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Das Viagens

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Das Viagens

31
Mar17

SEM... CABEÇA - PARTE PRIMEIRA

Eduardo Gomes

DEZEMBRO DE 2016

 

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Com tantas Primaveras apontadas na contabilidade celestial, suponho que foi a primeira vez que decidi passar a época natalícia fora de casa. Não por aquele espírito de comodismo que se tornou moda entre os calaceiros que nada querem fazer. Claro que se tiverem quem trabalhe por eles... porém, dentre os mais idosos -- vítimas preferenciais --, muitos vão morrendo, e outros reconverteram-se e fazem hoje o que criticaram ontem. No primeiro caso, o cerne da questão é fácil de identificar: a auxese proteccionista de papás e mamãs aos seus rebentos, “meninos e meninas” que, com quarenta anos, independentes financeiramente, ainda vivem em casa de família, no conforto de cama, mesa e roupa lavada. Dêem-se de barato as variantes para mais e para menos do sistema, que a paga é feita em falta de educação e agressividade verbal: os “velhos” tudo aguentam. Fiquemos por aqui, evitemos a procela tumultuosa, que muito haveria a dizer acerca do modus vivendi de uma geração transportada ao colo do berço à tumba.

 

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A minha opção prendeu-se com o facto de, conjunturalmente, este ano, não ter comensais dependentes de mim: filhos casados, regime de alternância pai/sogro. Busque um homem cumprir um ideal antigo: passar os dias de festa onde arda um madeiro numa qualquer aldeia de Portugal, no interior, de preferência. Dizem que o pai dos lenhos se situa lá para as bandas de Penamacor. Este viageiro não almeja tanto, fica-se por Cabeça, auto-intitulada “Aldeia Natal”, localizada nas faldas da Serra da Estrela.

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Para que o escrevinhador não perca o fio à meada, abandonemos a introdução, que a ela voltaremos mais tarde, para deixar claro que o Natal começou no dia 21 em Aveiro, por razões de saúde que pouco cabem aqui esclarecer.

 

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A manhã esvai-se com a viagem que apontou directamente ao Zico, tasca de pronto-a-comer. Sentamo-nos na barra, que as mesas estão ocupadas, o que o viageiro já desconfiava pelas informações com que previamente se munira. O ritmo de atendimento é alucinante, os empregados transpiram, percorrem milhares de vezes o estreito corredor que lhes está destinado sem se atropelarem, o que fez o comensal equacionar se seriam matéria, pois para tal precisariam de ter peso e ocupar espaço, o que não ficou totalmente provado. Barriga a dar horas, peça-se um bife com molho de alho, auto-afirmado “o melhor do mundo”, e umas petingas fritas com salada de feijão frade. Se o primeiro é bom, as segundas batem-no aos pontos. O viageiro vem das brumas do tempo, em que bife se associava a doença, altura em que se fazia pelas casas portuguesas um enorme esforço económico para recuperar o ente da enfermidade. Coisas do passado que seria bom não voltarem. Lambuza-se o homem; lambuza-se a mulher, e não de forma meramente literária: é que os peixinhos comem-se à mão e não há guardanapos suficientes para tanta lambuzadela. No final gastou-se pouco mais de vinte euros. O visitante começa a gostar de Aveiro. Aos internautas que tão mal falam do Zico, legue-se um conselho: e que tal, se em vez de resmungarem contra tudo e contra todos, decidissem o que querem antes de entrar, e começassem por respeitar o direito dos outros a serem diferentes?

 

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Salte-se agora a parte da tarde, que já dei a entender ao que ali fora, e arroubemo-nos com o movimento da cidade: fascinante. Aqui apregoam-se castanhas a fumegar; ali bolacha americana em bidão a condizer com as memórias dum homem.

 

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Estarão meia-dúzia de graus e as ruas cheias de gente. O centro comercial, à beira dum braço da ria, comunga de idêntico espírito: é a céu aberto. As lojas têm frentes tanto para a avenida como para as ruas interiores que cruzam o edifício de leste para oeste.

 

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– Começa a fazer-se tarde, se não nos despachamos, corremos o risco de não jantarmos. Li no trip advisor que o responsável pelo Adriano é antipático como o diacho -- recorda a Tânia.

Na rua, extasiado, o viageiro ouve a esposa bem ao longe, coisa oriunda do sub-consciente. O outro, o lado A do cérebro, observa o vendedor da bolacha, recorda a mulher da fava-rica. Transmuta-se a realidade: são cinco da manhã de um qualquer dia dos inícios de 1960: – “Dois tostões, ti Costa” – diz a vendedeira, cartuxo das leguminosas na mão estendida, pronta à troca do produto pelo dinheiro.

Um homem entra no túnel do tempo, são cinquenta e tal anos que se percorrem num ápice:

– Sim, sim, mulher, é melhor irmos andando, e não te esqueças: simpatia atrai simpatia, não é com vinagre que se apanham moscas – diz numa alusão aos epítetos com que o carácter do sr. Manuel é mimoseado nas redes sociais.

A má fama indelével propagada através da net ameaça o mundo: antes fora o Zico; agora o Adriano. Se no primeiro as criticas iam para o tempo de espera, aqui, vão para a decoração, o tamanho do ecrã da televisão, a antipatia do proprietario e tudo o mais que espíritos desfocados conseguem imaginar. Quando compreenderão os maldizentes qual a função dum restaurante? Se querem o mundo duma só cor, rumem a Marte: parece que por lá tudo é vermelho!

À chegada, o primeiro contratempo: a porta estava encostada. Empurre-se com suavidade, saude-se quem está e requeira-se a permissão para entrar. Ou comíamos ou passávamos fome, que alternativa não havia, tão adiantada ia a noite. O funcionário mira-me de alto a baixo, aponta-me a mesa com a mão sem dizer palavra. Entrega-me a ementa em modo taciturno, porém, sem ponta de desrespeito. Poucos são os clientes àquela hora. O Manuel a todos vai servindo com calma olímpica e silêncio significativo. Deu-me alguns minutos: voltou de bloco e lapiseira na mão. Continua sem falar: o gesto significa tudo. Adianto:

– Duas doses de vitela à Lafões, se faz favor.

– Uma chega muito bem!

O homem afinal sempre falava... E para dar um bom conselho... Ora toma!

 

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Caçarola a fumegar, atira-se o viageiro à carne de vitela mais deliciosa que alguma vez comeu: valham-nos os santinhos todos do Céu e da Terra. Imagine-se então que o prato custa dez euros, e que a refeição, com uma “trapalhada” – é mesmo assim o nome da iguaria – por sobremesa e dois cafés pra esmoer não ultrapassa os dezassete euros.

Não nos precipitemos, que ainda há mais para contar. Aconteceu que, dentre os presentes no restaurante à nossa chegada, avultava uma idosa que não parava de tentar ligar a alguém. A cada garfada sucedia-se um novo acesso ao teclado, algo que só acabou quando o gadanho nada mais tinha para picar. Afogueada, eis que entra uma jovem e se desfaz em mil desculpas, enquanto procura poiso para si, para o casaco e para a mala. Debalde. A velha preparara-lhe tamanha reprimenda que a rapariga acabou por perder o apetite. Logo após chegou um grupo de trintões, três, mesa previamente reservada.

Começam mal:

-- Que nos recomenda? O meu primo diz que aqui se come um bom bacalhau -- diz um daqueles.

-- Mau estalajadeiro seria eu se lhe aconselhasse algo. Ao elevar uma especialidade, estaria a diminuir todas as outras -- responde o Manuel, sem qualquer espécie de prurido pacóvio.

O grupo fica estupefacto: ninguém esperaria por uma daquelas. No entanto, um deles mostra-se audaz:

-- Achas que o homem sabe quem é o teu primo? -- pergunta, ainda assim retórica, ao que primeiro falara. 

Sem tugir nem mugir, o Manuel indica-lhes a mesa mesmo por detrás da minha. Calaram-se os histriões. De trapalhada já bastava a original, a que dá o nome à sobremesa da casa. A mim, observador atento, começava a agradar-me a personalidade do Manuel. Continuemos.

A velha e a jovem saem, entretanto, em perfeito conflito de gerações. Mais longe do que o espaço deixa supor, que a vitela não permitia outro tipo de foco, ouço falar de motas: as nossas; as dos outros; as de competição; o conhecimento da mecânica, tudo com'ò ou do caralh...; credo!, os tipos não param com tanta asneira e a vitelinha já se acabou. Aguarde-se a sobremesa. “Eles” mudam de registo, passam ás mulheres: as “boas” e as próprias, logo devidamente catalogadas:

– A minha ficou em casa; só faltava agora trazê-la a reboque.

– Pois eu não estive com meias medidas: não quiseste o miúdo? Agora atura-o.

Para logo rematar o mais velho:

– É bico calado, que mulher é para lavar a loiça e cozer as peúgas

Que mais há para dizer? Quadrupedantes triplicados.

 

(Continua)

24
Mar17

DOURO MANSARRÃO - PARTE QUARTA

Eduardo Gomes

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O dia de sexta-feira iniciou-se com a deslocação à Boavista, que os locais mais conhecem por Mártir, em Vila Marim, em busca dos bolinhos da D. Rosa. Anda-se um pouco à nora por caminhos por onde mal passa o carro, até que o nariz da Tânia detecta um forte odor a forno.

– Chegaram em boa hora... quentinhos estão, que os acabei de cozer. E donde são? Ah, Cascais! Pois saiba que tenho por lá um primo, uma jóia de pessoa, não desfazendo, é claro. Jardineiro lá pelos Estoris nos tempos de lazer, que trabalho a sério é no casino. Se calhar até conhecem...

– E como se chama o seu primo, senhora?

– Ilídio, pois não tem que ver, casado com a Alice e pai do Gonçalo e da Inês, uns amores.

– O senhor Ilídio? Então não conhecemos... se é quem eu penso... mas não trabalha no casino, é jardineiro a tempo inteiro.

– Pois, será. Saiba que já não nos vemos faz tempo... Como o mundo é pequeno... venham de lá dois beijinhos.

A conversa assim descrita parece cerejas, puxa-se uma e logo vêm as outras atrás. Ajuste-se o que se romanceia, e aceitemos que esta é viagem de desencontros. Ir dar lá pelos confins do Douro com uma desconhecida prima dum vizinho do Estoril, nunca poderia ter constituído um encontro e jamais algo combinado. A partir dali estavam lançados os dados para que a simpatia natural das gentes transbordasse. “Sente-se aí, que vou-lhe ensinar como se faz”, é o mote a que se segue a partilha da conversa com as funcionárias, a prova da iguaria, o telefonema a reclamar a presença do Ilídio na conversa. “Primaço”, assim o trata D. Rosa.

 

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Lamego é a próxima escala, que será feita um pouco à pressa.

 

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Na parte alta, percorrida com prazer, faz-se breve visita ao alindado castelo.

 

 

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Perto fica a igreja de Almocave, templo românico do século XII, a qual deve o nome ao vocábulo árabe “macab”, isto é campo sagrado, e, por tal, a população crer ter existido naquele lugar um cemitério mourisco. Está fechada, e tampouco parece albergar algo de interessante no seu interior, nem credibilidade histórica quanto a ter sido a sede das cortes de 1143 que definiram a sucessão dinástica.

 

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No pequeno jardim contíguo, fica o monumento alusivo à separação dos reinos ibéricos, cujo rasgo de baixo a cima acabou a deixar a Galiza no lado português. Emanação dos Trava, certamente.

 

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Não subirá o viageiro ao monte onde se situa a Senhora dos Remédios, já o fez em tempos, e tempo é coisa que não lhe sobra. O santuário e a sua monumental escadaria ficaram concluídos no princípio do século XIX. A igreja acolhe devotos desde 1361, sendo que até ao século XVI, aqueles o faziam para venerar Santo Estevão, que, tal como o primitivo templo se arruinou, também o orago caiu no apego popular, tendo, pelo mão do bispo D. Manuel Noronha, dado lugar à nova igreja com devoção actualizada à Virgem, cuja imagem em mármore havia sido encomendada a Roma. Material dado a finuras vedadas a imagens de santos de pau carunchoso, entenda-se.

 

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Vai o calcorreante em busca da sombra que o acolha no trajecto para a Sé, cruza a Rua dos Loureiros, vê a Casa do Poço que pouco tem da original, e fica a olhar para duas magníficas janelas manuelinas que nada possuem de gémeas, e por isso as valoriza.

 

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A Sé era originalmente românica – século XII –, as alterações sofridas mais tarde acabaram por dar-lhe um cunho gótico.

 

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O claustro, composto por doze arcos, é visivelmente renascentista. Fica a torre quadrada a certificar-lhe a construção primitiva. Não cabe aqui a descrição do interior, cujos tectos foram encomendados a Nasoni.

 

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O visitante gostou particularmente da capela de São Nicolau, dos azulejos setecentistas – livro aberto sobre a vida do santo – e do impressionante retábulo em talha. O túmulo de D. Manuel Noronha encontra-se, naturalmente, ali. Ao lado, no Museu Municipal, antigo Paço dos Bispos, a prioridade vai para as cinco tábuas pintadas por Grão-Vasco – Criação do Mundo, Anunciação, Visitação, Apresentação no Templo e Circuncisão--, as quais, em tempos, constituíam o retábulo da Sé. Não o verá o visitante, um homem não tem tempo para tudo, e, juntamente com o museu, deixa também para trás as Casas dos Soeiros e das Brolhas, esta com um decorativo friso a lembrar as inscrições árabes. Até à próxima. Lisboa está a quatro horas de viagem. No porta-bagagem seguem presunto, bolas, vinho, biscoitos e cerejas.

 

As últimas impressões vão para a arquitectura interior, isto é, os quartos do Água Hotel Douro Scala: simplesmente absurdos. Chuveiros para duche e uma estúpida banheira a ocupar valioso espaço, em ameno convívio, tu cá, tu lá, com a cama; parede de ripas espaçadas a separarem o lavatório da arrumação das malas; privacidade nula; incómodo total. Aquilo não é um quarto, é uma cama na casa-de-banho.

 

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Nota: São notáveis algumas das fotografias a preto e branco espalhadas pelas paredes nos corredores do hotel. Serão obra de um francês, segundo creio. Acima deixo a que me pareceu mais espectacular.

 

FIM

24
Mar17

DOURO MANSARRÃO - PARTE TERCEIRA

Eduardo Gomes

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O dia seguinte reservara-o o viageiro para a Rota do Românico. Quatro monumentos divididos por esquivas estradas de montanha que, no final, se revelaram bem mais acessíveis do que no papel faziam crer.

Comece-se pela Igreja de Santa Maria de Barrô, situada a meia encosta, na margem esquerda do Douro, na estrada que de Lamego conduz a Resende. O viageiro ouvira tratarem-na por Nª Srª da Assunção, quiçá devido à existência ali duma imagem setecentista dedicada à Virgem, e vê-se obrigado o corrigir-lhe o orago para Santa Maria. Seja. Está fechada, obviamente, e não menos certo é que não se verá ninguém por perto a quem perguntar pela chave. Observado por fora, o templo, cuja construção se ficou a dever a dotação de Egas Moniz, demonstra as suas raízes românicas, mas também o gótico e o barroco, embora, neste último caso, seja preciso aceder ao seu interior. Ao dispor do viageiro, encontra-se o cuidado portal da fachada e ainda o janelão, a rosácea e os capitéis, todos a denunciarem-lhe o protogótico. A torre sineira é visivelmente tardia, pois datará do século XIX. Pelas imediações o visitante contorce-se por chegar às cerejeiras de beira da estrada. Debalde, outros se anteciparam, deixando apenas as rachadas:

– Toma cuidado, vê se não cais, homem – avisa-o quem bem lhe quer.

