém, escrever com rigor, com paixão, focar as áreas que numa viagem queremos ver reflectidas, demora tempo, custa dinheiro. Se este último se consome pelo simples facto de se viajar, já o tempo gasto a relatar por escrito as experiências depende da nossa vontade.

Como em tudo o mais a que me dedico, estabeleci alguns objectivos pessoais ao avançar com este espaço: não alcancei nenhum; a partir de certa altura parei mesmo de publicar os relatos. Esta área está "infestada" de gente paga para dizer bem disto ou daquilo; gente conhecida, mais que não seja pela sua futilidade; aqui pagos pela Solisto; ali, pela Solaquilo, chamem-se Amendoins, Pipocas ou outra coisa qualquer. Curiosamente, sendo a liberdade um bem essencial, é o mais desprezado de todos, inútil mesmo, direi. De que serve indignarmo-nos com as opções comercais, as "cambalhotas" na orientação dos conselhos dados por um(a) qualquer blogger, se continuamos a sorver tudo o que ele(a) diz?, se continuamos a ser a razão para a existência daquilo que criticamos? Somos uns conformados.

Ninguém me encomenda sermões; na minha escrita convergem a qualidade literária, o rigor nos aspectos históricos, o encanto nas descrições paisagísticas, o bem-dizer e o maldizer na forma como sinto e experiencio. Infelizmente, sem gratificação espiritual, quanto mais material.

Vou dedicar-me a outros projectos na área da escrita, os quais não envolverão, certamente, as redes sociais. A cultura não deve servir para usar e deitar fora. Como não os posso vencer... recuso juntar-me a eles.

Eduardo Gomes

Janeiro, 2018

04
Jan18

NATAL EM MONS SANCTUS - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

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E, ao terceiro dia de inesperada claridade alvacenta, o viageiro muniu-se de forças para desafiar dois percursos terrestres. O primeiro, logo em Monsanto, dá pelo nome de Rota dos Barrocais, palavra que significa paisagem rochosa coberta com blocos insulados procedentes da meteorização da formação granítica subjacente, o que, em termos leigos, se definiria por conjuntos de enormes pedregulhos, alguns deles encostados ou mesmo sobrepostos.

 

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Um homem olha para cima, hesita se não devia usar o mais habitual caminho para o castelo, faz das fraquezas forças, e rapidamente obtém o primeiro prémio: a casa que foi de Zeca Afonso. De lado, uma lápide recorda a estada do cantor em Monsanto. Ali se diz que, seguro do fim que se avizinhava, terá afirmado: “Já não volto à Beira!”.

 

Rios que vão dar ao mar / Deixem meus olhos secar / Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar.

 

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Montanha acima em direcção ao nordeste, atingem-se os Penedos Juntos: Dois pares de grandes penedos que, separados por fractura do afloramento a que pertenciam, se soltaram e aqui se fixaram, criando um estável equilíbrio. Assim é, e, para deleite dos visitantes, a justaposição dos penedos produz ao mesmo tempo um abrigo e uma passagem. Atravessemos e prossigamos, espantados da beleza do inóspito:

 

De pedras julgava o viajante ter visto tudo. Não o diga quem nunca veio a Monsanto.

(José Saramago... Com a devida vénia).

 

Um homem detém-se junto às placas informativas do percurso, mas também a olhar com olhos que nunca assim viram, cegueira de quem vai por ir:

– Vens ou ficas? – pergunta-lhe a mulher já umas toesas bem acima.

 

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Uma pedra ao nível do chão reclama por nome próprio: Lage das Treze Tigelas ou as Tigelinhas da Fidalga. O sendeirista conta-as: 14, pois uma está escondida, e isto não é novidade para a alminha que ali colocou a placa que, certamente, terá preferido manter-lhe o nome pela qual a pedra é conhecida, furtando-se a eventual reacção popular negativa: “Ainda me caía uma pedra em cima”, terá dito bem a-propósito. Para que se saiba que o viageiro é rigoroso, aqui fica a explicação técnica para o fenómeno: Quando a rocha é exposta, dá-se uma erosão diferenciada, decompondo-se nas áreas agora correspondentes às covas, processo geológico conhecido por meteorização química.

 

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Castelo à vista – forma de dizer, entenda-se – o caminhante dá com a capela e necrópole de S. Miguel, a primeira já sem cobertura, exposta à chuva e ao sol, ao silêncio de Inverno e ao oh! de espanto no Estio. O povoamento medieval de Monsanto foi feito ao redor do templo românico construído por volta de finais do século XII, tendo, nos últimos tempos, surgido a dúvida se não terá sido erigido em cima de monumento anterior, o que a ser verdade, levantaria novas questões acerca da colonização e objectivo do espaço. Curiosamente, afirma-se que a necrópole é anterior ao templo: um dado importante para a questão atrás colocada.

