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Das Viagens

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Das Viagens

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Abr17

ALCOA E BAÇA

Eduardo Gomes

Sábado, 8 de Abril de 2017.

 

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Um dia especial onde se cruzam comemorações várias. Algumas horas, poucas, ainda assim as suficientes para usufruirmos do dom da vida, não da mítica que nos deram, antes daquela que construímos e a que damos sentido.

Ir e vir no próprio dia, obriga a deslocação pensada. Alcobaça é o destino. Na mente, a certeza de que o tempo tem de ser bem gerido; na vontade, o desejo de parar nas Caldas da Rainha Leonor, mulher de D. João II, que, certamente, não esperaria tivesse tanto sucesso o mercado que se realiza umas poucas toesas acima do seu hospital termal.

Venceu a razão. O Mosteiro de Alcobaça, inicialmente gótico, aparece cada vez mais como elemento charneira da actividade comercial da cidade.

"Grande, maciço, saxónico na aparência e com seu tanto ou quanto de austero", assim foi classificado por um ilustre viajante estrangeiro há mais de duzentos anos. Hoje, por ali ciranda todo o tipo de gente, incluindo os sempre presentes asiáticos em busca de fotos.. de todo o lado... de todo o tipo.

Alguém se lembrou de construir um parque de estacionamento grátis a pouca distância, na zona a leste do monumento, o que facilita a vida de quem ali se desloca e calaceiro para andar não é. O centro histórico e a bolsa do visitante agradecem.

Antes de arribar ao destino, o viageiro fica suspenso por uma melodiosa voz que vem de local entre prédios, protegido por um arco. Acabada a récita do cantor, experimenta, quem tal dom não possui, a acústica: então não é que se podia confundir com Luciano Pavarotti ou Plácido Domingo? Estranho arco que, entre as praças da República e Afonso Henriques, tão grande milagre produz.

 

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Faz, neste dia, exactamente, 864 anos que o nosso primeiro rei firmou a carta de doacção do couto a Bernardo de Claraval.O viageiro posta-se, como já o fez muitas outras vezes, em frente ao mosteiro que, ao contrário da sua origem, é hoje bem pouco gótico. Dos primórdios restam-lhe a rosácea e o sublime portal da fachada; tudo o resto terá desaparecido por volta de 1531.O terreiro perdeu o verde de outrora, é hoje uma área fria e algo inóspita, não fora os carreiros de água com que o Alcoa celebra, como desde sempre o fez, a vida monasteiral.

Lá em cima, bem no alto, dois campanários barrocos e várias estátuas desafiam-nos a equacionar quando é que cistercienses aceitaram coisa tão pomposa. No transepto sul da igreja, encontra-se a porta dos mortos, assim chamada por ser aquela a última que cruzavam os monges antes de recolherem à morada definitiva ali bem em frente

 

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A igreja da Abadia de Santa Maria de Alcobaça é magnífica, tão sumptuosa quanto despojada de decoração ou imagens. A primeira impressão é espacial, tem-se  a ideia de que se caminha para cima, para o Céu, tal o realce do altar-mor. O visitante é automaticamente conduzido ao transepto onde se encontram, desde há algum tempo, face a face, os túmulos de Pedro e Inês. São magníficos e presunçosos, protestando iconografia ligada à História de Portugal e á Bíblia.

 

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Sarcófagos à parte, não percebo, nunca entendi, o mito que ao rei e à amante se associam. Há dezenas de casos semelhantes na História de Portugal. Investigue-se a fundo a questão, e encontraremos testemunhos do próprio Pedro que em tudo desmentem a versão oficial.

 

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E, já agora, como é possível que deixemos no eterno descanso no mosteiro de Sancti Spiritus de Toro a mulher mais vilipendiada de Portugal, e exultemos com uma galega que só trouxe problemas ao nosso país? 

 

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À volta do cruzeiro latino encontram-se nove capelas radiais que, globalmente, não clamam por atenções especiais. Contudo, a sacristia nova possui dois portais manuelinos, únicos por estas bandas, local policiado por uma imagem de Santo Isaías, sem que se entenda o porquê.

 

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No lado sul do transepto, junto da capela de S. Bernardo, encontram-se os túmulos dos Afonsos, II e III, a emoldurar uma cena da representação da morte do santo.

 

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Entre-se então na área de visita paga. A Sala dos Reis inspira nacionalismos mais ou menos pacóvios. Data do século XVIII, e, por tal, só possui as imagens dos monarcas até D. José. Seis pedestais permanecem vazios. Dirá o visitante que outros cinco ali faltam, pois, contando com o devaneio Miguel, e com os Pedro III e Fernando II, ambos reis consorte, são onze os titulares apeados. Quanto a Duarte, coitado, está sem cabeça. Logo ele que a tinha... e das boas.

 

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Numa das paredes, ao centro, impõe-se uma alegoria à coroação de Afonso Henriques pelo papa Alexandre III e S. Bernardo.

 

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É belo o claustro do Silêncio que envolve um conjunto de salões.

 

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Dentre aqueles destacam-se a Sala do Capítulo, espécie de parlamento do convento, local destinado a servir às reuniões onde temas importantes da comunidade se discutiam.

 

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A área dedicada à cozinha nova é, desde há muito, glosada pelos visitantes que se entretêm a calcular o número de reses que ali se podiam assar ao mesmo tempo, esquecendo a razão para a sua construção em detrimento da cozinha velha. Por ali estiveram, em tempos, os caldeirões com que se havia feito a comida no arreal de D. Juan I, em Aljubarrota. Apresentados dois séculos mais tarde a Filipe II, parece que o castelhano não lhes achou graça por aí além.

 

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O refeitório é alvo de imensas fotografias: pelo púlpito, onde um monge ia citando passagens bíblicas enquanto todos os outros se alimentavam; pela estreita porta, por onde, diz-se, passavam refeições aos pobre de fora do mosteiro. Abra-se aqui um parêntesis para afirmar que os monges tinham por hábito distribuir junto à portaria do mosteiro, aos pobres dos arredores, um pão de milho a que chamavam micha, ao qual acrescentavam a carne ou peixe que sobravam de cada refeição. Em cada quinta-feira santa, abriam a abadia aos mendigos, que, na ocasião, muito viam melhorada a sua ração diária.