 

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A viagem prossegue para outra igreja: São Martinho de Mouros, antigo mosteiro de clarissas e, mais, tarde, da casa de Marialva, que, por morte de Guiomar Coutinho, último titular, passou o padroado para a Universidade de Coimbra.

 

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O aspecto do monumento é bizarro, mais parecendo uma fortaleza defensiva – contrafortes, cornijas e cachorrada – com torre de vigia central lá bem no alto. Entretém-se o visitante com a documentação de que se munira e fica curioso em ver a galilé interior que serve de pilar à torre sineira de que só lhe vira o cocuruto. “Experimente na casa paroquial. Pode ser que o senhor padre esteja por lá”, contestam-lhe à pergunta sobre quem teria a chave. Do cura nem a sombra. Não há mesmo outros habitantes em redor, nem para se confirmar se a terra é “de Mouros” porque ali habitaram sarracenos, ou se, como escreveu um antigo pároco, de ”altivos e grosseiros portugueses que se comportavam como bárbaros”. Pouco simpáticos serão, pois à tentativa do visitante adquirir cerejas pela estrada, respondeu o proprietário que estavam todas vendidas para o mercado. Todas?!, quais todas, se ainda estavam em processo de escolha que mãos delicadas faziam por dividir as boas das más? Que raio de diferença fariam dois ou três quilos a um produtor com dezenas de cabazes na camioneta? E nem se fale da diferença entre vender por grosso e a retalho.

O granito é o material de eleição da paroquial igreja de arquitectura religiosa, românica, gótica, maneirista e barroca. A fachada principal desenha-se em empena, com portal escavado em arco encimada por uma fresta. Um cruzeiro no adro, localizado a sudoeste do templo, propõe-se à fotografia. Aproveitem-se as memórias.

 

Resende surge ao caminho, e com ela, em cada rotunda ou canto, uns atraentes espantalhos vestidos com trapos multicoloridos pejados de cerejas em tecido. O mercado municipal revela a ganância dos supermercados: está vazio. Adia-se a compra das cerejas, outros lugares haverá, certamente. A avareza de quem explora as novas catedrais do consumo só tem paralelo na estupidez de quem, tendo responsabilidades políticas, não teve a visão do futuro. Duvida o viageiro que algum dia se façam as contas aos aspectos positivos e negativos de tal situação.

 

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No turismo somos bem recebidos. Informamos ao que vamos e um dos presentes faz-se guia. Sabia do que falava – algo invulgar neste tipo de estruturas – e forneceu material de qualidade. Um senão a apontar-lhe: as repetidas alusões ao “eu fiz; eu estudei; eu desenhei” com que fazia acompanhar as descrições dos mapas. Excesso de vaidade ou visão egocêntrica do mundo. Ai, Jesus!

--Vá à ponte da Panchorra. Se quer ir almoçar à Gralheira, não tem como enganar, fica-lhe em caminho – recomendou o funcionário à despedida.

 

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Acalentava o viajante enorme desejo de ir ao mosteiro de Santa Maria de Cárquere. Há muito tempo que lhe roía a ideia de ver o local onde uma das lendas de Afonso Henriques se forjou. Estava fechada, porém um homem não deve desistir por dá cá aquela palha. Circula em volta do magnífico templo de que pouco sabia e descobre uma extraordinária janela românica.

 

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Olha, olha, mira através da fresta e descobre-lhe um gradeamento na face posterior. Tratava-se de uma capela, sala mortuária dos senhores de Resende, onde quatro túmulos, com o respectivo escudo de cabras, se aconchegam e prostram perante um rudimentar altar. Volte-se então ao mito, cuja importância lhe é concedida pelo desejo de independência do condado portucalense, já então partilhado pelos grandes senhores locais.

 

 

Reza a história que o pequeno Afonso nasceu defeituoso das pernas e que, por milagre, ali foi curado. Diga-se então que Egas Moniz terá sido alvo dum sonho ou duma aparição de Santa Maria, que lhe recomendou levar o petiz de cinco anos para um determinado local em Cárquere, onde encontraria as ruínas duma antiga igreja, bem como uma imagem da Senhora. De seguida deveria colocar o menino no altar e ficar uma noite de vigília O compromisso divino apontava à cura das enfermidades da criança, se a preceito procedessem os humanos. Por aqui fica a versão suave da história. Há uma outra, bem mais dura, do sucedido: vamos a ela. Esta, não recomendada a sensibilidades frágeis, conta que o aio do futuro rei achou que o corpo do menino deveria ficar rodeado de velas votivas ou tochas, espécie de ritual de homenagem a Santa Maria. Uma brisa, um ligeiro descuido, o cansaço duma noite de vela, poderão ser os responsáveis por um incêndio que se propagou à roupa e queimou mortalmente o menino. Tresloucado, Egas Moniz terá oferecido em troca o seu próprio filho – de idade semelhante à do então já cadáver – a D. Teresa, que, independência oblige, papel de mãe assumiria para toda a vida.

 

Egas Moniz de Ribadouro

 

Lenda, mito, milagre, falta de provas, atracção do secreto, poderão forjar diversas teorias, todas capazes de fortalecer o arquétipo do que seria o reino. Do casamento do Aio com Dórdia Pais de Azevedo conhecem-se as actividades de dois dos filhos, Lourenço e Afonso Viegas, sendo que o primeiro seria sensivelmente da idade de Afonso Henriques. Terá o casal gerado mais três filhos, Mem, Rodrigo e Hermígio Viegas, que, provavelmente, morreram à nascença. Assentará nalgum destes a hipotética troca? E, sabendo-se que a primeira esposa faleceu em 1124, porque se alude ao segredo guardado pela condessa Teresa Afonso, se não era sequer a mãe da criança à data dos acontecimentos? E onde encaixa a dor da Dórdia Pais?

Em abono da verdade, Egas Moniz rapidamente ascendeu ao elevado cargo de “príncipe columbriense”, denominação que pertencera ao conde D. Henrique, e ao tratamento por “príncipe nosso”, título que era apanágio de governantes soberanos. Até o papa se lhe dirigiu para tratar questões do bispado de Lamego. Intrigante.

Menos incertezas se levantam à volta da igreja que hoje aparece aos nossos olhos. Originalmente românica, o seu corpo é manuelino, característica observável na porta lateral, nas duas janelas altas e nos modilhões da cornija. A capela-mor, que o visitante não viu, é gótica, tendo no lado esquerdo do arco cruzeiro a imagem da Senhora-a-Branca, origem dum ritual de fartura do leite materno. O contraponto é-lhe fornecido pelo envenenamento da água que as parturientes bebiam com pó de pedra.

 

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Quando o viageiro decidiu partir, deu um último olhar no rude altar da capela funerária. Palpitou-lhe que foi ali e não na igreja que tudo se poderá ter passado... se é que se passou alguma coisa.

 

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Meio-dia, tempo de enfrentar a serra de Montemuro. O trajecto vai demorar uns vinte minutos, tempo para usufruir da beleza serrana. É bonita a paisagem, vistas deslumbrantes a que falta a água lá em baixo, nos vales, conclusão enviezada de quem até ali tinha visto Douro por todo o lado. Não lhe faltam torres eólicas que, curiosamente, sob determinadas perspectivas, não ficam ali tão mal como as pintam.

 

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A ponte da Panchorra surge quando já a Gralheira se divisa mais além. É o quarto monumento românico da zona de Resende. Situada em local idílico, unindo as duas margens do rio Cabrum, possui dois arcos de volta perfeita que lhe concedem o direito a estrela fotogénica. Diz-se que estamos a 1 200 metros de altura, e que terá feito inicialmente parte de um itinerário romano, e, mais tarde, de local privilegiado para a travessia de pessoas e gado na época medieval. Um sapo coaxa ou, calha, é um pato que grasna, que o viageiro tem dificuldades em os identificar se os não vê, escondidos que estão pelas moitas. São horas do almoço.

A aldeia da Gralheira tem um aspecto mórbido: o cemitério ocupa o pequeno largo principal da aldeia. A morte está presente à mesa do restaurante Recanto dos Carvalhos. A posta arouquesa mostrou-se de boa qualidade, sem convidar a voltar.

 

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Estando alojado em Cidadelhe, tinha o viageiro previsto ir ver o respectivo castro. Que não fosse, disseram-lhe no hotel, que estava vedado e inacessível. Contudo, este homem é teimoso: foi. A primeira imagem desmente a informação prévia: o portão está aberto. Diz-se no respectivo folheto que as escavações arqueológicas, iniciadas entre 1983 e 85, foram retomadas em finais de 2013. Muito crescerão por aqui os arbustos para que o terreno não passe duma mata cerrada passado tão pouco tempo. O curioso busca em redor um caminho, terreno pisado que aceda algures, pois de castro, nem vê-lo. Descobre, atola-se em ervas e cardos que o picam nas pernas. Insiste, vislumbra o prémio quando se desvenda um muro numa curva do caminho. Mais não verá o viageiro, e, para saber o que não sabe, recorre a informação exterior e fica a conhecer as linhas de muralhas concêntricas e a existência ali duma torre já no tempo medieval.

O último jantar da viagem voltou a ter lugar na Tasca da Zequinha, e de novo o bacalhau a opção, então frito com cebolada. Bons lombos, bem cozinhados. Um comensal chamava a atenção por vir munido duma garrafa de vinho tinto à chegada ao restaurante. Percebe-se que é cliente habitual, não se entende que tal política seja positiva para o estabelecimento, e isso mesmo é transmitido pelas feições do proprietário. O viageiro entra inocentemente na disputa quando o homem lhe oferece uma prova. Em vez de um, passavam a ser dois os prejuízos para o estalajadeiro. Precavido, saliento que, embora tenha todo o gosto em beber o que me fora oferecido, não deixaria de pedir a bebida habitual. Ultrapassado o obstáculo, prosseguiu naturalmente a refeição.

 

(Continua)

24
Mar17

DOURO MANSARRÃO - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

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O primeiro de Junho foi destinado à monumentalidade. O viageiro fora previdente: era precisamente o dia em que o mosteiro de Santo António de Ferreirim anunciava, folheto a condizer, a sua reabertura. Debalde se caminha pela quinta que envolve a parte monasterial, área que demonstra os efeitos do grande incêndio de 1954. Não se vê vivalma, estivesse o Verão a chegar ao fim e poderíamos seguir caminho com o carro cheio de batatas, se nos atrevêssemos a pegar da enxada e fôssemos pessoas para deitar a mão ao alheio. Deixemo-los por ora – aos tubérculos, é claro –, que por estas bandas ainda nem a flor se lhes vislumbra.

 

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O viageiro dá uma volta, ciranda, acha interessante a torre gótica do século XII. Possui lindas janelas geminadas que mais parece quererem dar-se a coimas de coração quebrado do que a musculadas missões de protecção defensiva para que foram originalmente construídas. Leio que também serviam de habitação. Pois que tenham servido para albergar jovens apaixonados, que é assim que gosto de imaginar o amor. Deixemos as divagações. Que milagre assistiu à torre para não ter sido consumida pelo tempo e pelo fogo?, pergunta quem quer saber. À falta de mais racional justificação, aceitemos que quando o último conde de Marialva, D. Francisco Coutinho, e sua mulher, a 2ª condessa de Loulé, D. Brites de Meneses morreram, não deixaram descendência. Obsequiados, os franciscanos agradeceram a doacção ao defunto fidalgo e torceram o nariz quando viram que do testamento constava a obrigatoriedade de jamais a demolirem. Para cumprir tal imposição, a solução era orar para que o Altíssimo não mandasse por aí praga que levasse a torre. Não mandou; o incêndio levou só o mosteiro.

 

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Não foi possível ver a ampla nave interior. Ficou-se o viageiro pelo pórtico manuelino da igreja, hoje paroquial, onde se encontra o brasão dos Coutinhos. Para trás ficaram o túmulo gótico/plateresco dos condes, o retábulo da capela-mor e as tábuas pintadas pelos Mestres de Ferreirim.

De Lalim, Lazarim, Mazes e Anta trazia o visitante referências a máscaras e vistas panorâmicas que decide saltar por temer a falta de tempo. Homem atento que ignora o que virá, porém sabe o que deixa para trás. Entra-se em Tarouca sem aviso prévio, de tal forma íamos chocados com a fealdade da Varosa, na E.N.226, característica abundantemente repetida na Régua. Para que são necessários prédios assim tão altos? Velhos e degradados; sujos é categoria suplementar.

 

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Contudo, o ser humano tem sempre reservas para recuperar o optimismo. Aconteceu após a decepção inicial de não poder ver a igreja de São Pedro. Que abria lá para as cinco da tarde, assim lhe haviam dito. O viageiro meteu-se então à conversa com um idoso que não perdeu o ensejo por se fazer útil:

– Já foi ao Paço Dalvares? Olhe que viveu lá D. Dinis. E a S. João? E a Salzedas? Não perca a Ucanha!

E apontando com o dedo:

– Quer ver a igreja? Eu tenho a chave ali em casa.

É assim, de “desencontros” que surgem os verdadeiros encontros. Aproveito. Que sim, que quero, logo atalhei, câmara fotográfica, bloco de escrever improvisado nas costas de um qualquer folheto turístico na mão esquerda, e óculos de ler – que a idade não perdoa – na direita. 

 

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O viageiro entrou. Ia à procura do muito gabado túmulo manuelino do século XVI. Os passos dados não permitiam equívocos:

– É do 1º conde de Tarouca, João de Meneses – diz o interlocutor.

E, em jeito de quem vai ganhar embalo, continua: – Mas olhe que esta é a sétima igreja de Portugal.

O visitante interroga-lhe o critério usado para tal homenagem.

– Feita. Feita, senhor. Só se fizeram seis antes desta!

Um homem fica confuso: onde diabo existe estatística confiável que permita elencar com tal certeza a construção de monumentos quase milenares, que, as mais das vezes, demoravam dezenas de anos até à sua conclusão? E quando começou Portugal? Com o condado portucalense? Com o acordo de Zamora? Com a bula de Alexandre III? O informador não ouve, fala. Não virá daí mal ao mundo, certamente, os idosos têm rotinas carregadas de silêncios; “vingam-se” quando podem e à mão têm quem lhes dê ouvidos.

O viageiro observa o fresco por cima do túmulo: “original”, assegura-lhe o interlocutor que não desarma e muda o foco da conversa:

– Ali, a meio, estava um relógio e um pêndulo. Mandaram-no tirar aquando da recuperação da igreja.

– Se o IPPAR fez isso, é porque não seriam importantes – digo em jeito de conformação.

 

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O idoso não parece convencido, mas não pretende discutir:

– E as duas estátuas nas laterais...

– Pedro e...

– Miguel. Dá o dia ao feriado municipal, 29 de Setembro.

O viageiro achou que era altura de absorver tanta informação despejada. O túmulo não o impressionou por aí além. Mais valem os frescos que o encimam. O conde merecia alguma pesquisa.

Desejoso de agradar, o ancião avança:

– Tenho em casa a monografia de Tarouca escrita pelo Almeida Fernandes. Se quiser...

Porque não?, pensa o viageiro.

– Dê-me um minuto, é só apagar as luzes.