Um homem é curioso, não lhe fica mal se tal endereçar para o conhecimento. Naquele lugar cruza-se um outro percurso que chama a atenção mais que não seja por parecer bem menos utilizado. Ao longe, um arco de pedra grita “vem-me visitar”:

– Onde vai dar este percurso? – pergunta a mulher.

– Não faço ideia. No limite... volta-se para trás.

Que graça teria uma aventura, se soubéssemos de antemão tudo o que nos espera?

 

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A capela da qual nada resta teve por orago S. João. Possui as paredes arruinadas, lajes jazendo ao deus-dará pelo chão. Terá sido construída por volta do século XVI, talvez um pouco antes, havendo notícias de servir a prática de culto duas centúrias mais tarde. A imaginar o tamanho da pequena capela de uma nave, o arco estranhamente imaculado surge, desproporcionado. Alguém se terá entretido a construí-lo, provavelmente no século passado, mais para enquadramento fotográfico do que por outra qualquer razão. Prossigamos.

 

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E das trevas nasce a luz: o percurso leva-nos à porta falsa ou da traição. A primeira impressão é que a natureza muito terá facilitado a vida aos homens, pois o aproveitamento das pedras é engenhoso, bastando a construção manual de alguns segmentos de panos de muralha para lhe garantir a defesa. Trabalho sério, devem-lhes ter dado as torres góticas que ritmavam os panos da longa cerca.

Há duas curiosidades à volta da pequena porta. A primeira reside no princípio da possibilidade dos sitiados poderem efectuar ataques nocturnos sobre os sitiantes, sem perigo de maior para a urbe. Acontece que muitos foram os exemplos (não obrigatoriamente em Monsanto) da operação efectuada em sentido contrário, isto é, alguém, no interior, traía os seus, abria a porta, e permitia o acesso dos inimigos ao castelo. Em muitos dos casos ficou por se saber se Roma pagou a traidores. Daquele facto decorre a segunda curiosidade: a porta esteve emparedada, pelo menos, em parte da sua história, pois não se registam notícias da sua existência em relatórios do século XIX.

Contudo, o viageiro não entra ainda, pelo menos para já, não consegue desfitar o horizonte sem deitar um último olhar para a banda donde viera. Os calafrios da nortada sopram rijos, a manhã vai áspera, o visitante amantalhar-se-ia para se resguardar se de tal se provera; não o fez, resta-lhe aconchegar a grossa camisola ao corpo. De além das longínquas cumeadas que enganam os olhos pois à mão parecem estar, ergue-se o maciço da fortaleza de Penha Garcia. No pendor da serra, erguidos nas lombadas dos desníveis próprios da montanha, os inóspitos pedregulhos provocam-nos; parecem induzir, ainda mais forte se possível, a ideia do frio gelado que em nós se entranha regorgitado pelo vento gemebundo. Lá para a baixa da serra impera ainda a geada, o sol teima em privilegiar os cumes e as portelas por onde o viageiro caminha: eis o castelo! Finalmente.

 

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A fortaleza foi construída sobre uma anterior atalaia, provavelmente muçulmana, pelos Cavaleiros da Ordem do Templo, a quem Afonso doou grande parte das terras beirãs com a contrapartida do seu povoamento e defesa. No século XIII o local foi reformado com elementos góticos, altura em que se deu o acastelamento do cume. No perímetro interior ergue-se a capela de Santa Maria do Castelo, datada do século XVIII. Apresenta-se em melhor estado do que a de S. Miguel, ainda que sem motivo que a recomende. Nas imediações, foi construída, no século XIX, uma rampa que acede a um muro para encaminhar e instalar quatro canhoneiras: sinal de que a guerra não está assim tão longe como a supomos.

A delimitação da área da fortaleza obedecia a parâmetros próprios da época: torre de menagem (hoje inexistente) num ponto alto a meio da cerca; cidadela/alcáçova numa espécie de pátio amuralhado com uma só porta. É naquele lugar que anualmente se celebra a lenda da bezerra, história de tal forma similar à de Deu-la-Deu Martins, que aqui me escuso de a contar, acreditando que o leitor não se tenha esquecido do que aprendeu na escola primária.

 

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Uma caminhada serra abaixo que por vezes obriga ao apoio entre os ramais do arvoredo, leva-nos a um sítio encantador, charme que, logo à chegada, se percebe também ser o preferido dos pares de namorados ou mais qualquer coisa que por ali circulam. S. Pedro de Vir-a-Corça é basicamente o local onde está instalado um templo de nave e cabeceira tripartida, formado por ousia (zona do altar-mor) ladeada por estreitos absidíolos. Está fechada a igreja, pelo que nada mais se lhe adivinha que não as formas. Possui, na fachada, porta e rosácea que auxiliam a adivinhar-lhe o estilo – românico nacional tardio – e época – século XIII –. A exploração do espaço em redor leva a um campanário habilmente construído sobre uma rocha. Quanto aos sinos, agora ausentes, desconhece-se-lhes o paradeiro... ou o visitante ficou na ignorância acerca do valhacoito. O estranho nome do local está ligado à história de um anacoreta, de nome Amador, cuja lenda inclui uma mãe e um filho, a tentação do diabo, e uma corça generosa em doar o leite para salvar o rebento humano.