E por falar em banquetes, reza a história que em 1794, a convite do cornudo regente João VI,  ali foi recebido com pompa e circunstância lorde William Beckford, romancista, crítico de arte, escritor de viagens e político. À porta, cerca de três centenas de monges, noviços e respectivos fâmulos o esperavam; na cozinha, uma panóplia de carne de veado, fruta, hortaliça e peixe de rio como nunca se vira. Horas mais tarde, e grande variedade de pratos exóticos que o inglês jamais cheirara em sua vida, lançaram-se as danças, minuetes ao som de clarinete e guitarra. Enfadonhos, assim os classificou Beckford, frustrado por não assistir a um bom fandango, bolero ou mesmo da libertina fofa, de quem se dizia confesso admirador. Quando foram servidos os doces e as frutas, diz quem viu, que o inglês, mandou sonoros beijinhos ao chefe da cozinha, um frade bem latagão.

 

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A subida até ao dormitório demonstra área generosa: cerca de 1300 metros quadrados. Diz-se que os monges se acomodavam por ali completamente vestidos, algo de que só admitiam prescindir quando precisavam de se deslocarem às latrinas no lado norte, altura em que exporiam o pirilau ao frio para resolverem necessidades biológicas.

 

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No lado oposto, isto é, a sul, há hoje uma vidraça que permite observar o transepto, a qual veio substituir as escadas que àquele conduziam quando os monges, marsápio na mão, se punham a imaginar cenas proibidas, e, por tal, precisassem de rapidamente chegar ao local de oração para exorcizarem tanta tentação da carne.

 

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Feita a escalada até ao dormitório, nada impede que se desfrute do clastro do Cardeal, a lembrar a figura grotesca e inquisidora do último Avis. Não há acesso àquele. O visitante que se fique pelas fotografias tiradas de cima.

O viageiro deixa em aberto outras descobertas. É que, inexplicavelmente, a abadia não possui casas de banho. À atenção  dos responsáveis pela unidade.

 

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Ia para lá do meio o dia, hora ideal para almoçar a quem deseja evitar os atropelos da uma da tarde. Em Alcobaça come-se no restaurante da pensão Corações Unidos, a antiga tasca José dos Corações, homem casado, nos primórdios do estabelecimento, com a afamada cozinheira Dª Joaquina Vieira. Conta-se que teve origem na arte do cozinheiro António de Sousa o famoso frango na púcara, que a tradição e este viageiro afirmam não haver melhor por muitas léguas em redor.

 

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O comensal vai ali, como já deixou subentender fazê-lo em relação a muitos outras catedrais gastronómicas, para um ror de anos. O serviço é atencioso e rápido. Se hoje nos pede 8 euros pela especialidade, há trinta e dois anos exigia 900 escudos, conforme reza a crónica do jornal A Capital, plasmada no quadro de honra do estabelecimento.

Já se não vêem por lá "os praças velhos" de antanho, substituídos por atenciosas moças. A Cândida chega-se à mesa e pergunta o que desejam "os jovens". Empertigo-me em dia de aniversário, brinco e elogio-a pelo bom humor. Responde que a juventude está na cabeça. Obrigado, querida.

 

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O plano da viagem previa a ida ao castelo, donde nos ameaçava uma extraordinária panorâmica sobre o mosteiro, da mesma forma que de cá de baixo já se haviam avistado as ruínas do que resta do monumento. Nada mais havendo a assinalar, fiquem as melhores fotos sobre a cidade.

-- Disseste que íamos a Cós. Sabes como lá chegar?

Mais ou menos, responde o viageiro, que recusa modernidades do tipo Global Positioning Systems, "gosta de pensar", diz, possuindo a noção geográfica do destino se situar para norte, algures para lá de Maiorga. Consulte-se a loja de artesanato situada junto ao mosteiro. Que sim, que até é de lá, responde uma velha, que de tão lenta nas explicações, exaspera um santo. Pega num pequeno pedaço de papel e começa lentamente a desenhar: estamos aqui, ponto; logo ali tem uma rotunda, novo ponto; a seguir cruza uma estrada que... Gaita, acabou-se a tira de papel; venha um novo pedaço, refaça-se o trajecto... Não tem GPS?, questiona o óbvio. Entram as netas da idosa, franzem a testa, sorriem ante a paciência da Tânia para lhes aturar a avó. Ufa! chega, já percebi. Adeusinho!

 

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Volta o viageiro ao carro que deixara estacionado pela manhã. Caminho fora, o Alcoa, bravio e forte e o belo palacete das Irmãs de São José de Cluny, dizem as más-línguas que construído com pedra roubada.

 

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A rua que ladeia o monumento pelo leste foi rebaixada, o que provoca situações caricatas, como aquela em que uma propriedade se encontra para venda. Posto que o acesso esteja dificultado por alto se encontrar o patim do edifício, a agência imobliária pede aos potenciais clientes que se munam de escada ou escadote se o querem visitar. Este viageiro, que em tempos não muito longínquos, possuíu uma agência imobiliária no Estoril, imagina o que diriam as cascaenses de nariz empertigado -- aparência burguesa, pelintrice na carteira -- ao serem colocadas perante tal requisito. 

 

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Cós, Coz ou Cóz serve-se à vontade do visitante pelas placas afora, numas assim, noutras assado. Deixemos, não discutamos.

O Mosteiro de Santa Maria de Coz -- náo é a minha versão preferida, antes a do folheto a que tive acesso -- não cativa à primeira vista, tal o estado das ruínas que surgem na beira da estrada. Este viageiro não se importa, quer-lhe saber a história, ou melhor, os factos, as discussões, as estórias. 

À chegada apresenta-se-lhe o Eurico Cavalho, cinquentão ou mais qualquer coisa, desempregado, responsável pelas visitas guiadas que proporciona sem custos. Aproveite-se, pois. A fundação do convento datará da primeira metade do século XIII, quando por ali terão aparecido merceeiras e lavadeiras ao serviço da abadia de Alcobaça. Viúvas devotas, partiram do princípio de que o hábito faz o monge, acabando por dar forma a uma comunidade de religiosas cistercienses, cuja função se relacionava com o apoio aos frades da abadia. Atribui-se a D. Fernando, abade de Alcobaça por aquela altura, a intercessão a favor da criação dum espaço para as mulheres.