E ao voltar:

 

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– É bonita a igreja, não?

– Sem dúvida, mas.... – soaram as campainhas de alerta na cabeça do idoso – aquele ecrã de projecção...

– Mas olhe que as pessoas gostam. O senhor padre diz a missa, e elas vão vendo as imagens na tela.

Inconcebível. O altar está parcialmente tapado, impedindo o desfrute na plenitude da beleza da igreja.

– Mas entre, entre, que não maça nada – convidava o interlocutor à porta de casa, localizada em frente ao monumento.

 

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O viageiro recusa com gentileza, contudo, busca sombra onde se sentar. O sol, estranhamente inclemente, abrasava À mão tente, só a rude escada em pedra que lhe oferecia o alpendre da moradia que anteriormente recusara. Vem o interlocutor com meia-dúzia de páginas fotocopiadas, senta-se lado a lado, ombro com ombro junto do viageiro, e, pela segunda vez neste dia, o visitante sente a atracção que nas janelas geminadas de Ferreirim imaginara. O idoso não se contém: excitado, bate-lhe a dentadura descontrolada... e assim se foi a empatia. Ficam os dados recolhidos: o conde João de Meneses fora governador e capitão-mor de Arzila e Tânger, mordomo-mor de D. João II e D. Manuel I. As curiosidades são mais do que muitas: o avô, Pedro de Meneses, foi governador de Ceuta; o pai, Duarte de Meneses, desempenhara funções idênticas às do filho nos reinados de D. Duarte e D. Afonso V; o irmão mais velho fora governador de Arzila, cargo que cederia posteriormente a João antes de passar a Tânger; o filho e o bisneto deste, ambos Duarte de seu nome, desempenharam cargos de governação na Índia e em Tânger; o sobrinho e o neto não lhes ficaram atrás e tomaram-lhes o nome e o cargo na cidade marroquina. O 2º conde de Tarouca foi o bisneto Duarte... como não podia deixar de ser. Uf!, chega!

Faltava a útima recomendação:

– Vá a Dalvares, estão por lá umas meninas simpáticas que lhe explicam tudo. Ah, é verdade! Suba a Santa Helena, se quiser desfrutar da paisagem. É já ali em cima.

O viageiro, atormentado pela falta de tempo, ia desculpar-se de não ir ao miradouro. Não precisou. Surgira entretanto uma conterrânea, e o ancião tomou conversa nova. Adeus e obrigado.

 

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O Paço Dalvares fica perto. Sabia o viageiro de “fonte segura” da presença do rei Lavrador, provavelmente pelos finais da centúria de duzentos. Dizer-se que ali viveu, será exagero, erro que não se cometerá se falarmos em permanência à passagem da comitiva real por aquelas terras. A Honra de Álvares ou Adalvares, como o paço consta nas inquirições de Afonso III, foi recentemente recuperado. O edifício é bonito, forma quadrangular à base de pedra lavrada e porta em arco.

 

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Possui dois pisos acessíveis por escadas de pedra e diversas dependências fechadas sobre si próprias ao redor de um pátio. O visitante estava surpreso por não encontrar ninguém: onde parariam as “simpáticas meninas”? Está lá... não está, e nisto ia observando a loja de vendas, logo à entrada, quando veio uma “simpática”, contudo, longe de se lhe poder chamar “menina”, funcionária com o prato do almoço na mão, a boca a deglutir batatas fritas:

– Venho já, senhor, deixe-me só arrumar “isto”.

– Não se preocupe, acabe, que eu espero. Ademais a comida vai ficar fria – remata o visitante.

A mulher, embaraçada, largou o prato e aprestou-se a mostrar as instalações, aludindo à placa relativa às obras de revitalização do espaço:

– Tudo feito à custa da Câmara. Ela (Isabel Pires de Lima) veio aí para a inauguração, prometeu mundos e fundos e nunca mais cá pôs os pés.

“Rica prenda”, comenta o viageiro, crendo estar a pisar “território político amigo”, tal a assertividade com que a mulher criticara a ex-ministro da cultura. A funcionária calou-se e por momentos deu a entender que se sentia chocada nas convicções ideológicas. Sopesar enganoso do viageiro; exagero de sensibilidade da receptora. Passemos à museografia.

 

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A casa que no medievo pertenceu ao “honrado e bem-aventurado Dom Egas Moniz de Ribadouro”, aio – ou talvez mais – de Afonso Henriques, fora importante centro agro-económico na região. Ainda restam os lagar e prensa próprios, cujas actividades se encontram exemplificadas numa das salas. Ao lado, as tulhas de cereais, feijão e milho que em seu tempo eram forradas a madeira. Explica-se a mulher para que o visitante perceba a diferença entre lagar e lagareto, o que é dégorgement, e compreenda as funções da máquina de espera, da doseadora, da rolhadora, da capsuladora, da musseleta e da rotuladora:

– Tudo feito à mão até finais de sessenta – conclui.

Dentre as funcionalidades atribuídas à Casa, sobressai o “Museu do Espumoso”, cuja confraria ali possui a sede e um acolhedor salão nobre para reuniões. O viageiro passeia-se, primeiro pelo pátio interior, onde descobre a “soleira dos namorados” (hoje dá-lhe para ali, que se há-de fazer!?), depois observa os terrenos circundantes, a “reserva do senhor feudal”: estaria o terreno cercado por muros? E aqueles serão os servos ou o tempo já os transformou em jornaleiros? Ih, Jesus, que fome! É que a produção é toda descarregada nas tulhas do paço, até o usufruto da água é negado ao povo . “Não aceitem” – lança-lhes o viageiro. – Exijam um contrato enfitêutico”.

– Não tínhamos de ir a São João de Tarouca?

Foi assim, desta forma brutal, que se acabaram as visões do viajante.

 

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A igreja e o convento de São João haviam encerrado quando o visitante ali chegou. Volte-se para trás, volte-se mais logo. O almoço fora destinado para a Ucanha, onde a Tasquinha do Matias prometia milhos com carne em vinha de alhos. Comida bem feita, saborosa, embora as papas não sejam particularmente apreciadas pelo viajante, que preferiu a vitela assada. Da ponte e respectiva torre fortificada já tudo se escreveu, só é preciso ir. Ir para sentir a atmosfera de lugar tão singular, imaginar os monges a exigirem portagem aos viajantes que, em fila de espera, aguardam vez para pagarem o tributo e seguirem seus caminhos por campos e lameiros, vinhedos e hortas. Abaixo, o murmúrio das águas do Varosa, sonata interrompida por dois homens que, de pá e enxada na mão, desabafam enquanto cavam nas margens.

Curioso, chega-se-lhes o viageiro:

 

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– Que raio estão vocês a fazer? A tentar alagar a terra? – digo-lhes em jeito de desafio.

– Qual quê, senhor! Há aí uma velha que propôs à junta de freguesia recuperar-se aquela enorme pedra, não sei se a está ver?, – claro que estava – diz que quer que se retome a tradição de vir lavar a roupa ao rio.

– Mas a pedra está muito baixa, o rio tapá-la-á por completo se vocês continuarem a cavar a terra – diz quem lhe parece inútil tanto esforço.

– É mesmo esse o problema. Está a ver aquela soleira? – o viageiro aquiesce com a cabeça. – Agora está assente sobre a terra, mas conta-se que em tempos uma mulher tinha de pôr a cesta da roupa por cima da cabeça para ali chegar.

– Outros tempos, outro rio – comento filosoficamente.

– Diacho da velha, é o que é – diz quem sente que o trabalho não faz sentido.

Conversa rematada a propósito, despede-se o viageiro com desejos de boa tarde.

 

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O mosteiro masculino da Ordem de Cister de Santa Maria de Salzedas fica ali bem perto, no local chamado de Abadia Velha. Há mais de uma década ali esteve quem agora volta. Ao tempo conseguiu efectuar uma visita incondicional com um simpático guia que nada cobrou, pois o que havia para mostrar não passavam de ruínas duma igreja – pese a soberba fachada –, dos claustros, da casa do celeiro e de parte dum dormitório, então completamente entulhados. O viageiro acumulara expectativas, arrumou o carro no largo contíguo e rumou à igreja, agora recuperada. Entrou, deu dois ou três passos, até que alguém lhe atirou com um “bom-dia!”. Dê-se um homem a educações que só ficam bem, e conteste-se com idêntica situação: “bom-dia!”. Já o visitante se dispunha a prosseguir, e de novo o interrompe a senhora: “bom-dia!”. Olho-a, repito a saudação, então em jeito de “que pretende?” Algo atrapalhados, interlocutor e receptor olham-se por alguns segundos:

– É de cá? – pergunta a mulher, uma quarentona de cabelo louro.

Desemaranhe-se a conversa, que a senhora deve trabalhar ali. O homem explica ao que veio; a mulher fala-lhe da construção iniciada em 1168, da figura de Teresa Afonso, segunda esposa de Egas Moniz, doutra Teresa, mãe de Afonso Henriques, que ali viveu, das pinturas de Vasco Fernandes, da recente recuperação. A frustração do viageiro pelo que vê é latente:

– Está frio aqui dentro, e a humidade imensa.

– A quem o diz, que aqui passo horas. Vale o chegar-me à rua quando não está por aí ninguém.

 

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Há coisas que melhor seria viverem para sempre na nossa imaginação. A nave da igreja é desconfortável, a recuperação das paredes e tectos da igreja deixa muito a desejar: defenda-se quem tal concebeu. A atenção do visitante vai para as colunas originais que, picadas para as libertarem de camadas doutros materiais que intervenções no tempo executaram, aparecem agora à vista nua. Um túmulo, cuja placa identificadora tresanda a bolor, informa que“ Aqui jaz o mui nobre e esforçado D. Vasco Coutinho, mariscal de Portugal e primeiro conde de Marialva. Foi isto na era de MCCCCL”. O título tinha-lhe sido atribuído em 1440, por D. Afonso V – quem mais poderia ser? – pelo desempenho nas campanhas de África. Deixemos o Vasco e pensemos que a 5ª condessa se chamará Guiomar Coutinho... exactamente, essa, a do drama que envolveu João de Lencastre.

Pergunto pela estátua do nosso primeiro rei: “Está na tulha, é assim que por cá nos referimos à quinta. É de um particular, não se pode visitar.

E em jeito de despedida:

– Se quiser, pode ir visitar o convento, mas olhe que é pago.

Não quis, o viageiro. Para decepção, chegava-lhe a dose que tivera. Um dia trará outra disposição, não acumulará vãs expectativas e talvez entre.

 

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O mosteiro de S. João de Tarouca foi fundado no século XII, sendo o primeiro dentre os pertencentes à Ordem de Cister. O local é paradisíaco, a preocupação a da auto-sustentação, isolamento e contemplação. O sol inunda templo e convento: o que resta dele, entenda-se, ainda assim uma estrutura impressionante em termos espaciais, onde avulta o paredão que servia de dormitório aos monges. O viageiro entra, e logo à porta uma mulher se lhe dirige:

– Pode entrar, que a igreja é de visita livre por ser paroquial. É que em 1828, quando se acabaram os mosteiros, o povo não deixou vender.

– Então a quem pertencia o monumento após a lei de extinção das ordens religiosas?

– Ao povo, senhor, ao povo.

– Quer dizer, à Fazenda Nacional, cuja intenção imediata seria a sua venda...

– Não desta, senhor, que continuou a pertencer ao povo.

O visitante não se dá a rigores e, por tal, não corrige a data indicada pela mulher, meia-dúzia de anos a mais ou a menos, não irão fazer grande diferença, certamente. Não discutamos, deixemos o “Mata-Frades” em paz a pelejar com D. Miguel, cujo período de reinado pode ser o responsável pelo lapso da mulher.

A igreja é uma das mais belas que o viageiro viu em seus dias. De tal se apercebeu a funcionária, que lhe diz em surdina: “No final, deixo-o tirar uma fotografia da porta para cá”, mais parecendo aprestar-se para conceder um qualquer prémio a menino bem comportado. À funcionalidade inicial feita de pilares lisos e cornijas simples com que os monges a dotaram, alia-se o bom gosto das alterações a que o tempo obrigou: o portal maneirista, a capela-mor, os painéis de azulejos, a sacristia.

Permite-nos a senhora aceder à última daquelas, encaminhando-se de imediato para um contador, ou, pelo menos, assim definiria o visitante tal móvel. Que não, que por ali se chama amituário, e logo se explica:

– Cada gaveta está numerada, e cada monge tinha seu número. Quando se desembaraçavam dos amitos guardavam-nos aqui.

 

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Fique a explicação. De volta à igreja, enquanto se discute São Bernardo de Claraval, se observa o orgão e o cadeiral encimado com imagens dos papas e outras figuras importantes cistercienses, uma pintura cativa olhos e mente: um S. Pedro já visto algures. Busque-se nos gavetões da memória... Já sei! Viseu... Grão-Vasco:

– Não, senhor! Este é de Gaspar Vaz, tem um olhar mais meigo. Não se vê logo?

Tem? Talvez.

O último olhar vai para o imponente sarcófago em granito de D. Pedro Afonso de Portugal, conde de Barcelos, filho bastardo de D. Dinis, senhor do paço de Lalim. O túmulo terá cerca de 4 metros:

– Dizem que era um grande homem; que media 2,05 metros – diz a nossa cicerone. Ou isso ou a mania das grandezas.

 

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É tempo da recompensadora fotografia. Êxtase, é o que se sente ao abandonar templo assim.

A visita ao que resta da área conventual é paga, algo a que o viajante se recusa fazer, salvo em situações limites. Não será avultada a perda.

 

Quarta-feira ao jantar voltámos à tasca do Zequinha, onde provámos umas belas pataniscas, bem feitas, contudo e de novo, um pouco aquém da fome que levávamos. Compense-se com duas fatias de queijo por sobremesa.

 

(Continua)

24
Mar17

DOURO MANSARRÃO - PARTE PRIMEIRA

Eduardo Gomes

Map of Portugal

 

Dada a lonjura a que Trás-os-Montes fica de Lisboa, o primeiro dia é consumido por uma longa viagem que só terminará em Cidadelhe, Mesão Frio. Almoça o viageiro já em terras transmontanas, que para tal se esforçou ao sair cedo da capital. Ao repasto ofereceu-se a Tasquinha do Zequinha. Comida honesta, bem feita, contudo sem primar pela qualidade da matéria-prima. A tarde é dedicada ao repouso, embora não impeça a visita à oficina de turismo local. À pergunta sobre o rescaldo local das invasões francesas, responde o funcionário que não sabe, mas que vai indagar junto de um amigo, o Carlos, professor de História:

– Sim, sim, durante a terceira invasão... – diz do outro lado do telefone o lente.

 

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O visitante não está com disposição para aturar a ignorância de quem faz do ensino vida:

– Diga-lhe que a saga do Loison se passou durante a primeira invasão, não na terceira – recomenda o forasteiro ao jovem funcionário.

Conversa acabada. Conceda-se ao professor tempo para fazer as revisões do programa. Promete voltar quem quer a informação. Pobres alunos entregues a professores destes.

O jantar ocorre no restaurante O Barracão, em Mesão Frio. O bacalhau é mal servido e de duvidosa qualidade. O comensal não desiste, é que lhe disseram ser o anho a especialidade da casa:

– É possível fazer anho assado para amanhã à noite?

Era.

– Faça-se! Cá voltarei!

 

Terça-feira.

