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Das Viagens

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Viajar devia de ser como o sonho: uma constante da vida. Aqui trago relatos apoiados numa visão muito pessoal do prazer de cirandar por aí.

Das Viagens

09
Jan18

ADEUS!

Eduardo Gomes

Fim de ciclo, este blog termina aqui.

A ideia de um espaço reservado a viagens surgiu -- tanto quanto o dedicado ao futebol -- a reboque do original da historia.blogs.sapo.pt, cuja existência é obrigatória em função do projecto que o suporta.

Gosto de escrever sobre viagens, na verdade possuo inúmeros relatos a envolver tanto o nosso país como múltiplas regiões na Europa e noutros continentes. Porém, escrever com rigor, com paixão, focar as áreas que numa viagem queremos ver reflectidas, demora tempo, custa dinheiro. Se este último se consome pelo simples facto de se viajar, já o tempo gasto a relatar por escrito as experiências depende da nossa vontade.

Como em tudo o mais a que me dedico, estabeleci alguns objectivos pessoais ao avançar com este espaço: não alcancei nenhum; a partir de certa altura parei mesmo de publicar os relatos. Esta área está "infestada" de gente paga para dizer bem disto ou daquilo; gente conhecida, mais que não seja pela sua futilidade; aqui pagos pela Solisto; ali, pela Solaquilo, chamem-se Amendoins, Pipocas ou outra coisa qualquer. Curiosamente, sendo a liberdade um bem essencial, é o mais desprezado de todos, inútil mesmo, direi. De que serve indignarmo-nos com as opções comercais, as "cambalhotas" na orientação dos conselhos dados por um(a) qualquer blogger, se continuamos a sorver tudo o que ele(a) diz?, se continuamos a ser a razão para a existência daquilo que criticamos? Somos uns conformados.

Ninguém me encomenda sermões; na minha escrita convergem a qualidade literária, o rigor nos aspectos históricos, o encanto nas descrições paisagísticas, o bem-dizer e o maldizer na forma como sinto e experiencio. Infelizmente, sem gratificação espiritual, quanto mais material.

Vou dedicar-me a outros projectos na área da escrita, os quais não envolverão, certamente, as redes sociais. A cultura não deve servir para usar e deitar fora. Como não os posso vencer... recuso juntar-me a eles.

Eduardo Gomes

Janeiro, 2018

04
Jan18

NATAL EM MONS SANCTUS - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

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E, ao terceiro dia de inesperada claridade alvacenta, o viageiro muniu-se de forças para desafiar dois percursos terrestres. O primeiro, logo em Monsanto, dá pelo nome de Rota dos Barrocais, palavra que significa paisagem rochosa coberta com blocos insulados procedentes da meteorização da formação granítica subjacente, o que, em termos leigos, se definiria por conjuntos de enormes pedregulhos, alguns deles encostados ou mesmo sobrepostos.

 

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Um homem olha para cima, hesita se não devia usar o mais habitual caminho para o castelo, faz das fraquezas forças, e rapidamente obtém o primeiro prémio: a casa que foi de Zeca Afonso. De lado, uma lápide recorda a estada do cantor em Monsanto. Ali se diz que, seguro do fim que se avizinhava, terá afirmado: “Já não volto à Beira!”.

 

Rios que vão dar ao mar / Deixem meus olhos secar / Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar.

 

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Montanha acima em direcção ao nordeste, atingem-se os Penedos Juntos: Dois pares de grandes penedos que, separados por fractura do afloramento a que pertenciam, se soltaram e aqui se fixaram, criando um estável equilíbrio. Assim é, e, para deleite dos visitantes, a justaposição dos penedos produz ao mesmo tempo um abrigo e uma passagem. Atravessemos e prossigamos, espantados da beleza do inóspito:

 

De pedras julgava o viajante ter visto tudo. Não o diga quem nunca veio a Monsanto.

(José Saramago... Com a devida vénia).

 

Um homem detém-se junto às placas informativas do percurso, mas também a olhar com olhos que nunca assim viram, cegueira de quem vai por ir:

– Vens ou ficas? – pergunta-lhe a mulher já umas toesas bem acima.

 

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Uma pedra ao nível do chão reclama por nome próprio: Lage das Treze Tigelas ou as Tigelinhas da Fidalga. O sendeirista conta-as: 14, pois uma está escondida, e isto não é novidade para a alminha que ali colocou a placa que, certamente, terá preferido manter-lhe o nome pela qual a pedra é conhecida, furtando-se a eventual reacção popular negativa: “Ainda me caía uma pedra em cima”, terá dito bem a-propósito. Para que se saiba que o viageiro é rigoroso, aqui fica a explicação técnica para o fenómeno: Quando a rocha é exposta, dá-se uma erosão diferenciada, decompondo-se nas áreas agora correspondentes às covas, processo geológico conhecido por meteorização química.

 

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Castelo à vista – forma de dizer, entenda-se – o caminhante dá com a capela e necrópole de S. Miguel, a primeira já sem cobertura, exposta à chuva e ao sol, ao silêncio de Inverno e ao oh! de espanto no Estio. O povoamento medieval de Monsanto foi feito ao redor do templo românico construído por volta de finais do século XII, tendo, nos últimos tempos, surgido a dúvida se não terá sido erigido em cima de monumento anterior, o que a ser verdade, levantaria novas questões acerca da colonização e objectivo do espaço. Curiosamente, afirma-se que a necrópole é anterior ao templo: um dado importante para a questão atrás colocada.

Um homem é curioso, não lhe fica mal se tal endereçar para o conhecimento. Naquele lugar cruza-se um outro percurso que chama a atenção mais que não seja por parecer bem menos utilizado. Ao longe, um arco de pedra grita “vem-me visitar”:

– Onde vai dar este percurso? – pergunta a mulher.

– Não faço ideia. No limite... volta-se para trás.

Que graça teria uma aventura, se soubéssemos de antemão tudo o que nos espera?

 

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A capela da qual nada resta teve por orago S. João. Possui as paredes arruinadas, lajes jazendo ao deus-dará pelo chão. Terá sido construída por volta do século XVI, talvez um pouco antes, havendo notícias de servir a prática de culto duas centúrias mais tarde. A imaginar o tamanho da pequena capela de uma nave, o arco estranhamente imaculado surge, desproporcionado. Alguém se terá entretido a construí-lo, provavelmente no século passado, mais para enquadramento fotográfico do que por outra qualquer razão. Prossigamos.

 

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E das trevas nasce a luz: o percurso leva-nos à porta falsa ou da traição. A primeira impressão é que a natureza muito terá facilitado a vida aos homens, pois o aproveitamento das pedras é engenhoso, bastando a construção manual de alguns segmentos de panos de muralha para lhe garantir a defesa. Trabalho sério, devem-lhes ter dado as torres góticas que ritmavam os panos da longa cerca.

Há duas curiosidades à volta da pequena porta. A primeira reside no princípio da possibilidade dos sitiados poderem efectuar ataques nocturnos sobre os sitiantes, sem perigo de maior para a urbe. Acontece que muitos foram os exemplos (não obrigatoriamente em Monsanto) da operação efectuada em sentido contrário, isto é, alguém, no interior, traía os seus, abria a porta, e permitia o acesso dos inimigos ao castelo. Em muitos dos casos ficou por se saber se Roma pagou a traidores. Daquele facto decorre a segunda curiosidade: a porta esteve emparedada, pelo menos, em parte da sua história, pois não se registam notícias da sua existência em relatórios do século XIX.