Mais tarde, em 1530, o mosteiro de Santa Maria de Coz foi reconhecido pela Ordem de Cister e elevado a abadia regular. Rapidamente se transformaria num dos mais poderosos mosteiros femininos da ordem em Portugal. Diz-se que foram mulheres piedosas, fidalgas abastadas que para ali levaram dote e serviçais, as responsáveis pelo esplendor artístico barroco testemunhado pela riqueza da igreja.

Não vai o visitante deter-se em tudo o que viu. No exterior do monumento, para onde davam os dormitórios, salienta as imagens de S. Bento e S. Bernardo, este sem cabeça, arrancada a tiro, conforme demonstram os buracos em redor do nicho onde se encontra a estatueta. À questão sobre a torre, o homem acaba a confirmar que sim, que por possuir dois mirantes, serviria de vigia, e que, muito provavelmente, já existiria antes da construção do mosteiro.

 

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A igreja, erguida entre 1669 e 1671, único espaço preservado do antigo cenóbio, é magnífica, possui decoração barroca, e apresenta-se articulada com a capela-mor e o coro das monjas, do qual se separa visualmente por um grande arco totalmente preenchido por grade, e encimado por passadiço com balaustrada alta. Um senão: o frio que já se tinha notado em Alcobaça, apesar de estarem para cima de 25 graus lá fora; e a humidade que, aqui, parece consumir os ossos de um homem: pobres monjas.

 

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Tudo vasculha o visitante: o portal manuelino do coro, recolocado no extremo nascente conforme intervenção ocorrida entre 1519-27 da autoria de João de Castilho; o cadeiral  e o órgão setecentistas que ali estiveram e já não estão; os confessionários aos pares e com dupla face para leigos e monjas; os 80 caixotões de madeira pintados no tecto, datados de 1718 / 1720, restaurados há cerca de quarenta anos; a alusão aos frutos da terra na decoração das capelas; os quadros de Josefa de Óbidos; os painéis de azulejos por cima do cadeiral e na sacristia; os belos altares da igreja em talha dourada; a harmonia estética de muitos elementos se encontrarem aos pares.

No final a curiosidade do sistema de eleição da abadessa: favas brancas e negras. Quem recebesse as negras... ia à fava. As últimas monjas abandonaram o edifício em 1843, indo viver para Lisboa, diz o Eurico. Informação acessória recolhida pelo viageiro está em oposição com aquela, pois afirma terem sido as residentes dali desalojadas pela destruição causada pelo terramoto de 1755.

O mosteiro e o espaço ficaram sujeitos ao saque após a extinção das ordens religiosas, em 1834. Adquirido recentemente pela Câmara Municipal, tem na cobertura do tecto a preocupação imediata das autoridades, tal o estado de degradação do monumento.

 

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O dia aproxima-se do fim, tempo ainda para dar um pulinho à capela de Santa Rita. Leva o viageiro no bolso o relato na Memória do Padre João de São Paio de Freitas, datado de 20 de maio de 1758:

Tem mais esta Vila e Freguesia a Ermida do Bom Jesus do Calvário, sita defronte da mesma Vila e do Mosteiro dela para a parte do Norte, em um Monte tão alto e vistoso, que dele se descobre o Mar, e muitas légua de terra, para a parte do Sul, Nascente e Poente.

Olha em volta quem busca: nada mais para além de montes. Deficiência do viageiro, certamente.

De acordo com tradição múltiplas vezes repetida, a construção da capela é atribuída à teimosia duma cruz que, apesar de carreada por membro humano para o mosteiro situado 600 metros abaixo, logo tinha na mão de Deus o instrumento para àquele lugar voltar. Ali ficaria a cruz e a capela a atestar-lhe a teima.

Hora de voltar para casa. Para o ano há mais, se...

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Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE QUINTA

Eduardo Gomes

 

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A celebração da noite de consoada começa no próprio quarto da pousada. Compõem-na pão, enchidos, queijos, doces de ovos e vinho maduro e doce, ambos alentejanos, dos bons. A missa do galo em Cabeça clamava pelo viageiro que queria assistir a algo típico. A expectativa de quem tão grande distância se aprestava a percorrer a hora tão tardia, passava por ver uma aldeia cheia de vida, comércio a funcionar, devoção religiosa e madeiro a arder.

 

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O visitante queda perplexo à chegada: não se sentia vivalma, arrumava-se o carro quase dentro da igreja. Um madeiro envergonhado ardia dum lado para logo se apagar do outro; gente, só à lupa, não mais duma escassa dezena de habitantes locais cirandando à volta do calor frouxo e tímido; comércio nem vê-lo; a missa, em banho-maria, aguardando pelo atardado padre.

 

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A mulher quer ir assistir ao culto: vá! O viageiro ainda se atreveu a entrar quando viu que a igreja se parecia vir a compor. Dentro, tosse e catarro ameaçavam o contágio. Volte um homem ao exterior, aqui e ali mete ou metem conversa com ele os relapsos à missa, ora em volta do madeiro: que "arder, já não arde; as vimes foram-se", explica quem parece saber da poda. Faz frio, o homem volta a meter o nariz no lado de dentro da igreja. Hora da homilia. O cura demonstra tantas dificuldades de dicção quão frágil e descabida é a sua mensagem: apela aos novos (onde estariam, que não se vêem?) que ajudem e auxiliem os idosos (sob pena de excomunhão); exalta a família que há muito deixou de existir. Gostaria este intruso de escutar abordagem mais lúcida, virada para a realidade de hoje, mais de acordo com os novos hábitos de vivência em sociedade, com os novos núcleos de afectividade. Debalde: o pároco é um tosco; as cerimónias em Cabeça uma fraude. Vamos embora!

 

Volte-se à pousada.