 

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Ah, é verdade! É preciso fazer o caminho de volta; para cima, a cabrear e a bufar, que pela aba da serra está um calor dos diabos... ou será tão-só o produto da humidade e do esforço da subida?

 

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Escrever/descrever uma história pode ser moroso, todavia, possui também a vantagem de viajar mais rápido do que o tempo, algo semelhante a uma película em que o realizador, entre duas imagens, coloca a informação “Dois anos mais tarde...” Não vai o escriba abusar da serventia; avança apenas um par de horas e coloca o viageiro junto à Igreja Matriz de Penha Garcia, local onde começa a Rota dos Fósseis.

 

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Não tem este sendeirista fervor especial por elementos petrificados normalmente a requererem olhar treinado, contudo, a paisagem, vista do castelo, desafia à descoberta. A primeira parte do trajecto é auxiliada por todos os santos, no que se deduz que se dirije para baixo, em direcção à barragem que aprisiona o Ponsul.

 

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É tempo de calar, escutar os silêncios das águas do rio que a nosso lado correm, aqui ajudando velhos moinhos de rodízios a gemer na sua vetustez; ali caindo em cascata (ainda que artificial), formando uma frondosa piscina (Fonte do Pego): mais além correndo na levada, saudando o avô Cassapo, do qual somente o espírito pairará ainda por ali. Pelo caminho, as bem conservadas casas dos moleiros, espectadores privilegiados da pigmentação amarelada das colinas. Dessedenta-se o viajante que água mais pura não haverá no mundo... pelo menos assim lhe pareceu naquele momento – perdão terá pelo dislate, certamente.

 

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Seria injusto da parte do visitante não mencionar outros atractivos, que os há, em Penha Garcia, a começar pelo magnífico pelourinho, e, muito particularmente, a Virgem de Leite, com morada na Igreja Matriz. Lê-se no folheto respectivo que a peça é gótica e feita em pedra de ançã com o manto azul-escuro e a túnica vermelha, isto a fazer fé nos vestígios policromáticos. O panejamento revela um grande cuidado artístico. O manto cai da cabeça sobre os ombros, apanhado com o braço esquerdo, passa pela frente num conjunto de pregas cheias em quatro curvas harmoniosas, prendendo no lado direito, depois de cobrir o Menino da cintura para baixo. Os sapatos terminam em bico. A cabeça encontra-se levemente inclinada com os cabelos caídos pelas costas. A mão direita segura o Menino e a esquerda toca-lhe o pé direito. Apresenta uma coroa fixa trabalhada ricamente. Jesus aparece em tronco nu, a ser amamentado e a olhar para a mãe. A impressão do observador é a de que Jesus se apresenta com proporções exageradas, bebé de quase um metro de altura.

 

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Compromissos anteriores obrigam a encurtar a tarde para ir a Idanha-a-Nova buscar vitualhas festivas encomendadas à medida de quem não está na própria casa. De volta a Monsanto a mulher recorda o quanto lhe compraz ir à missa do galo, instrumento de coesão social entre a população campesina. Porém, o mundo deu muitas voltas: o horário da eucaristia é agora adaptado às paróquias que o responsável único por todas elas detém As badaladas na torre sineira começam um pouco antes das seis da tarde, a pesada porta da igreja desferra-se; aleluia, aleluia, nasceu o Menino Jesus.

 

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Nem todos os homens são de fé, a alguns sobrar-lhes-á a boa-vontade: é assim que este hóspede ocasional de Monsanto gosta de se ver. Aquece-se no madeiro que começou a crepitar ainda há pouco. Durará enquanto os homens quiserem, pois o pinheiro central apresenta-se virente e robusto. Haja presteza em não o deixar apagar.

Relatos em segunda-mão afirmam que os primeiros passos do Menino, isto é, do padre em Seu nome, foram constituídos por forte tropeção na nave central da igreja: querem ver que o sacerdote já leva grão na asa? Chegou também a má-educação ao acto litúrgico: as velhas trocam cochichos, uma delas debita lamúrias do que foi e já não é; tangem e pincham os telemóveis de novos e menos novos; a internet é motivo de entretenga de todos; o ministro do Senhor é cada vez mais mero secretário: mau sinal, mau sinal. A seu tempo são os fiéis convidados a cumprimentarem-se; fá-lo somente quem se conhece: é Natal... é Natal... E o pior é a seresma que de tão pia se querer mostrar, "exocrina" os ouvidos dum cristão. Na verdade, a beata não “pia”... grita.