Régua dum lado; Lamego do outro; Trás-os-Montes/Beira Alta à mercê das margens do Douro, muito mais disposto nesta zona a aceitar estradas no lado esquerda do que no direito. Se por terras beirãs nos envolvemos, aproveite-se o panorama da belíssima via que segue até ao Pinhão, seguramente uma das mais espectaculares de Portugal.

O rio é mansarrão, isto é, fizeram-no assim, domando-lhe o carácter selvagem com que a natureza o brindou. Deixou-se das bravatas de outrora, hoje não passa de um conjunto de lagos que se sucedem uns aos outros, convenientemente divididos por paredões que lhe deram o efeito escada até finalmente chegar à foz, ao nível do Atlântico. Pobre rio que ladras, mas não mordes.

 

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A seguir ao Pinhão, para onde o viageiro não precisa cruzar a ponte, tome-se a serra que o levará por São João da Pesqueira até Freixo de Numão, para depois iniciar, em regime de volta, as visitas pretendidas.

 

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A primeira paragem acontece no castelo velho, o que, por oposição, faz pensar na existência dum castelo novo. Trata-se de um antigo castro situado no cabeço da Fraga das Canas. A vista é magnífica, pois o local está a cerca de 700 metros de altura, distinguindo-se Foz Côa, a sul. Seguramente que este espaço não foi tomado de surpresa, tão amplas são as vistas. A primeira impressão é de abandono. Um suposto centro interpretativo foi construído no que parece um observatório-torre, em estado de degradação e tomado pela ferrugem. Apresentem-se as contas a quem tal disparate cometeu. Há um passadiço construído em madeira a circundar o alinhamento das muralhas do castro. Também ele apresenta sinais de decadência, melhor será cuidarmos onde pisamos. No centro do conjunto, percebe-se ter existido uma torre com cerca de 9 metros de diâmetro, provavelmente tardia, que aproveitou a pedra da região.

 

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A próxima visita envolve a vila romana do Prazo, nada fácil de detectar, sobretudo se levarmos em conta o que no Expresso se afirma. Perde o viageiro para cima de uma hora com as descabidas informações, até que, sem querer, já na estrada principal, dá com uma placa que indicia poder ser por ali. Para que não se acuse o escriba de só saber criticar, aqui fica a forma de ali chegar: EN 222 direcção oeste/leste, cerca de 100 metros antes de passar a Touça, ramal à esquerda. A casa agrícola romana construída na terceira centúria da nossa era, está bem representada, percebendo-se uma espécie de anfiteatro à entrada. Na parte mais alta, a zona termal, fornos de telha e de fundição de metais, sepulturas várias e, sobre a casa senhorial, o que poderá ter sido uma igreja paleocristã medieval. A estrutura é complementada com cabanas pré-históricas referentes aos períodos mesolítico e à idade do bronze, e ainda um menir, algo que mais se ajusta ao espaço do que à construção.

 

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O viajante levava preparadas alternativas várias para almoçar, o que não supusera fora estar tão atrasado. Consultado o plano de viagem, só a Petiscaria Preguiça se encontrava por perto, e mesmo essa, obrigava a dezena e meia de quilómetros por uma estrada sem saída que terminava aos pés do Douro. Peça-se o barbo frito e a sopa de peixe. De comer e chorar por mais, ainda que o estômago vá rezingar toda a tarde. A paisagem é de postal ilustrado. Dum lado, montanhas; do outro, a ponte, metade em silharia com arcos, metade em ferro.

 

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O comboio passa ali meia dúzia de vezes por dia. Acabado de chegar, o viageiro incauto perdeu a passagem das 13H30. Dez segundos antes e ficaria com uma fabulosa fotografia. Pena. Não repetiria a graça com o cruzeiro poucos minutos depois. “É mais lento, não escapa”, conforma-se quem não reagira anteriormente a tempo.

 

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O castelo novo está longe de o ser, pois a sua construção data do século XIII, atribuída a D. Dinis, já a pensar em terras de Riba-Côa. É magnífica a parte da cerca muralhada que se mantém de pé, cerca de 250 metros de perímetro em planta ovalada. Percebe-se que existiu uma urbe intra-muros, com ruas que se cruzavam em direcção a vários pontos cardeais: a este, a porta gótica de São Pedro; a sul a do Sol; ambas completadas por aberturas rasgadas a oeste e sudeste. As torres originais eram em número de 15, não tendo chegado aos nossos dias mais de três. Fora das muralhas, a leste, encontrava-se a capela de S. Pedro, da qual resistiram apenas três toscos muros. Na zona sul, intra-muros, situa-se o único portal que resta da igreja românica de Santa Maria. À volta do castelo observam-se múltiplas sepulturas cavadas nas rochas.

 

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A última paragem do dia aconteceria na estação de comboios do Vesúvio, onde se encontra a casa e propriedade de afamados vinhos, inicialmente pertença de D. Antónia Adelaide Ferreira. À habitual beleza paisagística junta-se a do edifício, ainda que a demonstrar indícios de grandes concentrações de humidade nas paredes. Duas marcas numa das paredes chamam a atenção do viageiro: 1979, a mais elevada; 1989, a seguinte. Reclamam o nível a que subiram as águas do Douro naqueles anos. Outros tempos, não é rio?

O jantar de terça-feira havia sido encomendado com a antecedência necessária, que isto de especialidades da casa só funciona ao fim-de-semana... e mesmo assim.... O anho assado estava bom, sem deslumbrar.

 

(Continua)

07
Mar17

TAILÂNDIA - PARTE SEXTA

Eduardo Gomes

(Continuação)

 

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Faça-se agora um balanço do que observámos. Dizer que a vida é barata na Tailândia é um mito, sobretudo para nós, ocidentais. O primeiro problema são os transportes, sendo que os usados pelos locais são a preço acessível para os turistas. A questão põe-se em saber se estamos dispostos a ser maltratados num barco em que o tempo de atracação para entradas e saídas raramente excede os dez segundos; se queremos viajar em camionetas onde nem o nosso gado transportaríamos; se nos agrada uma viagem de comboio de várias horas numa carruagem sem conforto nem ar condicionado, feita debaixo de 40 graus de calor, no meio de cheiros nauseabundos. Se sim, estamos conversados; se não, lá se vai o mito. É que embora existam nos barcos em Bangkok zonas diferenciadas de custo, o turista leva sempre com o preço mais caro. Insatisfeitos, os cobradores recebem as notas e fecham-se em copas, como se não tivessem de devolver o excesso; por último, recorrem à estratégia do “não tenho troco”, que só entendemos por gestos. Habilidosamente, cativam-nos primeiro a nota alta, e depois esperam que não tenhamos outra forma de pagar para não a devolverem. Nos comboios o funcionário não pergunta em que classe se pretende viajar, avança com o bilhete mais caro, o que, no caso da viagem para Ayuthaya, por exemplo, salta dos 30 bath em terceira classe para os 340 bath em segunda. Vá-se lá saber a fortuna que custará viajar em primeira. Os tuk-tuk e os táxi esmifram carne e osso ao turista. O custo pode ascender a 10 vezes o praticado para com os locais.

 

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Passemos à alimentação. É barata se comermos pela rua, isto é, se adquirirmos umas espetad(inh)as de frango em uma qualquer banca mais ou menos improvisada nos passeios. Primeiro aspecto: teremos de comer um bom número delas se não queremos passar fome e ter de repetir a dose de hora a hora; o segundo foco vai para a higiene com que a comida é feita: não há água que não a de uns alguidares onde tudo se lava; as frigideiras, de tão negras, levantam-nos muitas dúvidas sobre o estado do óleo; as pessoas têm um aspecto sujo, sobretudo de mãos e pés. Regularmente lançam os líquidos já amarelados para o chão, coisa em regime de água-vai. Assumindo que não se faça uma viagem tão longa por menos de quinze dias, parece inconcebível que durante tal período só se comam fritos, massas e hamburgers, estes nas trash-food americanas. Esclareça-se que também não ponho as mãos no lume pela higiene com que a comida é confeccionada nos restaurantes – poderei a estar a fazer pagar o justo pelo pecador, contudo, basta uma pequena volta por qualquer cidade tailandesa para nos deixar fortemente preocupados com tal pormenor –. Olhos que não vêem...

As bebidas possuem um enorme inconveniente: o imposto sobre o álcool. Vinho é quase impossível alcançá-lo fora dos hotéis. Numa loja encontrei várias marcas de origens diferenciadas, a preços faraónicos. A cerveja de 0,33 cl custa 1,20 euros, quer nos supermercados quer pela rua fora, e acima dos 2,5 nos pequenos restaurantes. Numa pequena unidade, duas pessoas pagam pelo prato – normalmente servido em quantidades muito aquém daquelas a que estamos habituados em Portugal – e só pelo prato e uma água ou cola, entre seiscentos e oitocentos bath, algo entre 15 e 20 euros. Barato? Nos hotéis, para além do preço escalar montanhas, há que considerar 17% de taxas que só surgem ao pagar da conta. Um simples menu self-service tomado ali, suplantou os três mil bath, coisa a aproximar-se dos cem euros.

 

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A roupa é outro indicador interessante. Descontando as contrafacções vendidas em qualquer tipo de mercado, recorro ao exemplo da seda, pois o país é um grande produtor deste produto no seu estado natural. Visitei uma fábrica e uma loja de renome. A primeira possuía claramente um outro nível, quer na imagem da empresa, que inclui visita explicativa ao respectivo museu, quer no design e beleza das peças. Vamos a preços: um robe para homem custa 5 000 bath; uma túnica de senhora 4 000; uns simples boxers 2 000. Na loja situada na cidade de Chiang Mai, os preços baixavam cerca de 10%. Baratos? Sem ser um profundo conhecedor do sector, diria que preços assim se encontram em qualquer Dior, Channel ou Hermés por essa Europa fora.

A simpatia dos tailandeses, posso afirmá-lo agora sem ponta de dúvida, é outra falácia. A gentileza não passa de pretexto para interesses materiais. Pagam-se à parte os serviços e no final há sempre uma box tip à nossa espera.

 

Vale a pena visitar a Tailândia?, é a interrogação final. Respondamos, então:

– Se ao europeu interessa conhecer e desenvolver conhecimentos acerca da cultura e religião thai, dos fundamentos do budismo, a resposta é sim, sem dúvida;

– Se pretendemos ir espreguiçar-nos ao sol em uma qualquer piscina; dar-nos à maçada de ir uma por outra vez à praia em frente ao resort; a resposta só pode ser não. Tem melhores e mais baratas propostas em Maiorca ou mesmo no Brasil, com evidentes vantagens quer no esforço das horas de viagem, quer no custo da estadia.

Abra-se um pequeno parêntesis para recordar a conversa com um dos membros da tripulação da Thai Airlines em pleno voo:

– Que impressão tem da Tailândia? – questionou.

– Tem coisas boas e coisas más! – respondo.

O jovem franze a testa, parece surpreendido. Concluo:

– As boas deu-vos a Natureza; as más construíram-nas vocês!

 

 

O que ficou por ver/fazer?

 

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Em Bangkok:

– A noite na zona turística, o que inclui o negócio do sexo;

– Mirar os preços de electrónica no centro comercial Pantip Plaza, e de roupa na Indra Square / Pratu Nam market;

– Wat Arun (Templo do Crepúsculo), em Thonburi;

– Wat Tramit, com a imagem do Buda em ouro maciço. Fica na Chinatown (ao contrário de mim, que jamais atingirei o Nirvana, consta que o Siddãrtha Gautama o fez, faz mais de dois mil anos, pelo que, decerto, já não terá muito apurados nem a visão nem o olfacto).

 

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Em Chiang Mai:

– Mercado Warorot;

– Doi Pui Tribal Village – White Hmong hilltrib;

– Cascata Namtok Mae Ya. Fica no Parque Nacional Doi Inthanon;

Mercado da Walking Street (16-24 H, só aos domingos);

– Dar uma espreitadela no Hotel Dhara Dhevi.

 

 

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Em Chiang Rai:

– Passeio pelo Rio Mekong-Rio Ruak( Triângulo Dourado). Visitar a Casa de Opio – The Hall of Opium Golden Triangle Park;

– Montanhas Doi Mae Salong e Doi Tung (Doi Tung Royal Villa);

– Aldeia de Chiang Saen – Museu Nacional;

– Mae Fah Luang Art and Culture Park e Mae Fah Luang Gardens;

– Pu Chi Fah Forrest Park.

 

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Em Koh Samui:

– Fugir dali para fora!

 

 

É hora dos prémios. Vamos a eles.

 

»»» Melhor Restaurante:

– Prachak Roasted Duck, Bangkok

– Lemongrass, Chiang Mai

– Chivit Thamma Da Coffee House, Chiang Rai

– Samui Paleang Restaurant, Koh Samui

E o prémio vai para: Lemongrass.

 

»»»  Melhor Hotel:

Royal Orchidy Sheraton, Bangkok

 

»»» Melhor Resort:

Le Méridien, Chiang Rai

 

»»»  Melhores Locais:

Em Bangkok: Palácio Real e Wat Pho. Nos arredores: Tha Kha Market (Mercado Flutuante).

– Em Ayuthaya: Cidade Velha.

Em Chiang Mai: Wat Chedi Luang, Wat Phra That Doi Suthep e Wat Umong.

Em Chiang Rai: White Temple e Black House.

Em Koh Samui: Ang Thong National Park.

 

FIM

07
Mar17

TAILÂNDIA - PARTE QUINTA

Eduardo Gomes

 (Continuação)

 

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Também nós tivemos de abandonar pelas mornas o aldeamento de Chiang Rai. A curiosidade esteve em o motorista ver-se obrigado a ligar o taxímetro, exigência que propusera no hotel. Fê-lo. Marcou 61 bath, verba à qual acrescentou 20 de utilização do espaço do aeroporto. O valor é, ainda assim, infinitamente inferior a tudo o que até ali víramos.

A viagem até Kho Samui levou muitas horas, fosse porque incluía uma morosa escala em Bangkok, ou porque os aviões se atrasassem.

Do aeroporto internacional pode-se – com sincero esforço – admitir que tem o glamour próprio das ilhas do Indico: uma enorme palhota onde a empregada da limpeza entra portas adentro da casa-de-banho dos homens sem mais nem porquê. Calcule-se a qualidade dos mictórios e sobretudo a privacidade – ou a falta dela – que provocam, e imagina-se que à mulher muitos formatos e tamanhos de pirilaus se lhe tenham propuosto ao olhar. No pequeno hall uma funcionária alertava para o procedimento com os transportes, isto é, para com o exclusivo daqueles. Táxi? Não havia. Era óbvio por onde ia começar a dependência do turista. Nalguns lados é pela comida; ali, na ilha, era pelos transportes. Quem fosse estrangeiro levava logo com a tabela mínima: 500 bath. A alternativa eram as mini-bus: tudo ao monte – pessoas e bagagens, entenda-se – por 230 bath. Comprovaríamos a tese, pouco depois, à chegada ao hotel. Ali, o respectivo shuttle custa 280 bath para ir ao lugarejo mais cerca.

Provera que o voo demorasse mais umas duas horas, e ficaríamos na dúvida acerca do local onde chegáramos: Postais ilustrados com praias de água serena? Areia dourada? Palmeiras protectoras? Onde estavam? Chegáramos a Porto Galinhas! E pior: sem a simpatia das gentes brasileiras.