O jantar na noite de Natal era oferecido a 35 euros / pessoa, bebidas não incluídas Condição prévia: terminar obrigatoriamente às 21H30. As reacções não se fizeram esperar, tão pertinentes quanto o direito dos empregados em irem para suas casas partilharem a noite com as respectivas famílias. O hotel avançou com uma suposta compensação a quem pretendesse prolongar a festa: uma ceia estaria montada e disponível para usufruto noite fora, grátis. O viageiro chegou de Cabeça acabaria de nascer o menino, se acaso houvesse nascido no preciso dia 25, e Maria fosse pontual a dar à luz. O que se afirmara farto e lauto, estava muito longe de o ser: restos de frango, de lombo assado, de doces: sobras do jantar pago a peso de ouro, tudo frio, coisa pouco aceitável num hotel, cujos recursos, certamente, envolvem uma simples lamparina para aquecimento dos pratos ou travessas. Como se não chegasse, eis que o acompanhamento se faria a água... em noite de Natal. Seria investimento para além do recomendável colocar duas ou três garrafas de vinho do Dão? Valeu ao viageiro ser homem prevenido e, por tal, rapidamente uma garrafa de Monte Velho e outra de Porto apareceram a satisfazer as papilas gustativas. O Pum!, efeito provocatório do saca-rolhas e da raposice do viageiro, logo provocaram o espanto e a inveja nos demais hóspedes, tão circunspectos e fechados na sua concha familiar, que nem as boas-noites dão à chegada ou à partida: espírito de Nata, entenda-se. E assim se resolveu o intrincado dilema do que comer e beber em noite de consoada.

 

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O dia de Natal fora atempadamente planeado. O restaurante o Pascoal, no Fajão, aldeia de xisto, oferecia chanfana já conhecida do viageiro.

 

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O passeio é agradável, embora cansativa a condução. A igreja, o madeiro, um presépio donde o Menino havia fugido, lembram ao visitante a época que se atravessa.

 

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A especialidade da casa estava aquém do esperado, e disso ficou conhecedor o dono, que se desculpou com a especificidade do dia. A ver vamos, que ali voltará certamente o viageiro.

 

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Tempo de falar da pousada. As instalações estão longe de se apresentarem degradadas como em muitos outros casos. Tanto quanto soube, as melhorias receberam fundos de apoio da União Europeia, o que parece condicionar futuras decisões, posto que o contrato entre o grupo Pestana e o proprietário, a Fundação Bissaya Barreto, caduca em Julho próximo. Mas antes, falemos do presente. Trata-se de uma unidade hoteleira banal, instalada num convento de localização pouco interessante. A directora procura cativar os hóspedes a que usufruam do espaço que pouco tem para oferecer. Não existe uma piscina interior ou mesmo pequeno ginásio que seja, e até a sala de estar se mostra exígua, não possuindo mais do que duas mesas. Imagine-se que os 25 quartos estejam ocupados e facilmente se compreende a falta de conforto da unidade. Refira-se que me pareceu problema de fácil resolução, posta a existência de duas salas de jantar das quais não lhe visualizo a utilidade. O mobiliário dos quartos faz lembrar a segunda casa de muitas famílias: leva-se para lá o que não se quer na primeira. Não há harmonia; não há uma secretária onde se possa escrever ainda que no próprio computador E internet só junto do lobby.

Existe ainda um salão de eventos, cuja utilidade é bastante duvidosa, posto o reduzido número de quartos não permitir albergar grandes comitivas. Acresce a área de jogos em local tão húmido que de pouco serve.

 

 

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A igreja do convento possui acesso parcial aos coros alto e baixo a partir do interior. Por estar a zona na mais completa obscuridade, é necessário pedir que nos acendam as luzes. Não devia o espaço estar iluminado em permanência? Consumia electricidade, sem dúvida, porém, é uma das partes mais interessantes da pousada... local que, estranhamente ou talvez não, ninguém visita.

 

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O melhor da pousada são os empregados, ainda assim com critérios algo diferenciados em função dos hóspedes, alguns deles habituais, cuja relação chega mesmo à oferta de presentes de Natal, conforme o viageiro pôde observar e com os quais, “compram” tratamento especial. Nada tem este hóspede contra eventuais empatias adquiridas ao longo de meia-dúzia de noites ali passadas. Porém, quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele: se as ofertas fossem deixadas a seu recato na recepção, ninguém se teria apercebido de tal; se a subserviência dos empregados fosse discreta, ainda menos. A família em causa era constituída pela D. Micas, o sr. Dr. o menino Justino de catorze anos, e a infantil Quica, um ano mais nova e presunções de mulher no modo de vestir. Assim que ao hotel chegou, o clã tomou a posse simbólica do edifício. A pobre da Catarina, atenciosa recepcionista, logo se transformou em burra de carga da menina que, telemóvel na destra e trolley na canhota, liderava rumo aos quartos, qual general indicando o caminho para a vitória. O mano, todo ele dado a titilamentos, enfiava os phones e brincava com o Ypad. O perliquitetes papá falava que se desunhava ao pequeno almoço, ante o movimento esvoaçante do responsável de mesas, que fixava o interlocutor como se de Deus se tratasse. A D. Micas era a responsável pela ocupação do alcácer do castelo, área ali denominada pomposamente de “sala de estar”. Como o espaço ficasse estrategicamente situado em frente à lareira, e só possuísse uma mesa e três sofás dignos desse nome, o território foi oficialmente considerado anexado. Manhã cedo cada um dos membros da família ocupava o seu assento, procurando que, mesmo em caso de ausência, a desarrumação e os objectos pessoais deixados por mesa e sofás insinuasse que estava ocupado. Coisa rara de acontecer, diga-se, pois aquelas alminhas tomavam o pequeno-almoço... na pousada; almoçavam... na pousada; faziam reforços de vitualhas pela tarde... na pousada; jantavam... na pousada; não saíam... da pousada; monopolizavam a televisão... da pousada com canais de desenhos animados ouvidos em altos berros; e nenhum dos empregados se comovia dos outros educados hóspedes que tudo penaram... na pousada.

Principais conclusões:

1- Estive em Cabeça a 23 e 24 de Dezembro. Não consigo confirmar o que tanto se apregoa acerca da Aldeia Natal;

2- Cear num qualquer estabelecimento na noite de consoada, custa uma fortuna. O espírito natalício não existe, trata-se, simplesmente, de negócio.