Contudo, o viageiro não entra ainda, pelo menos para já, não consegue desfitar o horizonte sem deitar um último olhar para a banda donde viera. Os calafrios da nortada sopram rijos, a manhã vai áspera, o visitante amantalhar-se-ia para se resguardar se de tal se provera; não o fez, resta-lhe aconchegar a grossa camisola ao corpo. De além das longínquas cumeadas que enganam os olhos pois à mão parecem estar, ergue-se o maciço da fortaleza de Penha Garcia. No pendor da serra, erguidos nas lombadas dos desníveis próprios da montanha, os inóspitos pedregulhos provocam-nos; parecem induzir, ainda mais forte se possível, a ideia do frio gelado que em nós se entranha regorgitado pelo vento gemebundo. Lá para a baixa da serra impera ainda a geada, o sol teima em privilegiar os cumes e as portelas por onde o viageiro caminha: eis o castelo! Finalmente.

 

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A fortaleza foi construída sobre uma anterior atalaia, provavelmente muçulmana, pelos Cavaleiros da Ordem do Templo, a quem Afonso doou grande parte das terras beirãs com a contrapartida do seu povoamento e defesa. No século XIII o local foi reformado com elementos góticos, altura em que se deu o acastelamento do cume. No perímetro interior ergue-se a capela de Santa Maria do Castelo, datada do século XVIII. Apresenta-se em melhor estado do que a de S. Miguel, ainda que sem motivo que a recomende. Nas imediações, foi construída, no século XIX, uma rampa que acede a um muro para encaminhar e instalar quatro canhoneiras: sinal de que a guerra não está assim tão longe como a supomos.

A delimitação da área da fortaleza obedecia a parâmetros próprios da época: torre de menagem (hoje inexistente) num ponto alto a meio da cerca; cidadela/alcáçova numa espécie de pátio amuralhado com uma só porta. É naquele lugar que anualmente se celebra a lenda da bezerra, história de tal forma similar à de Deu-la-Deu Martins, que aqui me escuso de a contar, acreditando que o leitor não se tenha esquecido do que aprendeu na escola primária.

 

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Uma caminhada serra abaixo que por vezes obriga ao apoio entre os ramais do arvoredo, leva-nos a um sítio encantador, charme que, logo à chegada, se percebe também ser o preferido dos pares de namorados ou mais qualquer coisa que por ali circulam. S. Pedro de Vir-a-Corça é basicamente o local onde está instalado um templo de nave e cabeceira tripartida, formado por ousia (zona do altar-mor) ladeada por estreitos absidíolos. Está fechada a igreja, pelo que nada mais se lhe adivinha que não as formas. Possui, na fachada, porta e rosácea que auxiliam a adivinhar-lhe o estilo – românico nacional tardio – e época – século XIII –. A exploração do espaço em redor leva a um campanário habilmente construído sobre uma rocha. Quanto aos sinos, agora ausentes, desconhece-se-lhes o paradeiro... ou o visitante ficou na ignorância acerca do valhacoito. O estranho nome do local está ligado à história de um anacoreta, de nome Amador, cuja lenda inclui uma mãe e um filho, a tentação do diabo, e uma corça generosa em doar o leite para salvar o rebento humano.

 

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Ah, é verdade! É preciso fazer o caminho de volta; para cima, a cabrear e a bufar, que pela aba da serra está um calor dos diabos... ou será tão-só o produto da humidade e do esforço da subida?

 

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Escrever/descrever uma história pode ser moroso, todavia, possui também a vantagem de viajar mais rápido do que o tempo, algo semelhante a uma película em que o realizador, entre duas imagens, coloca a informação “Dois anos mais tarde...” Não vai o escriba abusar da serventia; avança apenas um par de horas e coloca o viageiro junto à Igreja Matriz de Penha Garcia, local onde começa a Rota dos Fósseis.

 

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Não tem este sendeirista fervor especial por elementos petrificados normalmente a requererem olhar treinado, contudo, a paisagem, vista do castelo, desafia à descoberta. A primeira parte do trajecto é auxiliada por todos os santos, no que se deduz que se dirije para baixo, em direcção à barragem que aprisiona o Ponsul.

 

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É tempo de calar, escutar os silêncios das águas do rio que a nosso lado correm, aqui ajudando velhos moinhos de rodízios a gemer na sua vetustez; ali caindo em cascata (ainda que artificial), formando uma frondosa piscina (Fonte do Pego): mais além correndo na levada, saudando o avô Cassapo, do qual somente o espírito pairará ainda por ali. Pelo caminho, as bem conservadas casas dos moleiros, espectadores privilegiados da pigmentação amarelada das colinas. Dessedenta-se o viajante que água mais pura não haverá no mundo... pelo menos assim lhe pareceu naquele momento – perdão terá pelo dislate, certamente.

 

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Seria injusto da parte do visitante não mencionar outros atractivos, que os há, em Penha Garcia, a começar pelo magnífico pelourinho, e, muito particularmente, a Virgem de Leite, com morada na Igreja Matriz. Lê-se no folheto respectivo que a peça é gótica e feita em pedra de ançã com o manto azul-escuro e a túnica vermelha, isto a fazer fé nos vestígios policromáticos. O panejamento revela um grande cuidado artístico. O manto cai da cabeça sobre os ombros, apanhado com o braço esquerdo, passa pela frente num conjunto de pregas cheias em quatro curvas harmoniosas, prendendo no lado direito, depois de cobrir o Menino da cintura para baixo. Os sapatos terminam em bico. A cabeça encontra-se levemente inclinada com os cabelos caídos pelas costas. A mão direita segura o Menino e a esquerda toca-lhe o pé direito. Apresenta uma coroa fixa trabalhada ricamente. Jesus aparece em tronco nu, a ser amamentado e a olhar para a mãe. A impressão do observador é a de que Jesus se apresenta com proporções exageradas, bebé de quase um metro de altura.

 

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Compromissos anteriores obrigam a encurtar a tarde para ir a Idanha-a-Nova buscar vitualhas festivas encomendadas à medida de quem não está na própria casa. De volta a Monsanto a mulher recorda o quanto lhe compraz ir à missa do galo, instrumento de coesão social entre a população campesina. Porém, o mundo deu muitas voltas: o horário da eucaristia é agora adaptado às paróquias que o responsável único por todas elas detém As badaladas na torre sineira começam um pouco antes das seis da tarde, a pesada porta da igreja desferra-se; aleluia, aleluia, nasceu o Menino Jesus.

 

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Nem todos os homens são de fé, a alguns sobrar-lhes-á a boa-vontade: é assim que este hóspede ocasional de Monsanto gosta de se ver. Aquece-se no madeiro que começou a crepitar ainda há pouco. Durará enquanto os homens quiserem, pois o pinheiro central apresenta-se virente e robusto. Haja presteza em não o deixar apagar.

Relatos em segunda-mão afirmam que os primeiros passos do Menino, isto é, do padre em Seu nome, foram constituídos por forte tropeção na nave central da igreja: querem ver que o sacerdote já leva grão na asa? Chegou também a má-educação ao acto litúrgico: as velhas trocam cochichos, uma delas debita lamúrias do que foi e já não é; tangem e pincham os telemóveis de novos e menos novos; a internet é motivo de entretenga de todos; o ministro do Senhor é cada vez mais mero secretário: mau sinal, mau sinal. A seu tempo são os fiéis convidados a cumprimentarem-se; fá-lo somente quem se conhece: é Natal... é Natal... E o pior é a seresma que de tão pia se querer mostrar, "exocrina" os ouvidos dum cristão. Na verdade, a beata não “pia”... grita.