 

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Improvisa-se anormal refeição no quarto: presunto, queijo, doçaria variada, vinho e licores. Hora de partir para Penamacor, em busca do apregoado “maior madeiro de Portugal”. A televisão falara dele, aguçara o apetite para ver algo incomum. À chegada, a única anormalidade residia no facto de pouco restar das labaredas da tarde, embora a suposta área ocupada pela madeira fosse generosa. Querem ver que por aquelas bandas ninguém sabe que, ateado o fogo, há que ir juntando a matéria combustível, sem falar da importância de acrescentar novos troncos em substituição dos já ardidos? Saberão, certamente, mas como a televisão já lá estivera... Para não ser inteiramente injusto, diga-se que a vila estava aprumada e embelezada com iluminação como Cascais, por exemplo, não possui.

 

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Volta o viageiro a Monsanto, onde o madeiro resiste e aquece quem a ele se chega.

O bolo-rei vai ser partilhado na recepção com o Jorge, que também é gente, antítese de pedra, de tudo o que por aqui existe... ou seremos já todos pedra? Surgem cumplicidades, fazem-se planos; o mundo ficou, subitamente, melhor: é Natal... este sim, o da aproximação dos homens.

 

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O percurso do Erges vai ter de ser adiado; é que a chuva ameaça o prazer. Como a alma não é pequena, reajusta-se o plano: Termas de Monfortinho, onde não se vê vivalma; Salvaterra do Extremo, vila com o maior número de dejectos caninos do mundo por metro quadrado (merda de cão, entenda-se). Se o visitante se conseguir abstrair da visão e cheiro, pode sempre ir deitando um olhinho à matriz, ao pelourinho ou à torre sineira.:

– Chega, leva-me daqui para fora – diz a mulher, cujo olfacto pede meças a qualquer perfumista.

 

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Em Segura o viageiro interessa-se pela magnífica ponte romana. O Erges corre lá em baixo; o tabuleiro define a fronteira: metade minha, metade tua. Os símbolos de Portugal e Espanha espreitam dum e outro lado, recordação do tempo em que a polícia em tudo metia o bedelho. Ir a Alcântara ver a mãe desta ponte, é a dúvida. Não há tempo, ficará para a próxima, não falte a vontade.

 

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O almoço do dia 25 foi atempadamente reservado no Almortão. O santuário mais parece espaço de feira semanal, compreendendo-se mal onde se descobre o fervor religioso. A igreja possui múltiplos elementos pintados a púrpura. O interior não deslumbra. A atenção do visitante dirige-se para a ingenuidade dos votos e as inscrições no chão de acesso ao templo, no qual foram sepultados Inácios, Jóias, Capelos, Belos entre outros, com a curiosidade das datas dos respectivos passamentos se referirem ao século XX.

 

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Já a 26, a caminho de Lisboa, surge Vila Velha de Ródão. A localidade é feiíssima, carregada de chaminés das fábricas a debitar fumo para o ar. Valem-lhe as afamadas Portas de Ródão, onde um homem faz as pazes com a natureza. Lá voltará o viageiro, mais que não seja, pelo castelo do visigodo Wamba. É que, às vezes, mais vale um homem imergir no mito do que na realidade.

 

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Antes de me referir à “ficha técnica” dos restaurantes a que recorri, deixo um comentário à aldeia de Monsanto. Meio de propaganda do ruralismo paternalista do antigo regime, é um belíssimo local onde se faz sentir a desertificação humana. Pelo Natal, a aldeia encheu-se de pedantes famílias donas de solares abandonados, e arrogantes seres idos em busca da comida da avó. Por mim, dispenso-os; prefiro os aldeões que dão os bons-dias com um sorriso nos lábios. Descrever Monsanto é falar dos penedos, das vistas, dos monumentos carregados de história, de um local onde o médico vai três ou quatro vezes por mês, os apoios aos turistas não funcionam, o sino da igreja toca incessantemente toda a noite. Ir a Monsanto é mergulhar no passado com presunção de presente... para o bem e para o mal.

 

Nota: Perto do cemitério existe uma imagem de Cristo recentemente oferecida à povoação. Pintada de branco, está desajustada de tudo o que “é” a aldeia. Provincianismos!

 

Vamos aos restaurantes.

 

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Restaurante do Santuário da Senhora do Almortão - Idanha-a-Nova

O melhor da região. Comida bem feita e em quantidades generosas, com um senão: o chef (???) Óscar (gosto mais de “cozinheiro”) participou recentemente num dos inúmeros programas de televisão dedicados à culinária. Não sei se estarei correcto, mas as peças de fruta misturadas no cabrito, no javali, no borrego, na perdiz, prováveis reminiscências do que naquele “aprendeu”, não fazem sentido algum, conforme se prova pelo retorno dos pratos. Preço médio/alto.