 

FIM

 

 

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Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE QUARTA

Eduardo Gomes

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Quem parte do meio e a dois pontos que se situam em polos opostos pretende ir, forçosamente regressa ao lugar de partida. Lourosa era a nova etapa que obrigava a recruzar, no sentido inverso, Vila Pouca da Beira. A igreja moçárabe da antiga sede concelhia é extraordinária. A vista extasia à chegada ao adro, local onde o visitante estaciona o carro em lugar de conveniência, que só depois repara estar destinado ao pároco. Em dois tempos se viu rodeado de um par de idosos, cada um de seu sexo, discutindo entre si. “Padre possessivo, que nem na ausência deixa que lhe tomem o lugar, ainda que por breves minutos”, pensou o viageiro, enquanto a querela entre os anciãos terminava com a desistência do homem. “Agora é que não percebo nada. É a mulher a guardadora do espaço? Tiro ou não o carro daqui?”, questionou-se o intruso. A senhora Maria – se assim não for, por tal fica baptizada – avançou decidida:

– Quer visitar?

Certamente! Não fora assim e que faria ali o curioso, perplexo a observar a traça exterior do edifício?

– Se quer, venha daí. Entre por aquela porta – diz a velha, dedo espetado, como que a ordenar.

 

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Logo à entrada surge a arcaria monumental, separadora das três naves de que se compõe o templo, em forma de ferradura mourisca, beleza incomum:

 

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– Foi certamente construída sobre uma mesquita árabe ou mesmo templo visigodo – diz o visitante.

– Antiga, senhor! A mais antiga onde alguma vez se proclamou o culto da palavra. Já aqui se celebrava ofício divino antes de ser igreja.

O viageiro não percebe a abrangência da expressão. Tem a certeza que aquela não é a mais antiga igreja em território português, e, por tal, duvida da atribuição da primazia de culto que a anciã salienta. Adiante.

 

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A mulher estuda o homem, observa para onde dirige os interesses: primeiro uma pietá, mais logo, Nossa Senhora Medieval, falsa Senhora do Ó, pois, aparenta gravidez sem o estar de facto (dizem os peritos). Estava dado o mote que a guia tanto esperava:

 

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– Está a ver a imagem? Pois olhe que é a mais valiosa de todas as que aqui dentro estão. O Leitão de Barros queria-a levar um dia que veio por aí. Não deixei e não deixo, que para roubar já cá houve muito quem se aproveitasse.

Um homem vai para responder, porém a mulher não tenciona ouvi-lo:

Saiba o senhor que estive a trabalhar coisa de vinte anos em Lisboa... Olhe, em casa do Dr. Roque Gameiro... Conhece?

– A família do pintor? – retorquiu o ouvidor.

– Pois sim... quero dizer, até à tragédia – olha de soslaio para medir reacções – … depois vim-me embora.

Instala-se o silêncio por alguns segundos, o visitante não foi ali para mexericar em vida alheia. A idosa ganha novas forças:

– Quando voltei, ih, Jesus!, o que por aí ia de descaminho. Então não é que haviam roubado a Cruz Processional? Recuperada a alfaia, fui à diocese e consegui ficar com as chaves da igreja.

 

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– Perturbante este espaço, contudo, belo é o presépio – exclama o visitante a um canto que uma porta encerra.

– É, sim senhor, pertencente à igreja original! E olhe que aí onde bota os pés, estiveram o Cerejeira e o Tomás. Quiseram visitar a igreja, e fui eu mais o senhor bispo quem os recebemos.

 

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Chegara o tempo de passar ao exterior a observar a arquitectura. A senhora Maria segue-me:

– Olhe que a torre era bem maior. Para lá chegar acima, possuía uma escada em caracol. Está a achar estranho? – questiona mais para introduzir o próximo esclarecimento do que para ouvir opinião externa. – Foi trasladada, que aqui não estava originalmente.

 

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– E mais além, naquela laje que, por vedada estar, me parecem sepulturas antropomórficas?

– isso não lhe sei explicar, mas é muito antigo, coisas de mortos.

– E o projectado museu de Lourosa?-- equaciona o viageiro.

– O senhor acredita nisso? Olhe que eu cá, não. Levam tudo para Coimbra, lanças, imagens de santos, azulejos. E até o púlpito que por aí existia levaram para a casa paroquial.

Faltava a investida final:

– O senhor quer comprar uns calendários. São a três euros. E olhe, tenho ali umas fotocópias sobre a igreja. Dois euros e cinquenta cada uma.

O viageiro não precisa nem duns nem doutros. Dá-lhe um euro que a mulher logo enfia no bolso da bata.

 

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Deixe-se agora o que mais importante há a assinalar com referência à Igreja Moçárabe de S. Pedro de Lourosa. O templo, cuja forma basilical nos remete de imediato para a arte visigótica, possui datação romana visível numa pedra: DCCCCL. A reconversão da era de César para a Cristã atribui-lhe o ano da fundação: 912. A senhora Maria labora em vários erros. A igreja não é “romana”, é de arquitectura “pré-românica”, estilo seguido em plena Reconquista, sobretudo no norte da Península, compromisso de transicção até ao aparecimento do “românico” de origem francesa.

 

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O carácter “moçárabe” resulta da inclusão num templo cristão de elementos árabes como as janelas em ajimez e a salientada arcaria. É consistente pensar-se que a igreja possa haver sido construída por cristãos a viverem em território mourisco, num tempo em que a fronteira oscilava que nem ioió, para norte e para sul. Pelo menos, até Fernando I, o Magno, bisavô de Afonso Henriques, ter conquistado definitivamente o território aos sarracenos.

 

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A localização da torre teve a ver com um campanário que lhe havia sido acrescentado no medievo, e, já no século passado, entendida como boa a sua trasladação para as traseiras da igreja por questões visuais. É salientada a existência em tempos de uma iconostase, retábulos em talha, altar-mor em estilo rococó e coro sobre a porta de entrada, actualmente o chamado nártex, os últimos daqueles removidos pelo projecto de restauro datado de 1930/31. Embora nunca sejam pacíficos os planos de recuperação de tão importantes monumentos, parece haver sido intenção dos responsáveis retirar-lhe tudo o que acrescentado fora sem critério ao longo dos séculos. Daí parte das reclamações da senhora Maria.