 

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Improvisa-se anormal refeição no quarto: presunto, queijo, doçaria variada, vinho e licores. Hora de partir para Penamacor, em busca do apregoado “maior madeiro de Portugal”. A televisão falara dele, aguçara o apetite para ver algo incomum. À chegada, a única anormalidade residia no facto de pouco restar das labaredas da tarde, embora a suposta área ocupada pela madeira fosse generosa. Querem ver que por aquelas bandas ninguém sabe que, ateado o fogo, há que ir juntando a matéria combustível, sem falar da importância de acrescentar novos troncos em substituição dos já ardidos? Saberão, certamente, mas como a televisão já lá estivera... Para não ser inteiramente injusto, diga-se que a vila estava aprumada e embelezada com iluminação como Cascais, por exemplo, não possui.

 

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Volta o viageiro a Monsanto, onde o madeiro resiste e aquece quem a ele se chega.

O bolo-rei vai ser partilhado na recepção com o Jorge, que também é gente, antítese de pedra, de tudo o que por aqui existe... ou seremos já todos pedra? Surgem cumplicidades, fazem-se planos; o mundo ficou, subitamente, melhor: é Natal... este sim, o da aproximação dos homens.

 

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O percurso do Erges vai ter de ser adiado; é que a chuva ameaça o prazer. Como a alma não é pequena, reajusta-se o plano: Termas de Monfortinho, onde não se vê vivalma; Salvaterra do Extremo, vila com o maior número de dejectos caninos do mundo por metro quadrado (merda de cão, entenda-se). Se o visitante se conseguir abstrair da visão e cheiro, pode sempre ir deitando um olhinho à matriz, ao pelourinho ou à torre sineira.:

– Chega, leva-me daqui para fora – diz a mulher, cujo olfacto pede meças a qualquer perfumista.

 

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Em Segura o viageiro interessa-se pela magnífica ponte romana. O Erges corre lá em baixo; o tabuleiro define a fronteira: metade minha, metade tua. Os símbolos de Portugal e Espanha espreitam dum e outro lado, recordação do tempo em que a polícia em tudo metia o bedelho. Ir a Alcântara ver a mãe desta ponte, é a dúvida. Não há tempo, ficará para a próxima, não falte a vontade.

 

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O almoço do dia 25 foi atempadamente reservado no Almortão. O santuário mais parece espaço de feira semanal, compreendendo-se mal onde se descobre o fervor religioso. A igreja possui múltiplos elementos pintados a púrpura. O interior não deslumbra. A atenção do visitante dirige-se para a ingenuidade dos votos e as inscrições no chão de acesso ao templo, no qual foram sepultados Inácios, Jóias, Capelos, Belos entre outros, com a curiosidade das datas dos respectivos passamentos se referirem ao século XX.

 

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Já a 26, a caminho de Lisboa, surge Vila Velha de Ródão. A localidade é feiíssima, carregada de chaminés das fábricas a debitar fumo para o ar. Valem-lhe as afamadas Portas de Ródão, onde um homem faz as pazes com a natureza. Lá voltará o viageiro, mais que não seja, pelo castelo do visigodo Wamba. É que, às vezes, mais vale um homem imergir no mito do que na realidade.

 

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Antes de me referir à “ficha técnica” dos restaurantes a que recorri, deixo um comentário à aldeia de Monsanto. Meio de propaganda do ruralismo paternalista do antigo regime, é um belíssimo local onde se faz sentir a desertificação humana. Pelo Natal, a aldeia encheu-se de pedantes famílias donas de solares abandonados, e arrogantes seres idos em busca da comida da avó. Por mim, dispenso-os; prefiro os aldeões que dão os bons-dias com um sorriso nos lábios. Descrever Monsanto é falar dos penedos, das vistas, dos monumentos carregados de história, de um local onde o médico vai três ou quatro vezes por mês, os apoios aos turistas não funcionam, o sino da igreja toca incessantemente toda a noite. Ir a Monsanto é mergulhar no passado com presunção de presente... para o bem e para o mal.

 

Nota: Perto do cemitério existe uma imagem de Cristo recentemente oferecida à povoação. Pintada de branco, está desajustada de tudo o que “é” a aldeia. Provincianismos!

 

Vamos aos restaurantes.

 

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Restaurante do Santuário da Senhora do Almortão - Idanha-a-Nova

O melhor da região. Comida bem feita e em quantidades generosas, com um senão: o chef (???) Óscar (gosto mais de “cozinheiro”) participou recentemente num dos inúmeros programas de televisão dedicados à culinária. Não sei se estarei correcto, mas as peças de fruta misturadas no cabrito, no javali, no borrego, na perdiz, prováveis reminiscências do que naquele “aprendeu”, não fazem sentido algum, conforme se prova pelo retorno dos pratos. Preço médio/alto.

Nota: 7

 

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Restaurante Helana – Idanha-a-Nova

Comida feita com cuidado, embora não impressione por aí além. Provei a cabidela, cuja quantidade exagerada de vinagre transmitia um sabor amargo ao arroz. Preço médio.

Nota: 4

 

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Restaurante Petiscos e Granitos – Monsanto

Serviço e comida aquém do mínimo aceitável. Experimentei o bacalhau que não estava no ponto. Preço médio/alto.

Nota: 2

 

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Restaurante O Raiano - Penha Garcia

Cozinha honesta sem motivo de exaltação ou crítica. Um reparo: a internet, disponível “para os espanhóis se entreterem enquanto esperam”, diz o proprietário. O barulho dos equipamentos pelas mesas fora, remetendo os outros comensais para os estúpidos mundos de aventuras e bandas animadas é tão incómodo que me pergunto como poderiam os funcionários ali trabalhar se todos fizéssemos o mesmo. “São eles que cá deixam o dinheiro”, repete a alminha que não compreende que em vez de “lamber o dito cujo” a espanhóis, bem melhor faria em cativar os portugueses. Ah, é verdade: tanto quanto me pareceu, nuestros hermanos esquecem-se amiúde de pedir a factura! Preço médio/baixo.

Nota: 4

 

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Restaurante O Bigodes – Ortiga (Mação)

O peixe de rio fora anteriormente congelado, o que me impede de ter opinião segura sobre a frescura do mesmo. Estranhei que todos os pratos propostos fossem de carne num estabelecimento que é conhecido pelo peixe de rio. A sala é pequena demais para o número de mesas, o que provoca largo desconforto enquanto ali se permanece, posto sermos permanentemente importunados por quem tem bichos carpinteiros no rabo e vontade de fumar um cigarrinho no caco. Preço elevado sem justificação.

Nota: 4

 

FIM

04
Jan18

NATAL EM MONS SANCTUS - PARTE PRIMEIRA

Eduardo Gomes

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Dorso de monstro a crescer para nós até tomar conta de todo o céu

 

Foi com a frase acima que Fernando Namora se referiu a Monsanto, a “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, conforme concurso datado de 1938. Outras figuras à terra se dirigiram em versos e prosas, dentre as quais se salientam Zeca Afonso e José Saramago.

Se o Natal é quando um homem quiser, pode também acontecer onde este o desejar. E o viajante quis que fosse ali, no Mons Sanctus romano, com olhos de águia sobre a presa lá em baixo, que, por estas bandas, tanto se poderá chamar Relva como Eugénia. Se o hominídeo pretender desafiar a vista e a memória geográfica, entreter-se-á a talhar nomes para as serras que vislumbra do quarto, membros superiores apoiados no parapeito da pequena janela de tipo guilhotina.

 

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Posto haver residido na escolha do hotel a dúvida maior na decisão relacionada com o “onde ficar”, comecemos por aludir à opção encontrada, tratando-o pelo nome próprio: Monsanto, Geo-Hotel Escola, isto é, a antiga pousada de Portugal, uma das que o senhor Pestana descartou habilmente, a qual, emmentes, terá passado por mãos privadas, até que a Câmara de Idanha lhe deu segunda vida e objectivos em consonância com a nova missão. Por ali tudo tresanda a inexperiência, a gosto duvidoso, a investimento controlado, a serviços mínimos, mas também a simpatia, a desejo de superação, ou seja, bem à portuguesa, procurar fazer das tripas coração, algo transversal à Fátima, à Cátia ou ao Jorge, funcionários da unidade hoteleira.