Apesar da vocação turística da ilha, em nada melhorou o conforto em relação às cidades continentais, e, para não me repetir, vamos em frente. Quiçá pela dificuldade em encontrar bombas de venda de combustíveis, por todo o lado se vendem garrafas de gasolina ao dobro do preço de tabela. Suponho que se destinem aos turistas incautos, em situação de aflição com o abastecimento do depósito das motas que na ilha alugam.

 

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Um pequeno passeio pela beira-mar mostra-se sintomático: a praia está cheia de lixo e, em muitos casos, perigoso. Pedaços de vidro, restos aguçados de azulejos ou fragmentos cortantes do que foram utensílios de barro, latas velhas e ferrugentas de refrigerantes, agora reciclados berços de bivalves devido ao vaivém do mar, oferecem-se vorazes aos nossos pés. Em frente a um hotel de cinco estrelas, três motas de água e um barco ancorado à altura da cintura humana exibem-se ao visitante desejoso de um passeio pelo mar. A presença – potencialmente perigosa – em redor dos banhistas, bem como o cheiro a gasóleo, parecem não incomodar ninguém.

 

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Beleza só ao longe, nariz bem levantado para limitar o horizonte visual e impedir percepções olfactivas menos agradáveis. As excepções correspondem a alguns recantos dentro dos resort, onde uma ou outra pequena queda de água artificial traz à mente a visão duma cachoeira. A água do mar é quente, demasiado para o meu gosto e hábitos estorilistas. Ainda assim, aceito que preencha o sonho, sobretudo do género feminino, para quem toda a água é fria, à excepção da que sai dos esquentadores a 37º. Ao contrário da bruma que nos envolveu em todos os anteriores locais, aqui o céu, apesar de instável, admite leves pinceladas de azul.

 

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Dos dias passados em Koh Samui, um sobressai: a visita ao parque nacional de Ang Thong, cujo acesso só é possível através de excursões organizadas, ou seja, custa “uma pipa de massa”. O cruzeiro é demorado, quatro horas no trajecto, divididas entre ida e volta, e, sensivelmente, outras tantas em actividades algo repetitivas. A primeira paragem tem lugar algures no golfo do Sião, onde o grupo é dividido em dois para que todos possam experienciar a viagem de caiaque. Passa esta por dar uma volta de grande beleza natural por entre vários rochedos e canais abertos naqueles. Pouco felizes nas manobras, os condutores vão chocando com os respectivos veículos, tal qual carrinhos de choque em feira popular. A Tânia segue no lugar em frente. Fanfarrona, pergunta-me se sei conduzir um caiaque. Quer liderar, toma o assento dianteiro. Postado mais atrás vou-lhe corrigindo os movimentos e imprimindo alguma velocidade ao barco por modo a não ficarmos perdidos na cauda do grupo. Torna a cabeça, mira-me desconfiada quando vê que tenho o remo livre, parecendo simplesmente deixar-me levar. Parede em frente; a Tânia rema na sua direcção: – Pára! Pára de remar!, digo enquanto, com o remo, cio. Debalde: o caiaque atingira velocidade irrecuperável, até porque a mulher me anulava o esforço... pum! – A culpa é tua que fazes balancear a embarcação!, ressalva. Claro! Conduz tão mal um caiaque quanto o faz com um carro. Vale que nada de mais aconteceu.

 

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Logo após o almoço, o frango mais picante que alguma vez se me propôs comer, acompanhado duma papa de arroz que o comandante mexia com o que parecia ser um sucedâneo dos remos anteriormente usados, chegámos em frente a uma pequena enseada. Quem quisesse podia de novo ir passear-se em caiaque, proposta recusada por quase todos. Sigamos então via uma pequena embarcação para o dito local, com o objectivo de visitar uma lagoa que não consigo identificar. Surpreende-me o comandante por, durante a explicação da actividade a encetar, aludir várias vezes à necessidade de levar dinheiro: money... geld... geld... money... e dali não saía. É que não levara nem um bath comigo. Que diabo, depois da fortuna que o bilhete tipo “tudo incluído” havia custado, porque raio precisaríamos de metálico num pequeno ilhéu deserto, questionei-me e questionei-o: “Que podíamos ter sede face ao esforço da subida que iríamos efectuar”, respondeu vivamente incomodado com a questão. “É que há lá uma barraca de venda de bebidas”, acrescentou. Retorqui que não percebia tanta insistência sobre necessidade tão enfaticamente repetida, e, já em português, rematei “Já percebi: é a comissãozita da prache! Para que raio vou pagar bebidas se as tenho de borla no barco?” Repita-se que não entendo que, com tantas restrições ao seu acesso, a direcção de um parque nacional conceda licenciamento para instalar um barracão num local paradisíaco. Avancemos.

 

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A ida à lagoa faz pensar antes de alguém a tal se afoitar. É que implica subida extraordinariamente íngreme por uma longa série de segmentos de escadas, cujos degraus, desguarnecidos, não possuem mais de quinze centímetros de largura: e sempre a pique. O suor escorre em bica quando se atinge o miradouro. A partir dali um outro caminho leva-nos à ao nível da lagoa: – Vamos, que se há-de fazer se já aqui estamos!?, proponho. – O pior é que se agora vamos para baixo, certamente teremos que cá voltar acima – diz a Tânia ainda sem suspeitar do que lhe aconteceria. Fomos, praticamente sozinhos. O grupo assustara-se e debandara em recuo acelerado. Tiradas as fotos da ordem, descansada mente e espírito perante aquela dádiva da natureza, inicie-se a nova escalada:

– Ai que me tremem as pernas. Acho que não consigo subir.

Comecei a pensar se haveria maneira de levar a mulher de volta. Qual quê, é claro que é impossível... Só de helicóptero. Anuncia-se difícil a manobra. Longas passam a ser as esperas a cada novo nível da escadaria:

– Vá lá, faz mais um esforço... É já ali, não vês? – digo, apontando para cima, para o céu.

Faça-se curto o que longo foi, e passemos à compensação: um belo banho de água tépida na pequena baía.

Fim do cruzeiro.

 

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Russos e chineses começam a tomar conta do hotel: aqui estendem roupa pelas varandas – vários pares de ceroulas em pleno Verão, pasme-se –, recorrendo aos cabides da habitação; ali apropriam-se de mesas e cadeiras a esmo; mais além confiscam todas as camas e espreguiçadeiras na praia. Por estar iminente a partida, começo a gerir o dinheiro tailandês, reservando-o para despesas que de outra forma não se conseguem pagar. É com esse pretexto que troco a costeleta de porco grelhada no Panaeng pelo mais sofisticado La Lanterna, restaurante italiano. As massas – que mais se pode pedir num sítio daqueles? – são pobremente servidas; o preço, alto: 930 bath. “Não aceitamos cartões de crédito!”, afirmam. Reclamo. Não há nada a fazer. – E agora?, digo. Busque-se então pelos esconsos e recônditos das algibeiras: novecentos... novecentos e dez... e vinte... e trinta. Restam três bath nos bolsos.

A noite enche-se de pormenores como o de me ter sido recusada a troca de dinheiro por não possuir comigo o passaporte. Estávamos a mil e trezentos metros do hotel. Os olhos da Tânia demonstram estar cansada e, no entanto, estávamos carenciados de bath.

– Ficas aqui, que eu vou ao hotel e já volto – proponho.

Pelo caminho, então feito a só, parecia que me transportara para outro lugar. Travestis de mota paravam para me desafiar; as supostas massagistas revelavam-se em ínfimas mini-saias. É outro mundo, o de um homem de meia-idade sozinho na Tailândia.

Fazer check-out num hotel na Tailândia é uma caixinha de surpresas. A novidade é que depois da taxa de serviço e do IVA, há mais um imposto: a taxa provincial “por ser uma ilha”, justificam. “Construam-lhe um istmo e está resolvido o problema”, respondo sarcástico.

A viagem de regresso a Portugal começa cedo, às quatro e meia da manhã. A primeira contrariedade do dia tem a ver com a impossibilidade de marcar lugar em Samui para os voos internacionais. O operador não tem liberdade de o fazer e faz-nos conformar com o disponível: lugares no meio... péssimo, pior do que na ida. Que tentássemos alterar em Bangkok, propôs. Só que a ligação internacional faz-nos entrar de imediato para a zona de acesso a embarque. Poderíamos sair e voltar para trás, porém a visão dos “quilómetros” a percorrer até à porta E7 é assustadora. Ao nosso lado, gente corre desalmada tentando chegar a tempo aos respectivos voos. As hospedeiras das várias companhias esfalfam-se em mini-maratonas para obrigar os mais calões a despacharem-se. Acelera que o avião não espera, é o mote.

Dentro do aparelho, o inesperado: o boarding encerra e muitos dos melhores lugares, nomeadamente os correspondentes às saídas de emergência, seguem vazios. Na verdade, são três as filas desocupadas. Peço que mos deixem ocupar; “Que logo se vê”, responde a interlocutora. Pois... O problema é que um dos colegas não pensa da mesma maneira e cede os lugares da terceira fila, um da segunda fila a uma jovem e dois a passageiros recuperados de lugares mais atrás na primeira daquelas. “Por que ir falar ao Deus, se conheço o porteiro”, pensei. Vai daí, apanhei a jeito o benemérito, e peço-lhe para mudar: “Que sim, mas só uma pessoa, e tem de ficar num dos lugares do meio. A Tânia acede a quedar-se no espaço inicialmente proposto: “Não te preocupes, que assim eu mudo para o teu lugar inicial e já vou mais à vontade”, acode. Fui para a primeira fila, estendi as pernas e fiquei sem perceber o porquê do lugar no corredor a meu lado ir vazio: “Deve estar reservado para o pessoal de voo”, pensei. Não estava. Logo que possível, solicitei à hospedeira que por perto se sentara, em conformidade com as normas para o levantamento do avião, se poderia sentar no referido lugar a minha mulher que ia algures mais atrás. Não percebeu à primeira, não tenho a certeza que tenha entendido à segunda, e atirou com um qualquer gesto indiciador de que “ se estava nas tintas”. Por essa altura, na segunda fila, a jovem ocupara já os quatro lugares, transformados em cama privada. Viajava refastelada enquanto centenas de pessoas iam como sardinha em lata. A meio da viagem sentiu-se incomodada por um outro passageiro aproveitar uma ida sua à casa-de-banho e vir-se sentar numa das pontas. Com o regresso da menina ao lugar, estalou a discussão. Vá de recorrer aos argumentos do tipo: “Eu já cá estava!”, a que o invasor apelava à igualdade de direitos. E, como não esteve com meias medidas, vá de se deitar ao comprido. Sentindo o perigo de ficar sem cama, a rapariga tenta um trato: “Somos duas pessoas e quatro lugares. Cada um fica com dois, certo?” Ficaram. Porém, cinco minutos depois, eis que a jovem se levanta, assome-se ao corredor e dispara em direcção à frente do avião, donde surge breves minutos mais tarde acompanhada pelo comissário. O invasor tenta explicar as suas razões; a menina, à beira de um ataque de nervos, torna-se malcriada: sacode freneticamente os lugares em redor, agride a senhora da frente para lhe tirar os auscultadores – como se não houvesse centenas deles – por afirmar serem os seus, e consegue o que começou a ser óbvio, isto é, predispor o comissário para o seu lado. Em jeito de juiz, decide aquele que à jovem deveriam caber três lugares e ao invasor um só. O homem avisa-a em jeito de ameaça: “Eu sento-me, mas se me deres com os pés I fuck you a leg! Nada faria. Com a vitória na mão, a jovem provocou o abandono do adversário, que desistiu e voltou para o seu lugar original. A rapariga dormiria a seu bel-prazer o resto da longa noite artificialmente criada pela tripulação que, sem sentido, decidiu apagar as luzes por volta das treze horas, isto é, sensivelmente duas horas após o início do voo. Quando, quase seis horas mais tarde, já noite, as luzes voltaram ao avião, a mulher levantou-se e foi à casa-de-banho. Ficámos surpreendidos com o episódio seguinte. Aconteceu que vendo faltarem toalhetes no compartimento, a jovem deitou a mão ao armário de acesso reservado aos tripulantes, abriu-o revelando conhecimentos para o fazer sem demora, dirigiu a mão direita a local preciso no seu interior, sacou de um pacote, fechou habilmente o compartimento e retomou aos toiletes. Estava percebido o porquê de tanta arrogância e privilégio. Como se vê, na Turquish Airlines, os aviões, apesar de malíssimos, não possuem o monopólio da falta de qualidade. O desrespeito e a desconsideração pelos viajantes fazem parte dos princípios da tripulação.

Ainda mal habituados à maneira de ser turca, tentámos sair do aeroporto, pois, em vez de efectuar outro cansativo voo, havíamos programado passar a noite em Istambul, antes de retornarmos a Lisboa. Mais uma má notícia: os portugueses precisam de um visto para ali entrarem: 50 euros. Chateados por tal não ser recíproco em Portugal para com os originais da Turquia, tentamos pagar com libras inglesas, por não dispormos doutro dinheiro. Recusam com base num dos mais absurdos argumentos que ouvi na minha vida: a nota de 50 libras que o banco em Portugal nos dera, não era válida, por já haver uma nova em circulação: “E daí?, pergunto. “O nosso banco não as aceita!”, aí tens. Qualquer tentativa de contrapor esbarra na estupidez dos funcionários: “Daqui não passam!”. “Não fora o facto de já termos pago o hotel e anteciparia o voo de regresso”, diz a Tânia. Resultado final: a dormida, as taxas e o jantar ficaram-nos em cerca de 150 euros.

O dia seguinte começa com mais uma habilidade turca. Pedi um táxi no hotel para fazer um escasso quilómetro que distancia aquele do aeroporto, posto que não se pode ir a pé. “Quanto custa?”, pergunto para não ter surpresas e não trocar dinheiro em demasia a câmbio de hotel: “Dez liras, mas às vezes os motoristas pedem quinze”, disse o funcionário. Dá-me uma nota de vinte liras por troca a cinco libras inglesas. Coberta a distância atrás referida, o taxímetro acusa 7,60 liras. O taxista pede vinte. “Como, se no hotel me disseram que a viagem custa dez?, insurjo-me. “É para a gorjeta”, ri-se o chulo. “Pois que grande gorjeta queres: do tamanho do custo. Não fazes por menos. Vá, dá-me cinco liras de troco ou não pago!”, impus. Deu, com o sorriso dos canalhas nos lábios.

Contudo, a pior das notícias ainda estava reservada: iria fazer cinco horas de voo no lugar do meio de um apertadíssimo avião. A meu lado, na coxia, um inglês, com idêntica compleição física à minha – 1,85 metros – cruzou os braços. Quando cheguei a Lisboa, acabara de fazer as duas piores viagens da minha vida. Jamais voltarei a voar com a Turquish Airlines!

 

(Continua)

05
Mar17

TAILÂNDIA - PARTE QUARTA

Eduardo Gomes

 

(Continuação)

 

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Segunda-feira foi dia de mudança, de Bangkok para Chiang Mai. Mr. AE pediu 500 bath, valor idêntico ao que pagara à chegada, salientando, porém, que estava incluída a gorjeta pelos dias em que me acompanhara. Uma espécie de compensação por ter cedido nas outras duas vezes à minha exigência. A Tânia, que naqueles dias se rebelara contra a minha dureza negocial, pedindo-me que “desse mais alguma coisa”, ficou, desta feita, calada.