 

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O cemitério acima assinalado é de origem visigótica, cujas sepulturas se encontram escavadas em laje de xisto no exterior do edifício, sendo crível aceitar-se que as diversas ampliações que o templo foi alvo possam ter coberto importante área daquelas.

 

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Um homem ainda passa pelo belo chalet onde, em tempos, funcionou a câmara municipal, para, logo após, abalar.

 

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A hora do almoço exigia a deslocação a Oliveira do Hospital, posto já se estarem a sentir os efeitos da “greve” dos empresários da “restauração”, vocábulo que, apesar de muito usado, me deixa enormes dúvidas sobre a sua correcção. Avancemos. O eleito foi o restaurante O Túnel, cujo bacalhau é mau de mais para merecer sequer a referência que aqui faço. Preocupado, o viageiro começa a bater a todas as portas no sentido de se precaver com a refeição da noite. Não que aspirasse por uma qualquer consoada à beira de lareira oferecida, que sentimentos de partilha assim já não existem num povo que se tornou egoísta, manipulado por miseráveis líderes. Um “jantarito”... tão-só... coisa para não passar fome. Que não senhor, tal era impossível; que voltasse na próxima semana, pela reabertura. Obrigado, mas não.

 

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Contudo, o dia ainda não acabara. Dá-se o viageiro a buscas pelo que de importante há na cidade. Vai pela Igreja Matriz, tendo por objectivo a gótica capela dos Ferreiros, construção da primeira metade do século XIV, que àquela está anexa, na fachada norte. Ali estão sepultados, túmulos em granito, Domingos e Domingas, Joanes, ele, Sabachais, ela. O sepulcro está gradeado, torça-se quem quer fotografar. O bom gosto é óbvio, o investimento também. A ganhar deve ter ficado o aragonês Mestre Pego, escultor ao serviço de gente abastada.

 

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Ao fundo, tão latâneo que mal o distingue quem arrisca um torcicolo, um alto relevo com cinco imagens encimado pela Virgem e o Menino. Mais ao lado, em pedestal próprio, o proprietário mandou que se esculpisse uma imagem sua a cavalo.

 

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Alguns, escassos, quilómetros decorridos e eis que o viageiro chega às ruínas romanas da Bobadela. O fórum, hoje no centro da localidade, era uma grande praça rodeada de pórticos e edifícios públicos, lugar para onde confluíam as duas vias da civitas splendidissima. O ex-libris do local continua a ser o arco de cerca de quatro metros de altura.

 

 

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O Anfiteatro frustra quem ali se desloca em busca de imagináveis feras em suculentas refeições ou gladiadores em combates mortíferos. Pequeno, sem galerias subterrâneas, deve ter sido usado para festas de carácter popular e religioso.

 

 (Continua)

 

06
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE TERCEIRA

Eduardo Gomes

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O dia 23 começa envolto em azáfama. É que a dona do Sweet Garden Apartment possui uma visão deslocada de direitos e deveres. Se à chegada me obrigou a esperar pelas três e cinco, apesar de saber que ainda não haviam batido as treze e já à porta estacionara, à partida exige o apartamento antes das onze. Manias. Está nervosa a senhora, que não teve a gentileza de se dar a conhecer. Envia mensagem atrás de mensagem pelo telemóvel: quer saber a minha opinião. Não lha dou de borla. Fique a sabê-la por aqui, se quiser. O espaço fica algo afastado do centro de Aveiro, o que, se pessoalmente, não me incomoda por aí além, percebe-se, pelas reacções dos internautas, que não corresponde às expectativas. Porém, o pior, é que a zona está toda dedicada a aluguer para turista. O rés-do-chão e as paredes de “papel” em nada ajudam ao sono reparador. Há gente pela rua em amena e menos amena cavaqueira até ás tantas, e, não nos esqueçamos, estamos em Dezembro. Imagine-se o que sucederá nos meses de Verão.

Como uma desgraça nunca vem só, pretendeu o viageiro despedir-se de Aveiro, levando nos alporches uns ovos moles. Vai um homem de abalada até à famosa confeitaria Peixinho. Não têm, não lhes apetece vender, está a produção toda reservada. Para quem?, pergunta o visitante. Para os aveirenses!, responde a proprietária. Vire-se costas sem entender uma coisa: mas esta gente vive, durante todo o ano, de quem, exactamente? Valha ao viageiro que há concorrência. De muito lhe valeriam os saborosos doces que adquiriu na confeitaria e pastelaria Ramos.

 

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As viagens consomem tempo. Ir de Aveiro ao Folgozinho, algures no sopé da serra da Estrela, é cansativo, não fora... ir com o objectivo de comer no Albertino, "o melhor restaurante" de Portugal.

Ao contrário de outras ocasiões, o Pedro não está. Em compensação, conheça-se o pai, o senhor que deu a conhecer ao mundo a aldeia. Fica um homem a saber as condições em que o espaço foi adquirido, quanto custou e como foi pago, histórias interessantes, ainda assim. 

A almoçarada está impregnada do erro perpetrado pela TVI, a qual, na ânsia, de proporcionar a descoberta das cafuas onde se escondem ignoradas casas de pasto, leva as pessoas ao engano. " Que não, senhor! Não se fazem essas coisas que passaram na televisão. Só por encomenda... e, ainda assim..."

Valha-nos isso. Detesto ver restaurantes desgraçarem-se com a exposição que as televisões lhes dão. O repórter Paulo Salvador é useiro e vezeiro no descaminho que provoca. Não faz muito tempo, fui, a conselho daquele, à Adega Nunes, ali bem perto de Messines. Paguei borrego requentado por cabrito no forno. Adiante.

Para que se entenda a diferença entre o Albertino e os demais, diga-se que não me agradou o leitão, um dos cinco pratos que fazem parte da ementa que se degusta por dezasseis euros, tudo incluído. Reclamação feita, toma lá com nova dose a fumegar, e, a oferta extra de vitelinha acabada de chegar do matadouro. 