 

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Em relação ao período “pousada”, nota-se que perdeu o restaurante, que não a capacidade de prover refeições. Diz-se que tal terá sido imposição dos empresários locais, algo que não se compreende por duas ordens de razões: a primeira porque os estabelecimentos existentes na aldeia parece abrirem e fecharem quando lhes apetece; a segunda, a fazer fé na premissa inicial, entendida enquanto incrível cedência negocial do município Idanhense. Certamente que não dominarei os meandros do assunto, porém, que é bizarra a situação e nociva para os interesses da aldeia, não restam dúvidas.

 

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E, afinal de contas, em que ficamos: vale ou não a pena ficar no Monsanto Geo-Hotel Escola? O meu conselho vai no sentido de que em vez de reclamar das molas do colchão que lhe magoam o corpo ou da almofada rija, alta e cheia de pedaços de gorgorão, vá fazer o Percurso dos Barrocais ali mesmo, em Monsanto: à volta de S. Pedro de Vir-a-Corça estará tão cansado que adormecerá embalado nos braços de Morfeu; se o seu problema for o barulho do ar condicionado que ainda funciona “a lenha”, vá fazer a Rota dos Fósseis, em Penha Garcia: a beleza paisagística inebriá-lo-á, nenhum som maculará jamais ouvidos a que assobiaram as águas dos moinhos de rodízios; se quer criticar a exiguidade e falta de variedade do pequeno almoço, esqueça o material e pense no bem que lhe fará ao espírito caminhar à beira do Erges, em Monfortinho.

 

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Ah!, e se já estiver farto de aturar a mulher e os filhos que não largam o I-Pad nem às refeições, numa manifestação de desconsideração para consigo – ainda que você finja que não nota – , deixe-os, vá desvendar os segredos nocturnos da aldeia ou entretenha-se a descobrir São Tomé nas palavras generosas e apaixonadas do Jorge, antigo sargento, segurança, pedreiro e restante pão que a ciência do diabo amassou sem lhe conseguir minar a alegria pela vida e pela família.

E, já agora que estou com a mão na massa: pare de reclamar da inexistência duma caixa multibanco ou da falta de estacionamento local, que o hotel não tem culpa alguma. Cada um deve saber escolher os locais onde se sente bem, e responsabilizar-se a si próprio, e não aos outros, pelas opções que toma. Informação relevante, não falta.

 

Vamos à viagem.

O dia 22 obrigou a cerca de trezentos quilómetros de automóvel com paragem para almoço no restaurante da Srª do Almortão, local do qual nem por inspiração divina consegui apurar a grafia correcta, isto é, se com u, se com o, tão díspares e numericamente equilibradas se encontram as informações nos sinais de trânsito ou nos painéis que por ali existem. Aguardemos pelo milagre da correcção. Repasto demorado, coisa de gente em férias, e ala que se faz tarde em busca do hotel.

 

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Com uma hora de luz ainda pela frente, faça-se uma primeira abordagem ao percurso 5, chamado dos Barrocais, que parte do posto de turismo, ruma a oeste passando pelos Penedos Juntos, e segue, num espectáculo de êxtase pedregoso, até ao patamar onde se encontra a capela de S. Miguel.

– É tarde, começa a anoitecer – diz alguém.

– Falta ver o castelo – reponde outrem.

 

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Faltava, de facto: o castelo, os cães, os porcos, os lobos, as tartarugas cujos formatos nas rochas nos são enviados pela imaginação numa particular perspectiva para logo se esfumarem um passo mais à frente... E as pedras, sempre elas, as verdadeiras culpadas de tanto desatino.

– Amanhã voltaremos.

– Amanhã será.

 

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Não seria bem assim. Era tempo de aproveitar a luz (ou a falta dela) para tirar as fotos que, provavelmente, não conseguiremos repetir.

 

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Avancemos então para a discrição da noite que seria passada no Forum Cultural de Idanha, na companhia da Isabel Silvestre, a do Grupo de Cantares de Manhouce. Isabel, tal como Amália, tem um dom: é a voz de Deus dedicada ao povo eleito, povo que são todos os homens de bem, os quais, certamente, Ele, onde quer que esteja – a acreditar que está em lado algum –, não descriminará por serem católicos, judeus, muçulmanos, budistas, ateus ou o mais que pelos quatro cantos do mundo se encontre. E não venham os poderosos e os ricos aproveitarem-se: Isabel não lhes pertence; Isabel não os celebra nos seus cantares.

Espectáculo atrasado, jantar perdido, pois em Idanha não há onde comer fora de horas. Culpa da Isabel, do Abel Moura e das acompanhantes que se demoraram pelo Helana. Amanhã será outro dia.

 

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Sábado ameaçava ser a única oportunidade de comprar artigos regionais no “Mercado de Natal”, em Idanha-a-Nova. Música e figuras típicas alusivas à época não conseguem esconder o eclipse desta forma popular de comprar e vender. Fique a intenção camarária. Fora, o primeiro madeiro detectado crepitava. Aqueçam-se os elementos femininos do subitamente alargado grupo.

 

À construção do castelo estão ligados o nosso primeiro rei, os Templários e o seu mestre, Gualdim Pais. Do amuralhado, que me pareceu aterrado no interior, tem-se uma fantástica vista. Diz quem sabe que dali se observa a Falha do Ponsul... Talvez para olhos treinados, pois, para leigos, o gigantesco degrau morfológico que se observa ao longo de 120 quilómetros, é indetectável, retiradas que sejam as observações empíricas do tipo “Não vês, ali?”, dedo apontado para uma qualquer parte do curso do rio em que uma das margens apresenta desigual nível. Para memória e cultura, aqui deixo a explicação técnica para o fenómeno:

 

A Falha do Ponsul é uma estrutura tectónica com mais de 300 milhões de anos, causada por um movimento de desligamento esquerdo resultante da mega colisão continental que deu origem ao super continente Pangea e à impressionante cordilheira montanhosa Varisca.

 

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Um madeiro está preparado para mais tarde ser consumido no largo da Igreja Matriz, dizem-nos as velhas enquanto tricotam uma qualquer renda sentadas ao sol protegidas pelo presépio onde Maria, José, vacas, burros e reis Magos se acotovelam num pequeno espaço coberto. Ali, ao lado, a altaneira torre do sino vigia inesperadas consequências do fogo.

 

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Próxima paragem: os fornos dos louceiros. São três “capuzes”, um deles em melhor estado do que os outros, permitindo ver como se cozia a louça em tempos passados. Estão situados no largo de uma zona habitada, servem de caixote do lixo de quem por ali passa e necessidade tem de atirar a beata do cigarro, a lata vazia de refrigerante ou o envelope rasgado do correio acabado de receber. Proponho ao município que encontre solução que lhes dê dignidade, e, já agora, uma placa identificativa pelo caminho a auxiliar o pobre viageiro.

 

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E foi por causa da busca que o visitante deu de caras com a capela de Jerónimo de Estridão, esse mesmo, o santo tradutor da Vulgata Latina. A capela encontra-se no interior da cerca do Convento de Santo António. És homem e em pó te hás-de tornar é a evocação que expressa a obrigatória descida da escadaria para ali aceder. O pequeno altar da capela mostra-nos o mártir antes de o ser, isto é, a imagem carrega alguns dos atributos que lhe são conhecidos enquanto simbolismo iconográfico: leão dormindo a seus pés, chapéu cardinalício e a maqueta de um templo na qualidade de Doutor da Igreja ( faltam, por exemplo, a caveira, a trombeta e a coruja). Ao lado, a tenda que, a cada biénio, alberga a Feira Raiana.