As condições de voo da Thai sobrelevam de tal forma tudo o que é habitual em navegação aérea, que só dá para recomendar vivamente. À chegada a Chiang Mai optei por adquirir bilhete pré-comprado – expressão ambígua – para evitar problemas com o taxista. A primeira impressão da capital do antigo reino Lana é paupérrima. Apesar de claramente mais pequena do que Bangkok, a cidade possui os mesmos problemas quanto ao aspecto sujo, anarquia no usufruto dos espaços públicos e trânsito indisciplinado. Pela importância na economia local, os turistas parecem ter algum privilégio que em Bangkok se dissipava nos oito milhões de habitantes. Restaurantes, cafés, guest-houses, mini-mercados surgem aqui mais dependentes dos visitantes do que na capital. Já a atitude dos locais é em tudo idêntica à percepcionada anteriormente: são simpáticos por interesse, isto é, enquanto não ouvem o não definitivo; a partir daí atiram-nos pelas costas com um palavreado que, se não se entende, adivinha-se o significado.

Por serem horas de almoço, a primeira deriva na cidade foi em busca de três restaurantes pré-seleccionados. Encontrámos o Dash, sediado numa bonita casa num soi, isto é, numa travessa numerada sobre uma rua principal. Aqui não há vias secundárias: são soi 1, soi 2 soi 3 e por aí adiante até acabar a rua-mãe de tantos sois. A comida não me convenceu, como genericamente não me convence a cozinha tailandesa: é muito doce e picante – talvez para compensar –; o peixe é cozido ao vapor, a carne não passa de porco e frango. A oposição à comida portuguesa é gritante, se pensarmos que, no nosso caso, optamos por salgados, peixe grelhado e uma enorme variedade de carne... sem esquecer o bacalhau. Para mim, os doces são sobremesa, por muito que a nova vaga de imberbes “chef” inventem. A ida ao restaurante valeu por ter metido conversa com o dono, o Nói, tailandês filho de pai americano, experiência de vida em Espanha e, curiosidade maior, ex-monge. Ficámos a saber o que desconhecíamos e logo ali acertámos um dia de passeio pelos arredores mais interessantes, conduzidos pelo marido da cozinheira.

– Mil bath? Outra vez? Mas já viste quanto as agências pedem por idêntico tipo de viagens? Só tu... realmente! – acrescentou a Tânia, num elogio sincero ao marido.

 

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O jantar ocorreu no Lemongrass, cozinha tailandesa feita com qualidade. É o tipo de local onde nos sentimos bem: popular e com as paredes e tectos carregados de mensagens. Dentre aquelas, uma escrita lá bem acima, remetia-nos para Portugal: “Camões e Vasco da Gama também estiveram aqui e safaram-se!” Camões, muito provavelmente; quanto ao descobridor do caminho marítimo para a Índia, falecido em Cochim, na véspera de Natal de 1524, levantam-se muitas reticências de que assim tenha sido. Os pratos porque optámos foram fried crab with curry e Pa-naeng, isto é, curry in cocunut milk, ground peanuts, lime leaves and thai basil among chicken.

 

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Voltaríamos posteriormente para comer grilled shrimp e kao pad, composto por fried rice with seafood. Ao lado, a envolver o edifício do hotel Meridien, instala-se todas as noites um mercado, o night bazar, que, à primeira vista, pelo espalhafato na rua, mais parece a feira do relógio, em Lisboa. Uma visita mais pormenorizada dá-nos uma melhor ideia da grandeza do evento, que se estende inclusivamente por vários pavilhões de dimensão significativa.

 

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A terça-feira foi dedicada à cidade de Chiang Mai. A primeira impressão recolhida apontou para a confirmação da ideia de que estava num local fortemente condicionado pelos turistas. Se em Bangkok, a cidade se desertificava a partir das 21H00 e retomava o caos logo às seis da manhã, em Chiang Mai a situação é o oposto. Não há “vivalma” pelas ruas antes das 09H00; quanto a turistas, só os mais idosos comprometidos com alguma excursão. O ritmo dos jovens mais jovens é o de uma qualquer Albufeira europeia: curtem toda a noite e dormem até meio da tarde.

 

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Há, porém, vantagens em ser-se diferente: visitamos o Wat Chedi Luang sem incómodo particular. Trata-se do mais interessante e mais belo de todos os templos até aqui visitados. Visitar os locais de culto tão propalados na Tailândia assemelha-se a passearmo-nos por todas as igrejas de Portugal: tarefa ciclópica, que requer ponderação e estabelecimento de prioridades. Há dois tipos de templos, os novos, que são “todos” iguais; os antigos, medievais, os mais soberbos, ainda que em ruínas. As imagens do Buda seguem o mesmo critério: enormes, douradas, sentado, deitado, reclinado e sabe-se lá o que mais. As imagens antigas são, regra geral, mais pequenas, valiosas e raras. O Wat Chedi Luang inclui, num dos cantos, junto ao denominado Pilar da Cidade, uma enorme árvore da borracha, espécie de Padre Eterno que encerra a prosperidade futura da urbe.

 

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O Wat Phra Singh é modernista e diferencia-se dos conterrâneos por encerrar no edifício denominado Phra Viharn Lai Kam, belas pinturas morais alusivas à vida quotidiana do século XIX. Continuámos para o Wat Phra XXX, onde “aborregámos” à sombra durante os bons vinte minutos, dado o calor que se fazia sentir e os quilómetros que calcorreáramos nesse dia.

 

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Quarta-feira fizemos o périplo pelos arredores de Chiang Mai, conforme acordado, Iniciámos o dia com a subida ao Wat Phra That Doi Suthep, onde um aprazível monumento se ergue a poucos quilómetros do topo da montanha. Impressiona a escadaria que, para cima, fazemos de funicular a preço que inclui a entrada na zona do templo. Impressionam-me mais as pinturas murais e menos o monumento em si. Dizem que é surpreendente a vista que se observa dali sobre a cidade: “Como?!”, pergunto-me, pois o céu na Tailândia está sempre debaixo de intensa bruma.

 

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O Palácio Real, quatro quilómetros mais acima, está fechado “por falta de água”. Só abre três vezes por semana.

Sigamos para o Wat U-Mong, situado onde Judas perdeu as botas ou, mais de acordo com a placa que orienta o visitante, na “floresta” de Chiang Mai. O caminho é péssimo e daí, porventura, a ausência de visitantes, bem em oposição aos muitos que se passeavam no Wat Doi Sutep. Quando chegamos compreendemos que estamos num lugar especial. A zona é bonita e pacata. Um enorme número de galos solteiros – ou machistas que não deixam as mulheres sair de casa – passeiam-se por ali. Werukatthattharam – Ufa! – assim se chamava originalmente, isto é, o Templo dos Onze Campos de Bambu. A construção datada dos séculos XV e XVI destinava-se a residência dos monges do Phra Thera Chan e Singhol. Hoje, os eremitas passeiam-se pela área em silêncio. As celas estão construídas em catacumbas em forma de túnel. Um chedi despretensioso assinala o centro. Por debaixo das celas, nas paredes, observam-se pinturas murais referentes a árvores, flores e pássaros.

 

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Se nalgum lado senti a espiritualidade budista, foi ali. Imperdível... e, no entanto, passa ao lado dos turistas.

Quinta-feira partimos da estação de autocarros de Chiang Mai para uma viagem de três horas que nos levou um pouco mais a norte, a Chiang Rai. À partida, a habitual imagem de confusão que os asiáticos armam: pessoas de pé, sentadas pelo chão e até acocoradas em posições simiescas. A estar por ali, Darwin surpreender-se-ia com a “evolução” da espécie humana. Bagagem arrumada por todo o lado em enormes sacos de plástico reforçado, atesta que os tailandeses usam estes veículos para transporte de mercadorias. Apesar das aparentes limitações legais, são tantos os volumes e tão pesados, que os condutores os vão arrumando na bagageira com visível esforço e criatividade, fazendo vista grossa a todo o tipo de exageros, mesmo ao princípio base que afirma que a matéria tem peso e ocupa espaço. O transporte é elitista, dado o diferencial de custo nas várias classes. Há três tipos de opções: terceira; segunda, e vip. Os preços variam entre os 129 e os 258 bath. O veículo mais caro possui 24 lugares, divididos por oito filas de 1+2, luxo que nunca vi na Europa.

Dir-se-ia que com tal preço estaria assegurada a comodidade do viajante. Não é assim quando se assiste a um choque de culturas ou a simples má-educação. A meu lado, na fila individual, segue um asiático, cujo telefone não parou de tocar durante a primeira hora de viagem, provocando mal-estar em todos os que no autocarro seguiam. Quando aparentemente o aparelho se cansou de emitir o som estridente de chamada, o homem decidiu reclinar o banco e deitar-se. Poucos minutos depois ressonava que nem gaita de foles em parada militar. Acordava quando a “coisa” o voltava a avisar de que alguém lhe queria falar, apelo que, para nossa surpresa, começou a diminuir a olhos vistos. Retomado o sono, não havia volta a dar: ressonava que nem porco. Que o telemóvel voltasse a tocar, pedia-se na camioneta. Pois bem, em vez disso levámos com hora e meia de viagem em que um “chinoca” achou que o direito dele ir bem instalado ultrapassava o dos ouros que pagaram tanto quanto o próprio para não serem incomodados. A quinze minutos do fim da viagem, a simpática acompanhante veio oferecer um toalhete a cada passageiro. O homem quis dois; ela recusou-lhos, só lhe permitindo tirar um único do cesto que disponibilizava. Demasiado suor, pensámos, posto tanto exercício ter exigido às fossas nasais. Mas não, qual quê! O viajante abriu o invólucro, sacou do toalhete, pegou nos chinelos ranhosos que calçava e pôs-se a... “engraxá-los”. Que tal, hum?

Como nem só de pão vive o homem, diga-se que a paisagem é do tipo montanhosa, com vegetação a denunciar a falta de chuva. Ao lado, algumas estufas de morangueiros convivem com zonas habitadas. Ao longo dos quase 200 quilómetros, as bermas da estrada denunciam o óbvio: estes tipos são uns tremendos porcos. Ali coexiste todo o tipo de lixo: papéis, pois claro, mas também plástico, velhas latas de tinta e restos de madeira que um dia serviu para algo, lixo que, muitas vezes, aparecesse amontoado; talvez porque haja necessidade de por ali passar.

Chegámos ao hotel por volta da hora do almoço. Levávamos referenciado um restaurante pertença de um sueco onde se anunciava comida europeia. Onde fica, onde não fica... lá seguimos a pé cerca de um quilómetro, junto ao rio, por uma avenida, cujas casas dum lado da rua possuíam Mercedes na garagem, e do outro espaços abarracados destinados a sujas oficinas. Pelo chão, lixo, muito lixo, sempre o maldito lixo.

 

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À noite decidimos ir ao centro da cidade, recorrendo ao shuttle do hotel ( 100 bath para dois, em regime de ida e volta). Queríamos visitar o night bazar, que sabíamos algo diferente do que víramos em Chiang Mai. É-o!, a mais que não seja, pela menor dimensão, mas também porque ali haja muito menos gente, permitindo caminhar relaxadamente e melhor apreciar os produtos à venda. O recinto, em forma de quadrado delimitado por várias ruas, possui no seu interior uma agradável zona de comer, com tendas a proporem alimentação não tão variada quanto desejável ao visitante, contudo a preços acessíveis.

 

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O espectáculo que diariamente ocorre na nova Torre do Relógio é bonito de ver pela música e multiplicidade de cores que se alternam no revestimento do edifício. Os carros, bicicletas e motorizadas constituem um senão a captar-se em registo fotográfico. Deu-me mesmo a impressão que alguns daqueles aproveitam a rotunda para a circularem por várias vezes: descubra o “Wally” nas fotos que leva para casa, desafio que aqui deixo. Apesar de lhe chamar “piroso”, a Tânia esteve à coca e registou o momento na sua câmara fotográfica. A curiosidade vai para o facto de termos descoberto a torre original – embora já não com o mostrador inicial – a algumas centenas de metros daquela.

 

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O que parecia tarefa impossível era negociar o serviço de táxi. Voltámos ao hotel sem saber em que parariam as modas no dia seguinte.

Sexta-feira constituía a única oportunidade de visitar Chiang Rai. Herdáramos situação complexa, com algum “corporativismo” entre os prestadores de serviços de transporte, cujo limite para nos levarem ao que quer que fosse, tem um mínimo: 2 000 bath, o que me pareceu totalmente inaceitável. Era como se de repente fosse estragar todos os bons negócios que até ali fizera. De véspera percebera que havia muitos tuk-tuk e até riquexós; que os táxis colectivos rareavam, e que os verdadeiros táxis estavam engajados aos hotéis, raramente assediando os calcorreantes turistas, como víramos, por exemplo, em Chiang Mai.

Pedi um táxi no hotel naquela manhã. À questão “para onde'”, respondi “para o mercado municipal”, resposta inócua. Como, dado o destino, a comissão para o hotel fosse irrelevante, o negócio foi celebrado por telefone, sem questões de maior. Chegado o motorista e assumida a corrida, mandei-o parar à saída do resort. Munira-me previamente de um bilhete onde anotara em tailandês e em inglês os destinos que me interessavam: – Quanto? – perguntei, como se a coisa fosse assim tão simples. Longos minutos se passaram até que o jovem motorista percebesse porque o fizera parar. Finalmente avançou:

– Mil e quinhentos!

– Assim sendo, vamos para o mercado! – contestei.

Ficou pensativo. Avancei:

– Mil, vamos... mais, não!

Fomos.

 

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A cidade em si, não tem muito para além do seu centro, o qual não diverge significativamente da outra Chang, a Mai. Alguns mercados em que se sucedem gravatas, saias e peúgas, à mistura com lulas, caranguejos e mexilhão frescos; a estátua do rei, aqui sentado no trono, ali em pé, a comandar o povo; fotos por todo o lado a denunciarem o culto da personalidade da realeza. Contudo, fora da cidade, observam-se fantásticas construções, a começar pelo Wat Rong Khun, isto é, o White Temple, um verdadeiro regalo para os olhos, projecto megalómano e de afirmação de pessoal dum homem. Perfeitamente incontornável... apesar da pertinência de algumas críticas.

 

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Para norte, a cerca de 14 quilómetros da cidade, ergue-se o Baan Dam, conhecido pela Black House, cuja designação inglesa fica aquém do que se vê, posto que o recinto é constituído por cerca de 40 casas.

 

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Ao contrário dos autocarros que descarregam visitantes asiáticos, americanos e australianos no templo anterior, aqui, graças a “Buda”, só meia dúzia de turistas europeus parecem interessar-se pelo espaço, divididos entre franceses e italianos, para além de nós, portugueses. E só assim é possível tamanho encantamento do espírito. O belo natural apresenta-se em toda a sua magnitude. Imperdível.

 

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Voltámos a almoçar no restaurante do sueco, e de novo pedimos costeletas panadas, tal era o panorama de subnutrição acumulado e atestado pelo nosso pobre estômago. Passemos agora a dois episódios pitorescos ocorridos entre o entardecer e a noite.

 

Primeira história: Tânia às 17H00 a caminho da piscina:

– Isto está cheio de mosquitos.

– Já sabíamos como era vir para o norte – respondo. – Põe repelente.

– Ponho... mas não vale a pena que elas não mordem. São pequenas, as melgas... Diferentes das nossas lá em Portugal..

E às 21H30 ao regressar ao quarto:

– Entra! Depressa! “Elas” parecem uma nuvem mesmo aqui à porta.