É assim que se cativam os clientes. Acrescente-se que frequento o Albertino há tantos anos quantos os que da sua existência se conhece: trinta. Pagava, na altura, mil escudos por pessoa.

A refeição arrastou-se até meio da tarde, posto que, este viageiro, homem prevenido, decidiu comprar pão, queijo e feijoca. A última chegará ao Estoril; os dois primeiros, nem por isso.

 

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Era chegada a hora de rumar ao local que tão longa viagem justificara: Cabeça, a já referida "Aldeia Natal".

À chegada, enorme contratempo: havia obras que impediam que os carros se acercassem da aldeia. Caminhe-se, pois, por entre tubos, lama e tractores. Isto, na véspera da consoada. Lindo serviço.

 

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A aldeia estava engalanada, contudo, não se via vivalma: "Talvez mais logo; talvez amanhã". Pois, talvez.

 

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Com a esperança na alma -- onde quer que ela se situe --, abala o viageiro para a pousada convento de Vila Pouca da Beira, local onde pernoitaria até dia 26.

A primeira impressão é a de faltar pessoal, algo que o futuro confirmaria. É a própria gerente quem me recebe, quem me fala do local, dos espaços que só no Verão são possiveis desfrutar, das condições para ali passar a consoada. À medida que a senhora avança, vou torcendo o nariz. Nada daquilo me agradava, visualizando desde logo que iria passar fome ou pagar uma fortuna para jantar no dia 24. O pão e o queijo trazidos no bornal, mais as vitualhas previamente seleccionadas à saída de Lisboa, começavam a tornar-se atractivas. Porém, não deixo que me estraguem uma viagem.

 

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Estão seis graus às dez horas da manhã do dia 24. Faz um frio de rachar, todavia, o espectacular céu deste Inverno teima em nos convidar a sair, a dar uma volta. Não lhe façamos a desfeita e avancemos até Avô, distância que se cumprirá em menos de dez minutos, não fora a paragem no miradouro onde poetas locais mais ou menos amadores, que não meros anónimos, se celebram em versos carregados de rima, porém de qualidade tosca. A partir do alto rapidamente nos apercebemos ser a vila abençoada pelo rio Alva, que lhe proporciona arquitectura própria deste tipo de localidades: pontes várias com arcaria diferenciada, represas, suaves cascatas e até um pequeno ilhéu a que chamam de Picoto.

 

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Um relance da vista atrai-nos: a fachada da porta do castelo envergonhada por detrás do casario. Algumas pedras à direita e à esquerda do portal parecem querer confirmar que ali existiu amuralhado defensivo da passagem entre margens do rio, pois não descortina o viageiro outra utilidade a uma construção que nem a localização altaneira mereceu dos seus construtores.

 

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Quem viaja gosta de aprender: o que está escrito e o que não está, o que depende do dizer de quem sabe. Umas vezes tem sorte o viageiro e encontra quem o ensine; outras, não. Avô está silenciosa, quiçá os habitantes andem atarefados com a consoada, ou de seu ser não estejam para muitas falas, contudo, há uma fonte que canta; fá-lo baixinho, um rugido quase imperceptível, como que para seduzir quem os lábios lhe oferecer. Está triste, a fonte cantante: debruço-me e ouço-lhe os lamentos; que ninguém a procura durante esta quadra; que o consumismo substitui a água por whiskey. E acaba a chorar no meu ombro, que a não consigo consolar: se uma fonte não dá de beber a quem passa, de que serve? Condescendo, bebo uma pinga de água e percebo o rumor que lhe vem das entranhas: canta, acredite-se... então não é que canta mesmo?! Fique por desvendar o mistério que a fonte cantante me pediu para não revelar. O conselho aqui o deixo: beba-lhe da água e descobrirá o que ora escondo.

 

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Olha o viageiro para o trajecto planeado: anuncia-se a Aldeias das Dez, pertencente à rede das aldeias de xisto, nome curioso, do qual se fica por saber a origem. Viveriam ali, originalmente, dez habitantes, dez famílias? Existiriam apenas dez casas? Dez qualquer coisa, é, certamente, a resposta.

 

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Logo à entrada, uma fonte – hoje deu-me para isto – mostra-se curiosamente enfeitada. Os pinos da estrada habitualmente colocados para impedirem o estacionamento anárquico, encontram-se vestidos tal como se fossem bonecas: todas diferentes; todas coloridas. Bendita fonte que se água não deres doutra forma compensas o viageiro Uma jovem estende um belo sorriso ao cruzar-se com quem não conhece, mas tem cara de ali estar por bem. O visitante saúda-a amavelmente com um bom-dia.

“Onde raio estão as casas de xisto?” é pergunta que acode à mente do viageiro, ao deparar-se-lhe uma aldeia que não se diferencia doutra qualquer de montanha.

 

 

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Na curva seguinte surgem as referências fotogénicas do local: cabina telefónica e marco do correio dos antigos, pintados de vermelho e branco, a que acresce o rodapé em preto no caso do segundo. Anda o visitante de cá para lá e nada de xisto ou ardósia, como se denominavam os quadros negros na escola da sua infância. São mais as vozes do que as nozes, pensa quem se sentiu defraudado na Aldeia das Dez. Fique o sorriso impagável da jovem que passou junto à fonte. Como se chamará?

 

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

 

(Continua)

 

05
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

A manhã do dia 22 seria dedicada à monumentalidade, onde avultava o extraordinário Convento de Jesus, fundado em 1463. O viageiro paga o que lhe exigem e entra na área que foi a portaria do antigo mosteiro dominicano. Olha para as grades, imagina locutórios e parlatórios seleccionados pelo grau de afinidade às monjas. Mais além uma roda servia intentos comerciais e desapegos de filhos não desejados, juízos muitas vezes situados bem para além dos entendimentos do coração. Dois avisos para que não vá ao engano o visitante: a roda não é a original, a que ali se apresenta é oriunda do convento de S. João Evangelista das Carmelitas de Aveiro; a portaria significava o fim da vida civil, sob pena de excomunhão. Pontos nos “is”, prossigamos em direcção ao coro baixo.