Nota: 7

 

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Restaurante Helana – Idanha-a-Nova

Comida feita com cuidado, embora não impressione por aí além. Provei a cabidela, cuja quantidade exagerada de vinagre transmitia um sabor amargo ao arroz. Preço médio.

Nota: 4

 

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Restaurante Petiscos e Granitos – Monsanto

Serviço e comida aquém do mínimo aceitável. Experimentei o bacalhau que não estava no ponto. Preço médio/alto.

Nota: 2

 

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Restaurante O Raiano - Penha Garcia

Cozinha honesta sem motivo de exaltação ou crítica. Um reparo: a internet, disponível “para os espanhóis se entreterem enquanto esperam”, diz o proprietário. O barulho dos equipamentos pelas mesas fora, remetendo os outros comensais para os estúpidos mundos de aventuras e bandas animadas é tão incómodo que me pergunto como poderiam os funcionários ali trabalhar se todos fizéssemos o mesmo. “São eles que cá deixam o dinheiro”, repete a alminha que não compreende que em vez de “lamber o dito cujo” a espanhóis, bem melhor faria em cativar os portugueses. Ah, é verdade: tanto quanto me pareceu, nuestros hermanos esquecem-se amiúde de pedir a factura! Preço médio/baixo.

Nota: 4

 

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Restaurante O Bigodes – Ortiga (Mação)

O peixe de rio fora anteriormente congelado, o que me impede de ter opinião segura sobre a frescura do mesmo. Estranhei que todos os pratos propostos fossem de carne num estabelecimento que é conhecido pelo peixe de rio. A sala é pequena demais para o número de mesas, o que provoca largo desconforto enquanto ali se permanece, posto sermos permanentemente importunados por quem tem bichos carpinteiros no rabo e vontade de fumar um cigarrinho no caco. Preço elevado sem justificação.

Nota: 4

 

FIM

04
Jan18

NATAL EM MONS SANCTUS - PARTE PRIMEIRA

Eduardo Gomes

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Dorso de monstro a crescer para nós até tomar conta de todo o céu

 

Foi com a frase acima que Fernando Namora se referiu a Monsanto, a “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, conforme concurso datado de 1938. Outras figuras à terra se dirigiram em versos e prosas, dentre as quais se salientam Zeca Afonso e José Saramago.

Se o Natal é quando um homem quiser, pode também acontecer onde este o desejar. E o viajante quis que fosse ali, no Mons Sanctus romano, com olhos de águia sobre a presa lá em baixo, que, por estas bandas, tanto se poderá chamar Relva como Eugénia. Se o hominídeo pretender desafiar a vista e a memória geográfica, entreter-se-á a talhar nomes para as serras que vislumbra do quarto, membros superiores apoiados no parapeito da pequena janela de tipo guilhotina.

 

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Posto haver residido na escolha do hotel a dúvida maior na decisão relacionada com o “onde ficar”, comecemos por aludir à opção encontrada, tratando-o pelo nome próprio: Monsanto, Geo-Hotel Escola, isto é, a antiga pousada de Portugal, uma das que o senhor Pestana descartou habilmente, a qual, emmentes, terá passado por mãos privadas, até que a Câmara de Idanha lhe deu segunda vida e objectivos em consonância com a nova missão. Por ali tudo tresanda a inexperiência, a gosto duvidoso, a investimento controlado, a serviços mínimos, mas também a simpatia, a desejo de superação, ou seja, bem à portuguesa, procurar fazer das tripas coração, algo transversal à Fátima, à Cátia ou ao Jorge, funcionários da unidade hoteleira.

 

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Em relação ao período “pousada”, nota-se que perdeu o restaurante, que não a capacidade de prover refeições. Diz-se que tal terá sido imposição dos empresários locais, algo que não se compreende por duas ordens de razões: a primeira porque os estabelecimentos existentes na aldeia parece abrirem e fecharem quando lhes apetece; a segunda, a fazer fé na premissa inicial, entendida enquanto incrível cedência negocial do município Idanhense. Certamente que não dominarei os meandros do assunto, porém, que é bizarra a situação e nociva para os interesses da aldeia, não restam dúvidas.