 

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Tempo de seguir para a outra Idanha, a Velha, antiga Egitânia visigótica, Civitas Igaeditanorum para os latinos, fundada em finais do século I a.C., muito provavelmente por Augusto, o conquistador do noroeste interior da Hispânia. Foi sede de bispado no século IV, estatuto que manteria posteriormente sob o domínio suevo e visigótico, ainda que com intermitências. Foi ocupada – naturalmente – pelos muçulmanos, reconquistada no século XII pelos cristãos, que, pela mão e a espada templária, lhe erigiram cerca amuralhada que de pouco lhe serviu, postas as alterações que já se faziam sentir na geografia política da Península Ibérica.

 

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Porém, antes de se perder na povoação, vai o viageiro ver a chamada ponte romana. Franze o nariz às primeiras observações: é mesmo da época romana?, questiona-se ao ver-lhe o traçado e os pilares onde os respectivos arcos se manifestam divididos entre o tipo quebrado e a de volta perfeita, muito provavelmente, resultante das várias reconstruções. Romana ou não, parece ser um dado adquirido que por ali se efectuaria a travessia do rio no medievo e mesmo antes, ponto de passagem da estrada que ligava Mérida (Emerita Augusta) a Braga (Bracara Augusta) por Cáceres e Viseu. O Ponsul vai baixo, permitindo o vau com umas simples galochas, o que facilita a recolha de invulgares imagens fotográficas tiradas de baixo para cima.

 

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Egitânia não possuía acrópole, todavia, há hoje a convicção da existência do forum – centro cívico e religioso –, face aos vestígios encontrados do podium do templo que nele se encontraria. É sobre este espaço que se ergueu a Torre dos Templários, da qual resta ainda um quadrado de paredes com alguns metros de altura abertas para o céu, poiso de muscíneas e talófitas, onde, certamente, Gualdim Pais e Jacques de Molay vão recolhendo os fragmentos e pedras soltas de que o tempo a despoja para a reconstruirem num local secreto só conhecido dos rosacrucianos.

 

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A chamada basílica visigótica é, na verdade, paleocristã, datando a sua fundação do século IV. É constituída por três naves, com o pormenor bizarro do nosso primeiro Manuel (chegámos mesmo a ter um segundo?), com aquela obsessão de ficar para a história, ter-lhe mandado alterar o sentido, que, originalmente, se estruturava de norte para sul, e, após decisão do Venturoso, passou a efectuar-se de poente para nascente. Imagine-se o que terá sido uma capela lateral passar a altar-mor, o transepto a virar enteado no meio da confusão que deve ter gerado entre os crentes. Teria o rei, certamente, especial fascínio pela chamada porta visigótica. Manias de quem deve ter possuído tal ego que não percebeu que tudo – o país incluído – lhe caiu nas mãos por obra de D. João II, esse sim, um Príncipe Perfeito.

 

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O acesso ao interior da mesma é possível sob acordo com o posto de turismo. Ali, a primeira impressão é de desconforto pela humidade, desolação das paredes e desarrumação, à qual só falta o diligente funcionário avançar com a conhecida frase das donas de casa negligentes: “Não notem, que tivemos de sair à pressa esta manhã”. No topo de um dos nichos, uma data surpreende: 1893, por cima dum conjunto de inscrições simbólicas de origem algo enigmática. Alguns frescos, ou restos deles, lembram intervenções posteriores datadas dos séculos IX, XIV e XVI. Outras, mais recentes, referem-se a blocos de degraus bem modernistas e chão que, segundo os interventores, é possível de levantar se acaso se pretender avançar com escavações arqueológicas, ali, no local que, no século XIX, perdeu a sua qualidade de Igreja Matriz para passar a servir de... cemitério.

 

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Nos anos que decorreram sensivelmente entre 1990 e 2005, a localidade foi alvo de um projecto de conservação e manutenção dos edifícios históricos. Recuperaram-se os torreões da Porta Norte, criando-se um passadiço ao longo das muralhas. Acrescentaram-se estruturas em ferro a imitar as torres que originalmente serviram de coroamento do amuralhado.

 

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Por último refira-se o aproveitamento de um antigo lagar de azeite – porventura, originalmente, uma casa manuelina – para não só recriar a estrutura daquele, mas também para instalação do posto de turismo e, em anexo, um museu epigráfico.

O visitante fica encantado com as peças ali arrumadas. Lá voltará por três vezes, como que a acorrer ao chamamento dos mortos, daqueles que da lei da morte se vão libertando. Os testemunhos dos vivos que mandaram gravar em pedra a memória dos que amaram, é, só por si, impressionante. Este viageiro tem a sua preferida. Trata-se duma estela funerária, e o panegírico provém dum morto-vivo. Quem, dentre nós, aceitaria a morte em tais circunstâncias com tamanha doçura?

 

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Ainda em jovem, e sem temer a triste morte, eu, Anceito, filho de Célcio, terminei a minha curta vida. Os meus despojos jazem aqui. Vós, minhas cinzas, descansai em paz!

 

Quiçá “óptimo” não tivesse a relevância adjectival contemporânea, todavia, não deixa de impressionar esta prova de amor:

 

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A Gaio Cúrio Firmano, filho de Pulo, da tribo Quirina, de 63 anos. Cúria Vital mandou fazer para o marido óptimo e para si.

 

De longe vem a capacidade do homem desempenhar vários cargos ao mesmo tempo. Observe-se o tributo numa das placas de pedestal para retrato funerário:

 

A Lúcio Márcio Avito, filho de Fusco, da tribo Quirina, prefeito dos artífices, prefeito da primeira coorte dos sagitários da Síria, tribuno militar da X legião Fretense, prefeito da cavalaria da primeira ala dos cidadãos romanos. Foi condecorado. Márcio Materno, cavaleiro da mesma ala, por mérito ao óptimo perfeito.

 

Num bloco arquitectónico moldurado de monumento funerário, cruzam-se as gerações:

 

Lúcio Coceio Lício, de 100 anos. Gaio Fúrio Lício, emeritense, de 60 anos. Gaio Fúrio Eutíquio, de 20 anos.

 

O viageiro fez um minuto de silêncio em honra de quem há muito partiu.

 

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Subitamente um homem precisa do ar não contaminado da monumentalidade que o envolve. Sai pela porta a sudoeste, passagem nem sempre ali disponível. Dirige-se ao rio, observa as poldras, e, de salto em salto, pula até à outra margem. Desafio “perigoso”conforme avisa a placa identificativa? Quanto dariam os “amigos” que deixei no museu para ali estarem, vivos como eu?

 

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Na hora de partir, o viageiro leva a dúvida consigo: a emblemática porta poente foi mesmo construída pelos visigodos? Era mesmo uma porta, ou somente um lavrado arquitectónico? E, em qualquer caso, assumindo que os germanos não lhe alteraram a orientação do culto, porque não construíram outro acesso idêntico, a nascente, que equilibrasse esteticamente o edifício? D. Manuel redefiniu somente um posicionamento ou mandou derrubar um conjunto de pedras e construir-lhe uma porta para saciar tanto narcisismo? E quanto à simbologia no vértice do triângulo: se a cruz poderá ter sido incluída em qualquer momento, posto romanos, suevos e visigodos, todos a seu tempo, terem passado a professar o cristianismo, já o escudo de Portugal carece da constituição física do reino. Quando foi ali colocado? (Nota: há um terceiro símbolo que me parece uma esfera armilar. A ser assim, as dúvidas tornam-se-lhe também extensivas).