 

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– Oh! – Como evitar o êxtase diante do imponente túmulo da princesa Santa Joana?

Não cabe aqui a descrição da defunta que ali jaz, princesa de Portugal por direito próprio, sucessora real até ao nascimento do mais extraordinário rei que reinou em terra lusitana. Para Aveiro foi por sua vontade, contra a opinião de pai e irmão, Afonso V e João II, respectivamente. Morreu a 12 de Maio de 1490, e foi enterrada, também a seu pedido, em campa rasa. Beatificada em 1693, o monarca Pedro II mandou erigir-lhe mausoléu a condizer com o estatuto real.

 

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O projecto assenta num minucioso trabalho de embutidos, de mármores policromos, também aplicados no pavimento e paredes. Um homem dá voltas, observa-lhe as perspectivas, deita-se no chão para confirmar que os querubins não acarretam com o peso da arca, antes só o fingem: malandretes.

A capela do autor da Regra que rege a Ordem Dominicana, é dedicada, obviamente, a Santo Agostinho. Por lá se encontra o túmulo do sétimo duque de Aveiro, Gabriel de Lencastre, o qual deve ter achado por bem vir fazer companhia à tia.

 

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A surpresa seguinta vai para a riqueza barroca expressa na talha dourada da Igreja de Jesus. Ver para crer. Parece ter sido aberta ao culto por volta de 1465, deixando subentender que o arco gótico que se situa por cima do púlpito pertence ao templo primitivo. O altar fronteiro à porta acolhe a imagem de Santa Joana.

 

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Muitas capelas se vão sucedendo até que o viageiro se depara, no coro alto, com um estranho crucifixo gótico, que se afirma ter presidido à procissão de inauguração do mosteiro. À memória vem-lhe a capa da Bíblia oferecida à Sé de Oviedo por Fruela II, muito provavelmente durante o primeiro quartel do século X. Terá este sido testemunha dos votos de Santa Joana. O calvário barroco que lhe fica por detrás, foi adaptado, posteriormente, como envolvente da imagem. Fica intrigado o viageiro, jamais a figura de Cristo lhe pareceu tão terrena: cabelo curto, pernas tortas, olhar vazio. Quem és tu? Deus ou Homem?

 

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Vai o viageiro até à sala de lavor, cuja importância histórica se inicia a partir do momento em que Santa Joana adoeceu. O espaço é preenchido por pinturas que narram a vida da princesa desde que ali chegou até que morreu.

 

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Ali por perto, encontra-se a cruz a que ela se devotou ao pressentir o fim. Imperdível.

 

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A última referência vai, como é óbvio, para a pintura da menina adolescente, ex-libris do museu, atribuída à oficina de Nuno Gonçalves. A princesa é retratada em trajo de corte, conforme ao seu estatuto real. Trata-se duma obra datada do século XV, tão real a face quanto a tristeza que dela emana por saber que o quadro se destinava a encontrar marido a quem dele não carecia.

O viageiro está cansado: passa pela inusitada Barca de Nossa Senhora da Boa Morte e pelo túmulo de D. João de Albuquerque. Outro dia virá, e mais dirá para além do que agora deixa.

 

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Aproxima-se a hora do almoço, contudo, ainda havia visitas a fazer. A Sé Catedral está ali por perto, dê-se lá um saltinho. O templo representa o contraponto ao convento. Este, ainda que dominicano na essência, era dedicado ao género masculino.

 

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A saliência vai para o cruzeiro de S. Domingos no exterior, o qual é uma cópia imperfeita do bem mais belo crucifixo gótico-manuelino que se encontra no interior do templo. Raios me partam, se este não é primo do

bizarro que vi no convento.

Estava na hora de visitar um outro templo, este dedicado à gastronomia. O viageiro é teimoso e conservador no que toca ao paladar: volta ao Adriano para comer o afamado bacalhau. Embora honesto, não o impressionou tanto quanto a vitela do dia anterior.

Continuemos a digressão pelo património religioso.

 

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A igreja da Misericórdia é visitada à pressa. Sofre de anormal síndrome: é que a majestade do convento inibe o pazer a tudo o mais em redor. Sim, sim, interessantes a talha do altar, os azulejos, o coro e, dizem, que não a detectou o visitante, uma imagem do Ecce Homo em pau-cetim.

 

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A meio da tarde, o viageiro achou que bastava de igrejas e conventos. Era tempo se absorver a cidade: o edifício da câmara; o centro, onde se juntam vários braços da ria; os moliceiros ávidos de turistas; as cores das casas; as pontes; as gentes.

 

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Abra-se aqui um parêntesis para ligar a cidade ao movimento estudantil. Por alguma razão, imperceptível ao forasteiro, os estudantes não partiram para casa com a chegada das férias: quiçá tenham melhor vida ali, em grupo; porventura se insiram em algum projecto de dinamização da bela urbe. Não interessa. Estão por ali, brincam, tiram fotografias com os transeuntes, as quais, logo de seguida, colocam nas redes sociais. Fantástico, diz quem adora crianças e jovens positivos.

 

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Prossegue a visita quem traz toda a calma do mundo. As embarcações, slogans sexualmente provocantes, sucedem-se. Aqui é: “ Anda, Manel, abre-me lá o rego!”; ali: “Quem me dera ser cão!”; mais além: “Jasus!, que bela solha”. Dê-se de desconto a pontuação, que é obra do escriba que detesta erros de português, e temos o espírito aveirense em pura ironia.

 

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Aveiro está cada vez mais bonita. Cosmopolita como poucas, fica a dever aos estudantes universitários o movimento pós pôr-do-sol que a caracteriza. A vida nocturna despreza o frio, enche restaurantes, bares e ruas, proporcionando um ambiente de confraternização e segurança, bem ao contrário da maioria das urbes recolhidas em casa, como se cativos fôssemos todos, deixando as ruas aos noctívagos de toda a espécie. 

 

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Volta um homem a jantar no Adriano. A vitela difere da do dia anterior. As vacas são como os homens: todos iguais, todos diferentes. Até o Manel se torna simpático, deseja-nos boa viagem: quem diria?

 

(Continua)

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