 

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E, afinal de contas, em que ficamos: vale ou não a pena ficar no Monsanto Geo-Hotel Escola? O meu conselho vai no sentido de que em vez de reclamar das molas do colchão que lhe magoam o corpo ou da almofada rija, alta e cheia de pedaços de gorgorão, vá fazer o Percurso dos Barrocais ali mesmo, em Monsanto: à volta de S. Pedro de Vir-a-Corça estará tão cansado que adormecerá embalado nos braços de Morfeu; se o seu problema for o barulho do ar condicionado que ainda funciona “a lenha”, vá fazer a Rota dos Fósseis, em Penha Garcia: a beleza paisagística inebriá-lo-á, nenhum som maculará jamais ouvidos a que assobiaram as águas dos moinhos de rodízios; se quer criticar a exiguidade e falta de variedade do pequeno almoço, esqueça o material e pense no bem que lhe fará ao espírito caminhar à beira do Erges, em Monfortinho.

 

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Ah!, e se já estiver farto de aturar a mulher e os filhos que não largam o I-Pad nem às refeições, numa manifestação de desconsideração para consigo – ainda que você finja que não nota – , deixe-os, vá desvendar os segredos nocturnos da aldeia ou entretenha-se a descobrir São Tomé nas palavras generosas e apaixonadas do Jorge, antigo sargento, segurança, pedreiro e restante pão que a ciência do diabo amassou sem lhe conseguir minar a alegria pela vida e pela família.

E, já agora que estou com a mão na massa: pare de reclamar da inexistência duma caixa multibanco ou da falta de estacionamento local, que o hotel não tem culpa alguma. Cada um deve saber escolher os locais onde se sente bem, e responsabilizar-se a si próprio, e não aos outros, pelas opções que toma. Informação relevante, não falta.

 

Vamos à viagem.

O dia 22 obrigou a cerca de trezentos quilómetros de automóvel com paragem para almoço no restaurante da Srª do Almortão, local do qual nem por inspiração divina consegui apurar a grafia correcta, isto é, se com u, se com o, tão díspares e numericamente equilibradas se encontram as informações nos sinais de trânsito ou nos painéis que por ali existem. Aguardemos pelo milagre da correcção. Repasto demorado, coisa de gente em férias, e ala que se faz tarde em busca do hotel.

 

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Com uma hora de luz ainda pela frente, faça-se uma primeira abordagem ao percurso 5, chamado dos Barrocais, que parte do posto de turismo, ruma a oeste passando pelos Penedos Juntos, e segue, num espectáculo de êxtase pedregoso, até ao patamar onde se encontra a capela de S. Miguel.

– É tarde, começa a anoitecer – diz alguém.

– Falta ver o castelo – reponde outrem.

 

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Faltava, de facto: o castelo, os cães, os porcos, os lobos, as tartarugas cujos formatos nas rochas nos são enviados pela imaginação numa particular perspectiva para logo se esfumarem um passo mais à frente... E as pedras, sempre elas, as verdadeiras culpadas de tanto desatino.

– Amanhã voltaremos.

– Amanhã será.

 

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Não seria bem assim. Era tempo de aproveitar a luz (ou a falta dela) para tirar as fotos que, provavelmente, não conseguiremos repetir.

 

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Avancemos então para a discrição da noite que seria passada no Forum Cultural de Idanha, na companhia da Isabel Silvestre, a do Grupo de Cantares de Manhouce. Isabel, tal como Amália, tem um dom: é a voz de Deus dedicada ao povo eleito, povo que são todos os homens de bem, os quais, certamente, Ele, onde quer que esteja – a acreditar que está em lado algum –, não descriminará por serem católicos, judeus, muçulmanos, budistas, ateus ou o mais que pelos quatro cantos do mundo se encontre. E não venham os poderosos e os ricos aproveitarem-se: Isabel não lhes pertence; Isabel não os celebra nos seus cantares.

Espectáculo atrasado, jantar perdido, pois em Idanha não há onde comer fora de horas. Culpa da Isabel, do Abel Moura e das acompanhantes que se demoraram pelo Helana. Amanhã será outro dia.

 

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Sábado ameaçava ser a única oportunidade de comprar artigos regionais no “Mercado de Natal”, em Idanha-a-Nova. Música e figuras típicas alusivas à época não conseguem esconder o eclipse desta forma popular de comprar e vender. Fique a intenção camarária. Fora, o primeiro madeiro detectado crepitava. Aqueçam-se os elementos femininos do subitamente alargado grupo.

 

À construção do castelo estão ligados o nosso primeiro rei, os Templários e o seu mestre, Gualdim Pais. Do amuralhado, que me pareceu aterrado no interior, tem-se uma fantástica vista. Diz quem sabe que dali se observa a Falha do Ponsul... Talvez para olhos treinados, pois, para leigos, o gigantesco degrau morfológico que se observa ao longo de 120 quilómetros, é indetectável, retiradas que sejam as observações empíricas do tipo “Não vês, ali?”, dedo apontado para uma qualquer parte do curso do rio em que uma das margens apresenta desigual nível. Para memória e cultura, aqui deixo a explicação técnica para o fenómeno:

 

A Falha do Ponsul é uma estrutura tectónica com mais de 300 milhões de anos, causada por um movimento de desligamento esquerdo resultante da mega colisão continental que deu origem ao super continente Pangea e à impressionante cordilheira montanhosa Varisca.