(Continua)

21
Nov17

TRIPADVISOR - VANTAGENS E INCONVENIENTES

Eduardo Gomes

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Uma semana em viagem pelo Alentejo obriga a múltiplas refeições a quem tem por hábito fazê-las e prazer tomá-las. A comida regional é fantástica, uma festa para o paladar, ainda que, aos naturais, se recomende alguma moderação, algo que ao turista não causa incómodo por aí além, posto que a estadia nunca irá para além dos dez/quinze dias.

Embora não necessite de aconselhamento no que se refere aonde ir comer, gosto de analisar os comentários que pelo tripadvisor circulam, quer sobre as casas que entendo visitar, quer sobre potenciais opções, a pensar sobretudo em situações inesperadas (encerramento do estabelecimento/atraso na viagem em relação ao plano idealizado, por exemplo).

O site acima referido possui vantagens e inconvenientes. As primeiras dirigem-se sobretudo a quem não tem (tinha) referências locais. Quem são os novos clientes? Os portugueses que até ao advento do tripadvisor iam "comer qualquer coisa a qualquer lado"; os turistas europeus sem cultura gastronómica; os barulhentos e pedantes brasileiros brancos, ricos em busca de nouvelle cuisine numa tasca localizada no coração do Alentejo. Transversal a todos, o telemóvel e a falta de decoro no uso e respeito pelos demais clientes no interior do restaurante.

Os inconvenientes são mais do que muitos. Vamos a eles: atraem gente em excesso a restaurantes incapazes de servir os clientes com o mínimo de qualidade, sobretudo ao fim-de-semana; descaracterizam a gastronomia local, posto o tipo de exigências dos comensais indiferenciados (comida à medida); comentários tendenciosos ou desvalorizados pela manifesta falta de conhecimento e experiência da maioria dos agentes que os produzem. Na maior parte dos casos, as apreciações positivas excedem em muito a qualidade do restaurante; já as negativas prendem-se com aspectos secundários do serviço procurado, esquecendo que os motivos que nos levam a um restaurante são, pela ordem, a qualidade da comida e o profissionalismo do serviço. Ao cliente cabe toda a responsabilidade pela opção tomada em relação aos aspectos marginais: ambiente (se é selecto e formal, porque vai a uma casa onde impera o informalismo?); decoração (se pretende ver-se rodeado de glamour, porque vai a uma taberna?); existência de televisão (se não gosta de manifestações de regozijo pelos golos do Benfica, procure mesas afastadas do aparelho) condições das casas-de-banho (se não se adapta a tudo, escolha restaurantes de luxo); horário de atendimento (se tem crianças não as use como desculpa, seja responsável pela hora a que chega ao estabelecimento).

Da experiência que vou retendo nos contactos com os proprietários, proporia que o aconselhamento se fizesse em função das especialidades e tipo de confecção que o cliente pode esperar em cada local: se o comensal quer um bife, porque vai a uma catedral do cozido à alentejana? Se é uma pizza o que lhe excita o palato, porque entrar num estabelecimento em que o bacalhau é rei? (É batota falar em pizza de bacalhau). É claro que também aos hotéis cabe boa dose de responsabilidade: encaminham as pessoas olhando mais aos interesses próprios do que aos dos clientes, e (acredito que haja quem aconselhe desinteressadamente) se acaso não for assim, defendem-se com a proposta pelo estabelecimento com mais nome, esquecendo-se de fazer as pergunta óbvias: "Que gostaria de comer? Em que condições?"

O jornalista Paulo Salvador acabou de ganhar um prémio pelo programa "Mesa Nacional". Um equívoco. Conheço quase todos os lugares que o referido senhor aconselha; a muitos deixei de ir. São bons até ele aparecer por lá. As consequências da propaganda não se fazem esperar: as casas vêem-se em palpos de aranha para servir tanta procura; a qualidade do serviço cai a pique; os preços aumentam a níveis exorbitantes; as críticas entopem a caixa de reclamações; os clientes mais fiéis afastam-se. E tudo isto para vermos o Salvador apresentar e provar pratos que jamais estão disponíveis, ou, na melhor das opções, só se fazem ao fim-de-semana para grupos de dez, quinze ou mesmo vinte pessoas. Claro que os proprietarios dos restaurantes não estão isentos de culpa na situação: primeiro porque compram a ideia de promoção sem pensarem nos danos colaterais; depois porque, "garganeiros", querem enriquecer em pouco tempo (choca-me ver aquilo em que o proprietário d' O Bolas, na Azaruja, transformou uma mera tasca num recôndito lugar).

Uma última referência para os restaurantes por onde comi na semana passada:

 

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Restaurante Café Alentejo - Évora

Casa para comer o bacalhau gratinado (salvo se for um passarinho a comer, não aceite a proposta para que lhe sirvam uma dose para dois). Preço em conta;

 

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Tasca "O Carlos" - Estremoz

Comida bem feita e sem pretensões. Preço em conta;

 

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Casa de Petiscos "O Choupal" - Alandroal

Ementa alentejana. Ambiente popular. Barato;

 

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Venda Azul - Estremoz

O melhor da cidade. Sistematicamente inacessível sem reserva. Informalismo educado. Preço em conta;

 

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Adega do Cachete - S. Pedro do Corval

Vale pelas bochechas de porco. Serviço sem qualificações. Se por ali passar, entre; se tiver de se deslocar, não o justifica. Preço em conta;

 

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 O Espalha Brasas - Alcaraviça

Cozinheira de grande nível. Cabrito e Galinha são as especialidades. Comida a apresentar sinais de descaracterização... porque lho exigem os novos clientes. Se assim for, será lamentavel. Preço em conta.

 

Nota: É óbvio que vou manter secretos os lugares mais ou menos escondidos dos novos "Átilas" a que o tripadvisor ainda não teve acesso.

16
Abr17

ALCOA E BAÇA

Eduardo Gomes

Sábado, 8 de Abril de 2017.

 

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Um dia especial onde se cruzam comemorações várias. Algumas horas, poucas, ainda assim as suficientes para usufruirmos do dom da vida, não da mítica que nos deram, antes daquela que construímos e a que damos sentido.

Ir e vir no próprio dia, obriga a deslocação pensada. Alcobaça é o destino. Na mente, a certeza de que o tempo tem de ser bem gerido; na vontade, o desejo de parar nas Caldas da Rainha Leonor, mulher de D. João II, que, certamente, não esperaria tivesse tanto sucesso o mercado que se realiza umas poucas toesas acima do seu hospital termal.

Venceu a razão. O Mosteiro de Alcobaça, inicialmente gótico, aparece cada vez mais como elemento charneira da actividade comercial da cidade.

"Grande, maciço, saxónico na aparência e com seu tanto ou quanto de austero", assim foi classificado por um ilustre viajante estrangeiro há mais de duzentos anos. Hoje, por ali ciranda todo o tipo de gente, incluindo os sempre presentes asiáticos em busca de fotos.. de todo o lado... de todo o tipo.

Alguém se lembrou de construir um parque de estacionamento grátis a pouca distância, na zona a leste do monumento, o que facilita a vida de quem ali se desloca e calaceiro para andar não é. O centro histórico e a bolsa do visitante agradecem.

Antes de arribar ao destino, o viageiro fica suspenso por uma melodiosa voz que vem de local entre prédios, protegido por um arco. Acabada a récita do cantor, experimenta, quem tal dom não possui, a acústica: então não é que se podia confundir com Luciano Pavarotti ou Plácido Domingo? Estranho arco que, entre as praças da República e Afonso Henriques, tão grande milagre produz.