Finalmente às 04H00 da manhã, interrompendo o silêncio e abrindo de supetão as luzes:

– Porra! Estou toda picada. Já não aguento mais. Nem sei se tenho creme para tanta baba. Raios partam as melgas!

A consequência do conflito entre mulher e bicho, foi que as pobres, afastadas à força de tanta mezinha farmacológica, acharam-me substituto razoável para a iguaria de que haviam usufruído até aí e, apesar da carne se revelar mais dura, pareciam kamikazes a sobrevoar a minha cabeça. Venha de lá o repelente se um homem quer dormir.

 

Segundo relato. Autocarro que do hotel faz de vaivém com a cidade:

– Donde vêm? – pergunta um casal.

– De S. Francisco, Califórnia! – responde outro duo, sentado no banco traseiro.

– Bonito! Muito bonito!

– E vocês?

– Austrália!

– Oh! – espanto incontido do primeiro par. – Há quanto tempo estão por cá?

– Chegámos esta tarde. E vós?

– Andamos por aí faz três semanas. Estivemos uma semana no Camboja.

– A sério?! Fantástico! E que fizeram? – questionava o segundo casal.

– Estivemos em Siam Reap.

– Não é muito tempo?

– Sabem como é... Aproveita-se... – rematou a mulher, parecendo buscar algum tipo de conformação própria e aceitação alheia ao que afirmara.

– Nós chegámos a Chiang Mai há vários dias – retorquiu a fêmea do casal que iniciara a abordagem, como que a pretender desviar a conversa que, subitamente, entrara em área de aparente desconforto.

Desconfiada, a outra retribuiu a pergunta:

– E que é que já fizeram?

– Nada! – concluiu aqueloutra com sorriso que se adivinhava amarelo, não fora ser de noite.

Era verdade. Tomara o pequeno-almoço, almoçara, jantara e até um par de cervejas pedira no hotel; fora à piscina, espreguiçara-se tanto, mas tanto na espreguiçadeira, que nem se conseguia mexer:

– Amanhã vamos embora! – disse.

 

(Continua)

 

04
Mar17

TAILÂNDIA - PARTE TERCEIRA

Eduardo Gomes

(Continuação)

 

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No sábado levantei-me às seis da manhã. Levantar é a palavra correcta, pois qual dormir, qual carapuça. Nem um bocejozito... E pensar que tinha afastado os efeitos do jet-lag: precipitação, sei-o agora. Por aqui a jornada começa cedo, posto o calor. É dia de ir a Amphawa... ou Ayuttaya, depende, pois não fui confirmar o horário das camionetas ou sequer se existem. Como tinha lido que estacionavam várias junto ao Victory Monument, pedi um táxi para lá, algo que não planeara, mas que a indisposição pela falta do sono reparador justificava. Mirei o aspecto do motorista... decidi accionar o melhor do espírito latino:

– Quer-me levar até ao destino? Se sim, quanto me cobra por nos deslocarmos ao Tha Kha floating market e ao Mae Klong train market?

A questão assim posta parece óbvia: se acertamos condições, vou; se não, regressamos à primeira forma e terminal das camionetas com ele. Pois... contudo era muito mais complicado: em primeiro lugar, porque o motorista não falava nem entendia inglês, yes... no, e é um pau, e isso debaixo da dúvida se percebeu alguma coisa para que tenha coerência a resposta. Até porque se riem, riem e... nada. A segunda questão vinha do facto de, ao contrário do lugar por onde passa o comboio, o homem não fazer a mínima ideia onde ficaria o mercado flutuante. Nem ele, nem ninguém, pelo menos em Bangkok. O turismo tailandês começou a observar aquele tipo de mercados na própria cidade, em Chatuchak. Fartos do efeito óbvio, isto é, de transformar o que antes era popular, em mero lugar “para inglês ver” e vender falsificações, os operadores passaram a propor a visita ao Damnoen Saduak, perto do Mae Klong, o que rapidamente provocou ali o caos devido à procura. Da minha pesquisa através da net, dera pela existência dum pequeno mercado incólume ao turista: Tha Kha. Tudo o que soubera para além disso, era que ficava a cerca de 10 quilómetros de Amphawa.

Avance-se então para o custo da viagem, enquanto há ainda tempo para decidir se vamos ou não de táxi.

– Mil e quinhentos bath – atirou o já então meu adversário.

O homem estava interessado, via-se. Fiz contas. Atirei com a contra-proposta:

– Mil!

– ... e duzentos – retorquiu.

A Tânia picava-me para aceitar:

– É bom preço, pois não é?

Era... mas a disputa excitava-me:

– Mil... ou deixas-me na Victory Monument! – declarei decidido.

Ria o Mr. AE Buenwichian, de seu nome. Nervoso, sentia o pássaro a fugir-lhe da mão. Atiro-lhe com o ás da mesa:

– E no dia a seguir levas-me a Ayuttaya!

Era areia a mais para a camioneta do homem.

Que sim, claro.

 

Resolver a questão do Tha Kha revelou-se uma verdadeira aventura. Contacta a central: nada. Pergunta aqui, questiona ali, interroga mais além; para cima, para baixo, passamos pelo mesmo local várias vezes. Até que aparece a ditosa placa: “Tha Kha floating market”. É ir, devagar. Sucedem-se as indicações, até que, numa bifurcação, o tailandês vira para o sítio errado, e com o desaparecimento dos sinais se começou também a esfumar a nossa esperança de chegar ao destino escolhido.

– Já passámos por aqui. Valha-me Nossa Senhora! – dizia a Tânia. Por ali e por muitos outros sítios, pensei, dada a semelhança existente entre as estreitas estradas e as curvas que se sucediam.

Uma eternidade mais tarde voltámos ao trilho. Aleluia. De novo no caminho onde primeiro víramos a placa. Já sorríamos todos, até que... a estrada estava bloqueada: sim, a p... da estrada estava cortada para obras... e, imagine-se, nada nos dizia... nem por onde seguir, nem qualquer outra forma de contornar o problema. Voltávamos para trás, regressávamos à estaca zero. Para não alargar mais este relato, diga-se que amontoámos angústias até vermos um enorme aviso à entrada para um pequeno parque de estacionamento:

“Thakha – sim, tudo pegado, pelo menos para quem ali o escreveu – Floating Market”.

 

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Espectacular é a palavra certa para o que os nossos olhos viam. Cerca de duas dezenas de pequenas embarcações pairavam sobre o estreito braço do rio, junto a um local com a estrutura adequada para receber os respectivos compradores. Vende-se sobretudo produtos alimentares, mas também uma quantidade, ainda que envergonhada, de artesanato. O reino pertence às frutas, legumes e hortaliças, expostos no barco onde, à popa, se senta a proprietária, na maior parte dos casos, idosa, todavia experimentada em manobras de navegação. Quando o rebordo do cais o permite e o produto está colocado à proa, é o próprio cliente quem se serve; quando a embarcação se encontra “estacionada em segunda faixa”, recorrem à solidariedade umas das outras para “darem uma mãozinha”. Duas pequenas construções em madeira, por cima do rio, permitem a passagem dos compradores para um e outro lado, e a este abençoado turista bater fotos de privilégio. Ri-se o motorista com a descoberta, um verdadeiro achado, a atestar pela desenvoltura com que comprou fruta variada. Quanto a mim, sujeito às vicissitudes da vida de viageiro, adquiri bananas, pequeninas, as melhores que alguma vez provei em toda a vida: 40 bath, um euro por dois quilos.

 

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A uma das pontas do mercado, oferecem-se quarenta e cinco minutos de passeio por 200 bath. O local é lindo, o bucolismo casa na perfeição com os campos de coqueiros. Aqui e ali somos convidados a baixarmo-nos, pois um tubo de condução de água cruza o canal ao nível das nossas cabeças. Como em outras ocasiões, o marinheiro de água doce não fala inglês. Descubro que nem sempre é um inconveniente. Faz deter o barco junto a uma casa onde se coa cana-de-açúcar. A operadora, uma velha, olha-nos com algum desdém, quando vê que o conterrâneo não enceta connosco conversa que conduza à venda dos boiões de açúcar que ali se disponibilizam para venda. Vira as costas quando a fotografo a trabalhar. Ao lado, no alto dum coqueiro, um jovem corta o fruto e substitui-o por uma lata que vai recolher a seiva que pelo corte escorregará. Tem as pernas consumidas pelo esforço de aceder à inacreditável “escada” em que manobra: uma enorme cana de bambu à qual foram deixadas pequenas saliências a servirem de degraus. Engenhoso.

 

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É tempo de partirmos para Mae Klong. O local é conhecido pela bizarria de um troço do mercado se situar em cima da linha do comboio que pela localidade passa – li algures – quatro vezes por dia. Os turistas são para ali encaminhados por volta das nove e quarenta e cinco da manhã, horário estratégico definido pelos operadores para o pós-Damnoen. Quando o comboio se aproxima a azáfama instala-se, os vendedores recolhem as tendas, a estrutura do “cavalo de ferro” sobrevoa os cabazes expositores da mercadoria a poucos centímetros de altura. Os turistas adoram: tiram milhares de fotografias; gravam filmes que colocam na internet. O comboio passa, passa sempre, lentamente, mesmo para quem, estupefacto, não acredita no que está a ver. Depois daqueles breves minutos, os visitantes ocasionais correm para os respectivos autocarros. São horas de regressar a Bangkok. Ficam os locais a cirandar na sua labuta diária.

Olhemos agora para a realidade sem o espírito do romantismo descrito. Quando ao que suponho seja uma vila cheguei, há muito que nem comboio nem turistas por ali andavam. Percorri calmamente cima abaixo a tão elogiada linha. A ocupação dá-se em cerca de cinquenta metros. Apesar da estreita passagem, não me pareceu que fosse preciso acotovelar-mo-nos uns aos outros para circularmos. Há que ter em conta a panóplia de coberturas e respectivos suportes metálicos que protegem pessoas e produtos do sol, e que, de tão baixos estarem, provocam cabeçada atrás de cabeçada, hematoma atrás de hematoma a quem a eles não está acostumado. Os produtos voltam a ser do tipo vegetal, mas também animal: vende-se, sem qualquer protecção, carne e peixe, neste último caso com desconto pelos milhares de moscas que nem um atarefado vendedor de vassoura na mão consegue fazer afastarem-se de lulas, douradas ou marisco. O cheiro é pestilento, a imundície inconcebível, a venda impraticável em qualquer país da Europa civilizada. Salva-se a fruta, vendida a preços convidativos e de qualidade garantida. Vamos embora, Bangkok espera-nos. Se os dias começam ao despontar da manhã, acabam forçosamente com a entrada da tarde. Isto para quem usa de racionalismo e não transforma as viagens numa qualquer cura de sono ou, mais prosaicamente, não faz das noites dia e dos dias noites.

 

Ainda o domingo se espreguiçava e nem os olhos abrira, já corria para o computador. Ansiedade e esperança misturavam-se enquanto o aparelho arrastava o pedido da password: é que em causa estava tão-só o campeonato nacional de futebol, cuja jornada mais decisiva terminara acerca de quinze minutos. “Ganhámos!”, gritei para dentro, pois ainda não haviam batido as seis da manhã, hora primeira, como se chamou até há bem pouco tempo em Portugal. Bebi os títulos na net e, en passant, levei com um “raios te partam, homem!, de quem queria dormir e sentira repentina luz no quarto. Passemos à frente, porque o comentário era injusto, dado termos mesmo de nos levantar, pois a hora de partida estava combinada para as sete.

 

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É dia de rolar até Ayuttaya. São oitenta quilómetros feitos em estrada razoável, ladeada por prédios destinados à classe média, à mistura com casas mais ou menos degradadas. À chegada à antiga capital do Sião, compreendemos que o Mr. AE nunca ali tinha estado. Não fazia ideia nenhuma do conceito de cidade antiga, e só a custo o convencemos a seguir para o centro histórico. Ponderara visitar quatro templos sem uma verdadeira noção do que iria encontrar ou do tempo que necessitaria, embora estivesse condicionado pela premissa de termos de voltar a Bangkok às 11H00. Tarefa algo ingrata, diga-se, até porque estava sem dinheiro tailandês e admitia a sua necessidade para pagar entradas. Como resolver a questão? O motorista ajudou, prontificando-se a ir à parte nova da cidade efectuar o câmbio. Dei-lhe cem euros, mandei-o trocar o dinheiro e fui à minha vida.

– Ai, meu Deus, então tu foste dar-lhe dinheiro? E se o homem nos foge? – angustiava-se a Tânia.

Decidi acalmá-la:

– Estás tola! Um budista não faria tal coisa – admiti sem estar perfeitamente convencido do que dizia.

– Mas é que , até agora, só demos com oportunistas – insistia a mulher.

Que dizer? Há coisas em que o melhor é sermos como São Tomé: ver para crer!

Os templos não são iguais a nada do que víramos: na verdade não passam de ruínas ao lado uns dos outros, à excepção do Wat Mongkol Borphit, construção recente, quase totalmente ocupado por uma estátua gigante do Buda em bronze. Um inestético andaime denuncia obras: como não compreender se a Sagrada Família, na ocidental Barcelona, está em reconstrução faz “séculos”. Por termos chegado ainda antes da “abertura”, pudemos entrar sem oposição na zona do Wat Phra Ram, nome que também baptiza o parque, onde, afinal, se localizam quase todos os outros templos. Um prang central recorda-lhe a construção; uns corpos – sem cabeça, obviamente – vestidos com uma tarja budista apelam à doação de esmolas num cálice ao lado. Prosseguimos para norte em direcção ao Wat Phra Sri Sanphet, templo real, erigido em 1448, no antigo palácio do rei. É-nos exigido o pagamento de 50 bath por foreigner, algo de que se isentam os locais. Fizéssemos isto em Portugal, e logo teríamos os puritanos do liberalismo a clamar contra os interesses do nosso turismo. Não acreditam? É só recordar a “tragédia” nacional por se ter imposto uma taxa de um euro aos nossos visitantes. Não estão satisfeitos com a explicação? Querem mais? Então pensem no topete que é preciso para a nossa direita política defender a aplicação do escalão menor do IVA a quem pratica esta actividade – recuso-me a tratá-lo por desporto – tão nobre e de interesse nacional como é o golfe.

Regressemos à nossa história. À entrada do Sri Sanphet, uma fila de três chedis deslumbra e faz recordar tempos gloriosos. Menos interessantes parecem ser as supostas “reconstruções” modernistas feitas de cimento, material que tratava a alta idade média num tu cá-tu lá, como é sabido.

 

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– Onde raio fica a árvore com a cabeça do Buda, que a não vejo? – perguntou a Tânia, depois de escrutinar cantinho por cantinho a área do monumento.

Gaita!, é que fica noutro lado, no Wat Maha That.

– E onde fica esse? – perguntei à tailandesa que, à minha aparição no guichet das entradas, logo interrompeu as indicações que prestava a conterrâneos: “Estes não pagam”, deve ter pensado, num arremedo de sentido de economia de estado.

– Tem carro ou bicicleta? – contrapôs.

I Walk! – respondi, para grande espanto da minha interlocutora.

– Mas a distância é superior a um quilómetro – concluiu com visível dó de mim.

– Deixemos as lamentações e explica-me lá onde fica mesmo esse tal Maha That – pedi.

Ficava de novo para sul, à entrada da cidade que os birmaneses saquearam e destruíram no século XVIII (defendida, no possível, por portugueses, como vimos transcrito na placa acima referida).