 

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Um madeiro está preparado para mais tarde ser consumido no largo da Igreja Matriz, dizem-nos as velhas enquanto tricotam uma qualquer renda sentadas ao sol protegidas pelo presépio onde Maria, José, vacas, burros e reis Magos se acotovelam num pequeno espaço coberto. Ali, ao lado, a altaneira torre do sino vigia inesperadas consequências do fogo.

 

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Próxima paragem: os fornos dos louceiros. São três “capuzes”, um deles em melhor estado do que os outros, permitindo ver como se cozia a louça em tempos passados. Estão situados no largo de uma zona habitada, servem de caixote do lixo de quem por ali passa e necessidade tem de atirar a beata do cigarro, a lata vazia de refrigerante ou o envelope rasgado do correio acabado de receber. Proponho ao município que encontre solução que lhes dê dignidade, e, já agora, uma placa identificativa pelo caminho a auxiliar o pobre viageiro.

 

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E foi por causa da busca que o visitante deu de caras com a capela de Jerónimo de Estridão, esse mesmo, o santo tradutor da Vulgata Latina. A capela encontra-se no interior da cerca do Convento de Santo António. És homem e em pó te hás-de tornar é a evocação que expressa a obrigatória descida da escadaria para ali aceder. O pequeno altar da capela mostra-nos o mártir antes de o ser, isto é, a imagem carrega alguns dos atributos que lhe são conhecidos enquanto simbolismo iconográfico: leão dormindo a seus pés, chapéu cardinalício e a maqueta de um templo na qualidade de Doutor da Igreja ( faltam, por exemplo, a caveira, a trombeta e a coruja). Ao lado, a tenda que, a cada biénio, alberga a Feira Raiana.

 

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Tempo de seguir para a outra Idanha, a Velha, antiga Egitânia visigótica, Civitas Igaeditanorum para os latinos, fundada em finais do século I a.C., muito provavelmente por Augusto, o conquistador do noroeste interior da Hispânia. Foi sede de bispado no século IV, estatuto que manteria posteriormente sob o domínio suevo e visigótico, ainda que com intermitências. Foi ocupada – naturalmente – pelos muçulmanos, reconquistada no século XII pelos cristãos, que, pela mão e a espada templária, lhe erigiram cerca amuralhada que de pouco lhe serviu, postas as alterações que já se faziam sentir na geografia política da Península Ibérica.

 

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Porém, antes de se perder na povoação, vai o viageiro ver a chamada ponte romana. Franze o nariz às primeiras observações: é mesmo da época romana?, questiona-se ao ver-lhe o traçado e os pilares onde os respectivos arcos se manifestam divididos entre o tipo quebrado e a de volta perfeita, muito provavelmente, resultante das várias reconstruções. Romana ou não, parece ser um dado adquirido que por ali se efectuaria a travessia do rio no medievo e mesmo antes, ponto de passagem da estrada que ligava Mérida (Emerita Augusta) a Braga (Bracara Augusta) por Cáceres e Viseu. O Ponsul vai baixo, permitindo o vau com umas simples galochas, o que facilita a recolha de invulgares imagens fotográficas tiradas de baixo para cima.

 

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Egitânia não possuía acrópole, todavia, há hoje a convicção da existência do forum – centro cívico e religioso –, face aos vestígios encontrados do podium do templo que nele se encontraria. É sobre este espaço que se ergueu a Torre dos Templários, da qual resta ainda um quadrado de paredes com alguns metros de altura abertas para o céu, poiso de muscíneas e talófitas, onde, certamente, Gualdim Pais e Jacques de Molay vão recolhendo os fragmentos e pedras soltas de que o tempo a despoja para a reconstruirem num local secreto só conhecido dos rosacrucianos.

 

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A chamada basílica visigótica é, na verdade, paleocristã, datando a sua fundação do século IV. É constituída por três naves, com o pormenor bizarro do nosso primeiro Manuel (chegámos mesmo a ter um segundo?), com aquela obsessão de ficar para a história, ter-lhe mandado alterar o sentido, que, originalmente, se estruturava de norte para sul, e, após decisão do Venturoso, passou a efectuar-se de poente para nascente. Imagine-se o que terá sido uma capela lateral passar a altar-mor, o transepto a virar enteado no meio da confusão que deve ter gerado entre os crentes. Teria o rei, certamente, especial fascínio pela chamada porta visigótica. Manias de quem deve ter possuído tal ego que não percebeu que tudo – o país incluído – lhe caiu nas mãos por obra de D. João II, esse sim, um Príncipe Perfeito.