 

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Faz, neste dia, exactamente, 864 anos que o nosso primeiro rei firmou a carta de doacção do couto a Bernardo de Claraval.O viageiro posta-se, como já o fez muitas outras vezes, em frente ao mosteiro que, ao contrário da sua origem, é hoje bem pouco gótico. Dos primórdios restam-lhe a rosácea e o sublime portal da fachada; tudo o resto terá desaparecido por volta de 1531.O terreiro perdeu o verde de outrora, é hoje uma área fria e algo inóspita, não fora os carreiros de água com que o Alcoa celebra, como desde sempre o fez, a vida monasteiral.

Lá em cima, bem no alto, dois campanários barrocos e várias estátuas desafiam-nos a equacionar quando é que cistercienses aceitaram coisa tão pomposa. No transepto sul da igreja, encontra-se a porta dos mortos, assim chamada por ser aquela a última que cruzavam os monges antes de recolherem à morada definitiva ali bem em frente

 

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A igreja da Abadia de Santa Maria de Alcobaça é magnífica, tão sumptuosa quanto despojada de decoração ou imagens. A primeira impressão é espacial, tem-se  a ideia de que se caminha para cima, para o Céu, tal o realce do altar-mor. O visitante é automaticamente conduzido ao transepto onde se encontram, desde há algum tempo, face a face, os túmulos de Pedro e Inês. São magníficos e presunçosos, protestando iconografia ligada à História de Portugal e á Bíblia.

 

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Sarcófagos à parte, não percebo, nunca entendi, o mito que ao rei e à amante se associam. Há dezenas de casos semelhantes na História de Portugal. Investigue-se a fundo a questão, e encontraremos testemunhos do próprio Pedro que em tudo desmentem a versão oficial.

 

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E, já agora, como é possível que deixemos no eterno descanso no mosteiro de Sancti Spiritus de Toro a mulher mais vilipendiada de Portugal, e exultemos com uma galega que só trouxe problemas ao nosso país? 

 

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À volta do cruzeiro latino encontram-se nove capelas radiais que, globalmente, não clamam por atenções especiais. Contudo, a sacristia nova possui dois portais manuelinos, únicos por estas bandas, local policiado por uma imagem de Santo Isaías, sem que se entenda o porquê.

 

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No lado sul do transepto, junto da capela de S. Bernardo, encontram-se os túmulos dos Afonsos, II e III, a emoldurar uma cena da representação da morte do santo.

 

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Entre-se então na área de visita paga. A Sala dos Reis inspira nacionalismos mais ou menos pacóvios. Data do século XVIII, e, por tal, só possui as imagens dos monarcas até D. José. Seis pedestais permanecem vazios. Dirá o visitante que outros cinco ali faltam, pois, contando com o devaneio Miguel, e com os Pedro III e Fernando II, ambos reis consorte, são onze os titulares apeados. Quanto a Duarte, coitado, está sem cabeça. Logo ele que a tinha... e das boas.

 

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Numa das paredes, ao centro, impõe-se uma alegoria à coroação de Afonso Henriques pelo papa Alexandre III e S. Bernardo.

 

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É belo o claustro do Silêncio que envolve um conjunto de salões.

 

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Dentre aqueles destacam-se a Sala do Capítulo, espécie de parlamento do convento, local destinado a servir às reuniões onde temas importantes da comunidade se discutiam.

 

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A área dedicada à cozinha nova é, desde há muito, glosada pelos visitantes que se entretêm a calcular o número de reses que ali se podiam assar ao mesmo tempo, esquecendo a razão para a sua construção em detrimento da cozinha velha. Por ali estiveram, em tempos, os caldeirões com que se havia feito a comida no arreal de D. Juan I, em Aljubarrota. Apresentados dois séculos mais tarde a Filipe II, parece que o castelhano não lhes achou graça por aí além.

 

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O refeitório é alvo de imensas fotografias: pelo púlpito, onde um monge ia citando passagens bíblicas enquanto todos os outros se alimentavam; pela estreita porta, por onde, diz-se, passavam refeições aos pobre de fora do mosteiro. Abra-se aqui um parêntesis para afirmar que os monges tinham por hábito distribuir junto à portaria do mosteiro, aos pobres dos arredores, um pão de milho a que chamavam micha, ao qual acrescentavam a carne ou peixe que sobravam de cada refeição. Em cada quinta-feira santa, abriam a abadia aos mendigos, que, na ocasião, muito viam melhorada a sua ração diária.

E por falar em banquetes, reza a história que em 1794, a convite do cornudo regente João VI,  ali foi recebido com pompa e circunstância lorde William Beckford, romancista, crítico de arte, escritor de viagens e político. À porta, cerca de três centenas de monges, noviços e respectivos fâmulos o esperavam; na cozinha, uma panóplia de carne de veado, fruta, hortaliça e peixe de rio como nunca se vira. Horas mais tarde, e grande variedade de pratos exóticos que o inglês jamais cheirara em sua vida, lançaram-se as danças, minuetes ao som de clarinete e guitarra. Enfadonhos, assim os classificou Beckford, frustrado por não assistir a um bom fandango, bolero ou mesmo da libertina fofa, de quem se dizia confesso admirador. Quando foram servidos os doces e as frutas, diz quem viu, que o inglês, mandou sonoros beijinhos ao chefe da cozinha, um frade bem latagão.

 

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A subida até ao dormitório demonstra área generosa: cerca de 1300 metros quadrados. Diz-se que os monges se acomodavam por ali completamente vestidos, algo de que só admitiam prescindir quando precisavam de se deslocarem às latrinas no lado norte, altura em que exporiam o pirilau ao frio para resolverem necessidades biológicas.

 

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No lado oposto, isto é, a sul, há hoje uma vidraça que permite observar o transepto, a qual veio substituir as escadas que àquele conduziam quando os monges, marsápio na mão, se punham a imaginar cenas proibidas, e, por tal, precisassem de rapidamente chegar ao local de oração para exorcizarem tanta tentação da carne.

 

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Feita a escalada até ao dormitório, nada impede que se desfrute do clastro do Cardeal, a lembrar a figura grotesca e inquisidora do último Avis. Não há acesso àquele. O visitante que se fique pelas fotografias tiradas de cima.

O viageiro deixa em aberto outras descobertas. É que, inexplicavelmente, a abadia não possui casas de banho. À atenção  dos responsáveis pela unidade.

 

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Ia para lá do meio o dia, hora ideal para almoçar a quem deseja evitar os atropelos da uma da tarde. Em Alcobaça come-se no restaurante da pensão Corações Unidos, a antiga tasca José dos Corações, homem casado, nos primórdios do estabelecimento, com a afamada cozinheira Dª Joaquina Vieira. Conta-se que teve origem na arte do cozinheiro António de Sousa o famoso frango na púcara, que a tradição e este viageiro afirmam não haver melhor por muitas léguas em redor.

 

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O comensal vai ali, como já deixou subentender fazê-lo em relação a muitos outras catedrais gastronómicas, para um ror de anos. O serviço é atencioso e rápido. Se hoje nos pede 8 euros pela especialidade, há trinta e dois anos exigia 900 escudos, conforme reza a crónica do jornal A Capital, plasmada no quadro de honra do estabelecimento.

Já se não vêem por lá "os praças velhos" de antanho, substituídos por atenciosas moças. A Cândida chega-se à mesa e pergunta o que desejam "os jovens". Empertigo-me em dia de aniversário, brinco e elogio-a pelo bom humor. Responde que a juventude está na cabeça. Obrigado, querida.

 

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O plano da viagem previa a ida ao castelo, donde nos ameaçava uma extraordinária panorâmica sobre o mosteiro, da mesma forma que de cá de baixo já se haviam avistado as ruínas do que resta do monumento. Nada mais havendo a assinalar, fiquem as melhores fotos sobre a cidade.