Saímos. Na nossa cabeça começaram a adensarem-se as dúvidas: onde raio estava o motorista, que o não víamos, conforme acordado? Camisa azul... camisa azul... Qual camisa azul, qual diabo... nada. De repente ouvimos um grito de alguém que corria na nossa direcção:

– “Dardô... Dardô”...

Era ele... mudara de camisa, que agora era castanha: “Estava com calor”, justificou-se.

Explicámos ao motorista onde pretendíamos ir, e o tailandês prontificou-se a acompanhar-nos. Pois que viesse, disse-lhe. Contudo, asiático que se preza, faz selfies a torto e a direito. Quando demos por ele estava encostado a uma árvore, não como qualquer ocidental, que, em idêntica circunstância, estaria de “pirilau” na mão resolvendo um qualquer aperto biológico, antes babando-se para um gadjet, como que a perguntar: “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais belo do que eu?” E tanto se demorou, e tanto de deslumbrou, que, quando nos voltámos, nem motorista, nem gadjet, nem apêndice ao léu.

Certamente nos esperaria à porta do Wat Maha That, achámos.

Seguimos em frente. Alguns minutos mais tarde andávamos à procura da tão bizarra escultura que ali nos levava. O templo é também conhecido pelo enorme prang que, dizem, teria o dobro da altura visível no presente, contudo, o que atrai os visitantes é mesmo a cabeça do Buda, situada no canto à direita de quem entra no recinto. Voltemos atrás para contar o estranho episódio passado à entrada do monumento, isto é, de mais umas quantas ruínas em tudo igual às anteriores. Passou-se que tínhamos um bilhete, comprado no Sri Sanphet, como atrás referi, cuja extensão remetia explicitamente para os “vários” monumentos do parque Phra Rang. “Que não”, disse a funcionária do Wat Maha That: “ Esse bilhete não serve!”. Pronto!, faça-se tábua rasa das regras – coisa comum na Tailândia – e depois de múltiplas explicações que ninguém entende, sentencia:

-- Ou compras um novo bilhete ou não entras!” Magister dixit.

Como a discussão para além da reclamação não nos leva a nada, dizemos-lhe que sim, viesse lá esse novo bilhete... e, surpresa! Afinal não havia nova entrada: pôs um carimbo no anterior ingresso a dizer qualquer coisa imperceptível para um ocidental, e dá cá mais cem bath. É assim, a Tailândia.

A estada em frente à cabeça do Buda foi atribulada. Os “chinocas” faziam poses e mais poses; aqui, individuais; ali, em grupo... E ai de quem se atrevesse a buscar um qualquer ângulo para também fotografar o “fenómeno arbóreo”: a meter-se com uma mulher, levava um empurrão; a fazê-lo com um homem, obtinha um sorriso sem outro tipo de resultado prático que não o de ter de aguardar que eles se cansassem das fotos e desandassem para outro local.

Acrescente-se agora uma explicação para o que justificado não está e tanto mistério adensa: não há cabeças a nascerem nas árvores, obviamente. A ser tal possível, em vez de votarmos em políticos tipo “picareta falante”, de fato e gravata, que dizem “estabelecemos acórdos”, “eles hadem ver” e “ sociedade encrispada”, encaminharíamos o nosso voto para plantas rugosas com as mãos – perdão, as ramagens – calejadas. Sempre era uma novidade. A teoria deste escriba é que alguém se terá lembrado de fazer um molde que previamente aplicou na árvore em jovem e, com tal, “forçou” o enchimento no respectivo caule ( aceitam-se outras explicações, claro).

Uma última vista de olhos e estava o templo visto, que mais não tem para mostrar.

– Onde raio está o motorista, que o não vislumbro? – pergunta a Tânia à saída.

– Deve estar por aí. Com certeza está por aí! – digo, a cavaleiro na vitória que obtivera quando do anterior desaparecimento do chauffeur.

Nem sinal do homem. Pensei... repensei... e decidi voltar à casa de partida, isto é, ao local onde lhe perdera o rasto: nada. Mais atrás, à primeira forma, ao Wat Phra Rang... E os quilómetros a pesar nos pés. Subitamente, ao longe, um pequeno vulto dá saltos: era ele, Mr. AE, a fazer-me sinal que ia buscar o carro, que me deixasse ficar por ali. Pudera!, a t-shirt já não absorvia mais suor. Viesse de lá uma abençoada sombra.

 

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A paragem seguinte é no Bang Pa-In , palácio de Verão do rei. “Deve ser o único lugar limpo em toda a Tailândia”, afirma a Tânia. Bonitas construções em volta de um lago, cuja memória recorda a morte da rainha por àquele haver caído e não ter sido salva pelos remadores devido ao impedimento alguém de tocar na realeza. O local proporciona fantásticas fotografias.

De volta a Bangkok pedi ao motorista que nos deixasse na Chinatown, perto do restaurante Nam Sing, o qual prometia leitão assado a preço cómodo. O estabelecimento mais parecia uma taberna antiga, e se restos de vinho não estavam pela mesa, outros líquidos e molhos lhe tomavam o lugar. Apesar do cheiro pouco convidativo, sentámo-nos e pedimos a lista.

– O quê??? Mil e oitocentos bath para dois, por um pequeno leitão, cuja anatomia mais parece uma enorme ratazana – digo. – Mas isso são quase cinquenta euros – concluo surpreso.

– Que queres que te diga?! Estava na net, na categoria de restaurantes baratos – contesta a Tânia.

Decidi levantar-me e ir embora. Caminhei ao acaso em busca de restaurante menos imundo e mais acesssível.

A área onde se implanta a Chinatown consegue o que já então me parecia impossível: supera para pior tudo o que já vira na restante cidade. Não há palavras para descrever o que se vê e menos ainda o que se cheira. Por momentos senti-me transportado à idade Média, em um qualquer local onde a peste grassasse. Tomemos botas de sete léguas e fujamos em direcção ao pier, a tomar o barco para o hotel.

 

(Continua)

04
Mar17

TAILÂNDIA - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

(Continuação)

 

Também li que eram simpáticos, os tailandeses. Não o consigo confirmar, para já. Se nos dois géneros se detecta a apetência por falar alto, as mulheres demonstram níveis de agressividade, mesmo física, que vão para além do aceitável. No Grande Palácio, nos barcos de transporte público, empurram tudo e todos. E se ripostamos, fulminam-nos com o olhar. Os trocos também são alvo da chico-espertice: não têm, nunca têm e ponto final. Na bilheteira do Wat Pho, um cartaz informa da sua inexistência e “exige” o pagamento certo: 100 bath. Quando se apresenta uma nota de 500 para pagamento de duas entradas, e apesar do enorme monte de notas de 100, recusam dar troco ou só o fazem debaixo de grande insistência... aos gritos e com total falta de respeito pelo visitante que é a razão deles ali estarem. O recurso a todo o tipo de manhas para enganar turista é recorrente naqueles que lidam connosco. Melhor será conhecerem-se as moedas, notas e custo prévio do que se pretende adquirir, mesmo que serviços oficiais, caso contrário entra-se numa discussão, e aí até os arremedos de inglês eles esquecem, para tratar os turistas abaixo de cão na língua própria. Não se vêem autoridades a quem recorrer, e também esse não deverá ser o espírito de quem viaja. Gostaria que o tempo que por estas terras irei ficar se encarregue de me esclarecer que estava equivocado, porém, para já, afirmo que não, não senhor, os tailandeses não são simpáticos, são antes vigaristas se lhes dermos a oportunidade, e focados na exploração do turista, tanto quanto se vê em Cuba ou outro qualquer país das Américas central e do sul, em África ou mesmo na Turquia, regiões do mundo que conheço. Uma outra vertente transversal a quase todos é a incapacidade de falarem inglês. Menos nos hotéis e mais nas ruas, obviamente. Não vale a pena solicitar qualquer esclarecimento. É dumas tirar outras e ir por si.

 

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Nem no hotel retirei as dúvidas existenciais. Tanta consideração faz desconfiar, sobretudo a partir do momento em que o hóspede é quase compulsivamente empurrado para dar gorjeta. Ao recepcionista que me conduziu tão gentilmente ao quarto, coisa de que não necessito, fui obrigado a remeter para mais tarde a cortesia, quando os seus olhos não largavam o maço de notas chorudas que acabara de cambiar. Querias! Como não primam por uma educação esmerada, um outro colega trouxe-me ao quarto duas almofadas que solicitara em troca das que possuía, às quais apontei o facto de serem altas e duras. Solícito, o jovem apareceu com dois trangalhos que mais pareciam pneus dum jipe com tracção às quatro rodas. Quando lhe pedi que mas deixasse experimentar, irrompeu pelo quarto adentro, vendo o que não devia ver. A Tânia, de tão cansada, não conseguiu sentir-se chocada. Valeu-lhe a rapidez com que se cobriu com o lençol. Ah, é verdade, já me esquecia: tiveram de vir novas almofadas. Uma servia; outra não. É o custo da impreparação profissional.

Vamos agora aos restaurantes, todos escolhidos por nós, previamente e a dedo, debaixo de critérios rigorosos, que têm a ver com a qualidade da comida e a recusa terminante a tudo o que seja gourmet ou luxo ostentativo. O primeiro daqueles, o Prachak Roasted Duck, era do tipo popular entre os tailandeses. Barato, o pato cantonês, assado e fatiado, pedia meças a tudo o que antes conheci na área das aves gralhadoras. De negativo o facto de, apesar de chinês, o bicho ter uma certa doçura e ser servido em pouca quantidade, apesar de requerido meio pato para dois. O serviço era o possível, com um sorriso inescrutável nos lábios. Pormenor interessante o facto das mesas estarem abertas a novos comensais. Estivessem as disponíveis completas, e logo desconhecidos eram para as outras encaminhados. Venha de lá um cumprimento, mesmo que de ocasião, e por gestos nos entenderemos... ou não, pois vi um par de turistas levantar-se de imediato, ceder o respectivo lugar e abandonar o restaurante.

O segundo, o Jin Chieng Seng by Inn a Day, tem outras pretensões. Come-se, sob conselho, Pad Thai e Pa Nang Curry. O primeiro daqueles é confeccionado com massas e camarão; ao segundo corresponde caril de frango com arroz branco. Calma, a fome ainda demora algum tempo até sobrevir. Façam-se votos para que o jantar seja melhor. Não seria. À noite, no Harmonique, restaurante eminentemente turístico, mais que não seja devido ao preço relativamente elevado, comeu-se caril de caranguejo com arroz, bem apaladado para quem gosta, espetadas de frango idênticas às que na rua custam 7 bath cada, e peixe, supostamente uns pedaços de dourada, com frutos do mar – um ou outro camarão e algumas delícias de caranguejo – tudo ao vapor e temperado com ervas a saber a limão. Uma sensaboria.

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O primeiro dia em Bangkok foi consumido com as visitas ao Palácio Real, que inclui o Templo do Buda Esmeralda e ao Wat Pho, conhecido pelo Buda deitado ou reclinado; no bem-bom, diria eu, pela posição e facies da peça em questão. O Palácio Real custa a módica quantia de 500 bath por pessoa e, tenho de admitir, é uma extraordinária fonte de rendimentos e um não menor sucesso de marketing. Vale a pena? Vamos por partes. “Ninguém” vai a Bangkok sem visitar o palácio. Trata-se de uma área com muitos edifícios de arquitectura sublime, tipicamente thai, segundo o que é dado ler ao visitante. Seria belo se... Pois, não há bela sem senão. Seria fantástico observar tantos monumentos com a calma que requerem, sem a canícula que às dez horas da manhã já se faz sentir, e, sobretudo, sem turistas aos magotes, maioritariamente grupos de asiáticos que entram e saem de todo o lado; que não param de tirar fotografias a tudo o que mexe e não mexe; que adoptam posturas fotogénicas “hollywoodescas” em frente a tudo; que empurram quem quer que tenha a desdita de se intrometer na linha direccional formada por aquelas serpentes em movimento. 

 

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Tudo é anárquico no Palácio. Não existem directivas quanto às orientações da visita. Entra-se, e é cada um por si, todos ao monte e fé em Deus... ou Buda. Para contrapor ao suor que começa a escorrer pelo rosto, recorre-se às ventoinhas que em alguns dos edifícios estão ao dispor dos empregados que por ali vigiam qualquer desrespeito às regras. E quais são estas? Para os homens: calças compridas; para as mulheres: ombros, peito e pernas tapados. Para eles, sem remissão; para elas, disponibilizam-se túnicas salvadoras de tanta exposição carnal. Como os bilhetes se adquirem sem aviso prévio, ficamos sem saber o que acontece se um homem aparecer de calções. Norma complementar inclui descalçar-se antes de entrar nos templos. Justifica quem sabe, que tal se deve ao facto da religião budista crer serem os pés a componente mais ímpia do corpo humano. Simbolismos à parte, assiste-se a uma verdadeira porcaria em três actos: primeiro ao descalçar; depois ao caminhar; e, por último, ao voltar a calçar. Os pés ficam negros do contacto com a sujidade do chão; maculam o suposto solo sagrado; regressam imundos aos sapatos. Uma chavasquice perfeitamente evitável, ao equacionarmos o que seria a vida do homem se, em outras áreas que não a religiosa, continuasse a adoptar procedimentos milenares completamente desajustados à era contemporânea. E não me refiro somente ao budismo, mas também ao mundo muçulmano com as suas hipocrisias quanto ao corpo humano, ou ao cristianismo com a subserviência do acto litúrgico dominical, em que marionetas são convidadas a sentar, levantar, ajoelhar, como se Deus – a existir – exigisse que os seus filhos tivessem de recorrer à genuflexão para com Ele conversarem. Mau seria para o diálogo em família.

 

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Voltemos ao que visitei. Gostei particularmente do templo do Buda Esmeralda, algo assim à semelhança da Capela Sistina, no Vaticano. Aos chut!, com que na última se admoestam os visitantes que ousam sussurrar, opõem-se na primeira as ordens estritas dos funcionários para que se tirem bonés, se sentem pelo chão, recolham as pernas e, acima do mais, não tirar fotos. A um oportunista foi mesmo apagado o respectivo registo no Ipad... como se não existissem milhares de fotografias pela net e em tudo o que respeita ao templo em questão. A título de compensação, pensemos na confusão que se instalaria se aos asiáticos fossem permitidas as chapas. Uma proposta: fotografias, sim, todavia só aos europeus... É que somos mais discretos.

A espiritualidade, coisa da fé e da alma, não se sente que possa ocupar lugar num espaço assim, por muitas velas e flores que sejam depositadas na base do monumento. Melhor perspectiva da cultura thai se tem no museu para o qual se adquire bilhete sem aviso prévio, e que, simplesmente, “não” é visitado: porque as pessoas estão cansadas; porque não gostem de áreas museológicas; porque ali se pactua com o silêncio, a calma e a reflexão. Fica-se então a saber que o Buda possui três tipos de traje: para a chuva; para o frio; para o calor. Só ao rei é permitida a mudança de vestimenta e muito ocupado ou doente andará, pois com quase 40º de temperatura, o pobre Buda deve estar a suar em bica. Isto a observar pela roupa que usa.

Ao fim do primeiro dia, um oásis no meio do deserto de tanta antipatia: vendo-nos indecisos no pier sobre o barco a tomar, uma jovem propôs-se ajudar: “Só por esta já não os destruo a todos!”, disse Ele há muito tempo, a propósito de Sodoma.

 

(Continua)

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