 

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O acesso ao interior da mesma é possível sob acordo com o posto de turismo. Ali, a primeira impressão é de desconforto pela humidade, desolação das paredes e desarrumação, à qual só falta o diligente funcionário avançar com a conhecida frase das donas de casa negligentes: “Não notem, que tivemos de sair à pressa esta manhã”. No topo de um dos nichos, uma data surpreende: 1893, por cima dum conjunto de inscrições simbólicas de origem algo enigmática. Alguns frescos, ou restos deles, lembram intervenções posteriores datadas dos séculos IX, XIV e XVI. Outras, mais recentes, referem-se a blocos de degraus bem modernistas e chão que, segundo os interventores, é possível de levantar se acaso se pretender avançar com escavações arqueológicas, ali, no local que, no século XIX, perdeu a sua qualidade de Igreja Matriz para passar a servir de... cemitério.

 

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Nos anos que decorreram sensivelmente entre 1990 e 2005, a localidade foi alvo de um projecto de conservação e manutenção dos edifícios históricos. Recuperaram-se os torreões da Porta Norte, criando-se um passadiço ao longo das muralhas. Acrescentaram-se estruturas em ferro a imitar as torres que originalmente serviram de coroamento do amuralhado.

 

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Por último refira-se o aproveitamento de um antigo lagar de azeite – porventura, originalmente, uma casa manuelina – para não só recriar a estrutura daquele, mas também para instalação do posto de turismo e, em anexo, um museu epigráfico.

O visitante fica encantado com as peças ali arrumadas. Lá voltará por três vezes, como que a acorrer ao chamamento dos mortos, daqueles que da lei da morte se vão libertando. Os testemunhos dos vivos que mandaram gravar em pedra a memória dos que amaram, é, só por si, impressionante. Este viageiro tem a sua preferida. Trata-se duma estela funerária, e o panegírico provém dum morto-vivo. Quem, dentre nós, aceitaria a morte em tais circunstâncias com tamanha doçura?

 

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Ainda em jovem, e sem temer a triste morte, eu, Anceito, filho de Célcio, terminei a minha curta vida. Os meus despojos jazem aqui. Vós, minhas cinzas, descansai em paz!

 

Quiçá “óptimo” não tivesse a relevância adjectival contemporânea, todavia, não deixa de impressionar esta prova de amor:

 

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A Gaio Cúrio Firmano, filho de Pulo, da tribo Quirina, de 63 anos. Cúria Vital mandou fazer para o marido óptimo e para si.

 

De longe vem a capacidade do homem desempenhar vários cargos ao mesmo tempo. Observe-se o tributo numa das placas de pedestal para retrato funerário:

 

A Lúcio Márcio Avito, filho de Fusco, da tribo Quirina, prefeito dos artífices, prefeito da primeira coorte dos sagitários da Síria, tribuno militar da X legião Fretense, prefeito da cavalaria da primeira ala dos cidadãos romanos. Foi condecorado. Márcio Materno, cavaleiro da mesma ala, por mérito ao óptimo perfeito.

 

Num bloco arquitectónico moldurado de monumento funerário, cruzam-se as gerações:

 

Lúcio Coceio Lício, de 100 anos. Gaio Fúrio Lício, emeritense, de 60 anos. Gaio Fúrio Eutíquio, de 20 anos.

 

O viageiro fez um minuto de silêncio em honra de quem há muito partiu.

 

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Subitamente um homem precisa do ar não contaminado da monumentalidade que o envolve. Sai pela porta a sudoeste, passagem nem sempre ali disponível. Dirige-se ao rio, observa as poldras, e, de salto em salto, pula até à outra margem. Desafio “perigoso”conforme avisa a placa identificativa? Quanto dariam os “amigos” que deixei no museu para ali estarem, vivos como eu?

 

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Na hora de partir, o viageiro leva a dúvida consigo: a emblemática porta poente foi mesmo construída pelos visigodos? Era mesmo uma porta, ou somente um lavrado arquitectónico? E, em qualquer caso, assumindo que os germanos não lhe alteraram a orientação do culto, porque não construíram outro acesso idêntico, a nascente, que equilibrasse esteticamente o edifício? D. Manuel redefiniu somente um posicionamento ou mandou derrubar um conjunto de pedras e construir-lhe uma porta para saciar tanto narcisismo? E quanto à simbologia no vértice do triângulo: se a cruz poderá ter sido incluída em qualquer momento, posto romanos, suevos e visigodos, todos a seu tempo, terem passado a professar o cristianismo, já o escudo de Portugal carece da constituição física do reino. Quando foi ali colocado? (Nota: há um terceiro símbolo que me parece uma esfera armilar. A ser assim, as dúvidas tornam-se-lhe também extensivas).


(Continua)

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