-- Disseste que íamos a Cós. Sabes como lá chegar?

Mais ou menos, responde o viageiro, que recusa modernidades do tipo Global Positioning Systems, "gosta de pensar", diz, possuindo a noção geográfica do destino se situar para norte, algures para lá de Maiorga. Consulte-se a loja de artesanato situada junto ao mosteiro. Que sim, que até é de lá, responde uma velha, que de tão lenta nas explicações, exaspera um santo. Pega num pequeno pedaço de papel e começa lentamente a desenhar: estamos aqui, ponto; logo ali tem uma rotunda, novo ponto; a seguir cruza uma estrada que... Gaita, acabou-se a tira de papel; venha um novo pedaço, refaça-se o trajecto... Não tem GPS?, questiona o óbvio. Entram as netas da idosa, franzem a testa, sorriem ante a paciência da Tânia para lhes aturar a avó. Ufa! chega, já percebi. Adeusinho!

 

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Volta o viageiro ao carro que deixara estacionado pela manhã. Caminho fora, o Alcoa, bravio e forte e o belo palacete das Irmãs de São José de Cluny, dizem as más-línguas que construído com pedra roubada.

 

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A rua que ladeia o monumento pelo leste foi rebaixada, o que provoca situações caricatas, como aquela em que uma propriedade se encontra para venda. Posto que o acesso esteja dificultado por alto se encontrar o patim do edifício, a agência imobliária pede aos potenciais clientes que se munam de escada ou escadote se o querem visitar. Este viageiro, que em tempos não muito longínquos, possuíu uma agência imobiliária no Estoril, imagina o que diriam as cascaenses de nariz empertigado -- aparência burguesa, pelintrice na carteira -- ao serem colocadas perante tal requisito. 

 

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Cós, Coz ou Cóz serve-se à vontade do visitante pelas placas afora, numas assim, noutras assado. Deixemos, não discutamos.

O Mosteiro de Santa Maria de Coz -- náo é a minha versão preferida, antes a do folheto a que tive acesso -- não cativa à primeira vista, tal o estado das ruínas que surgem na beira da estrada. Este viageiro não se importa, quer-lhe saber a história, ou melhor, os factos, as discussões, as estórias. 

À chegada apresenta-se-lhe o Eurico Cavalho, cinquentão ou mais qualquer coisa, desempregado, responsável pelas visitas guiadas que proporciona sem custos. Aproveite-se, pois. A fundação do convento datará da primeira metade do século XIII, quando por ali terão aparecido merceeiras e lavadeiras ao serviço da abadia de Alcobaça. Viúvas devotas, partiram do princípio de que o hábito faz o monge, acabando por dar forma a uma comunidade de religiosas cistercienses, cuja função se relacionava com o apoio aos frades da abadia. Atribui-se a D. Fernando, abade de Alcobaça por aquela altura, a intercessão a favor da criação dum espaço para as mulheres.

Mais tarde, em 1530, o mosteiro de Santa Maria de Coz foi reconhecido pela Ordem de Cister e elevado a abadia regular. Rapidamente se transformaria num dos mais poderosos mosteiros femininos da ordem em Portugal. Diz-se que foram mulheres piedosas, fidalgas abastadas que para ali levaram dote e serviçais, as responsáveis pelo esplendor artístico barroco testemunhado pela riqueza da igreja.

Não vai o visitante deter-se em tudo o que viu. No exterior do monumento, para onde davam os dormitórios, salienta as imagens de S. Bento e S. Bernardo, este sem cabeça, arrancada a tiro, conforme demonstram os buracos em redor do nicho onde se encontra a estatueta. À questão sobre a torre, o homem acaba a confirmar que sim, que por possuir dois mirantes, serviria de vigia, e que, muito provavelmente, já existiria antes da construção do mosteiro.

 

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A igreja, erguida entre 1669 e 1671, único espaço preservado do antigo cenóbio, é magnífica, possui decoração barroca, e apresenta-se articulada com a capela-mor e o coro das monjas, do qual se separa visualmente por um grande arco totalmente preenchido por grade, e encimado por passadiço com balaustrada alta. Um senão: o frio que já se tinha notado em Alcobaça, apesar de estarem para cima de 25 graus lá fora; e a humidade que, aqui, parece consumir os ossos de um homem: pobres monjas.

 

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Tudo vasculha o visitante: o portal manuelino do coro, recolocado no extremo nascente conforme intervenção ocorrida entre 1519-27 da autoria de João de Castilho; o cadeiral  e o órgão setecentistas que ali estiveram e já não estão; os confessionários aos pares e com dupla face para leigos e monjas; os 80 caixotões de madeira pintados no tecto, datados de 1718 / 1720, restaurados há cerca de quarenta anos; a alusão aos frutos da terra na decoração das capelas; os quadros de Josefa de Óbidos; os painéis de azulejos por cima do cadeiral e na sacristia; os belos altares da igreja em talha dourada; a harmonia estética de muitos elementos se encontrarem aos pares.

No final a curiosidade do sistema de eleição da abadessa: favas brancas e negras. Quem recebesse as negras... ia à fava. As últimas monjas abandonaram o edifício em 1843, indo viver para Lisboa, diz o Eurico. Informação acessória recolhida pelo viageiro está em oposição com aquela, pois afirma terem sido as residentes dali desalojadas pela destruição causada pelo terramoto de 1755.

O mosteiro e o espaço ficaram sujeitos ao saque após a extinção das ordens religiosas, em 1834. Adquirido recentemente pela Câmara Municipal, tem na cobertura do tecto a preocupação imediata das autoridades, tal o estado de degradação do monumento.

 

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O dia aproxima-se do fim, tempo ainda para dar um pulinho à capela de Santa Rita. Leva o viageiro no bolso o relato na Memória do Padre João de São Paio de Freitas, datado de 20 de maio de 1758:

Tem mais esta Vila e Freguesia a Ermida do Bom Jesus do Calvário, sita defronte da mesma Vila e do Mosteiro dela para a parte do Norte, em um Monte tão alto e vistoso, que dele se descobre o Mar, e muitas légua de terra, para a parte do Sul, Nascente e Poente.

Olha em volta quem busca: nada mais para além de montes. Deficiência do viageiro, certamente.

De acordo com tradição múltiplas vezes repetida, a construção da capela é atribuída à teimosia duma cruz que, apesar de carreada por membro humano para o mosteiro situado 600 metros abaixo, logo tinha na mão de Deus o instrumento para àquele lugar voltar. Ali ficaria a cruz e a capela a atestar-lhe a teima.

Hora de voltar para casa. Para o ano há mais, se...

16
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE QUINTA

Eduardo Gomes

 

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A celebração da noite de consoada começa no próprio quarto da pousada. Compõem-na pão, enchidos, queijos, doces de ovos e vinho maduro e doce, ambos alentejanos, dos bons. A missa do galo em Cabeça clamava pelo viageiro que queria assistir a algo típico. A expectativa de quem tão grande distância se aprestava a percorrer a hora tão tardia, passava por ver uma aldeia cheia de vida, comércio a funcionar, devoção religiosa e madeiro a arder.

 

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O visitante queda perplexo à chegada: não se sentia vivalma, arrumava-se o carro quase dentro da igreja. Um madeiro envergonhado ardia dum lado para logo se apagar do outro; gente, só à lupa, não mais duma escassa dezena de habitantes locais cirandando à volta do calor frouxo e tímido; comércio nem vê-lo; a missa, em banho-maria, aguardando pelo atardado padre.

 

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A mulher quer ir assistir ao culto: vá! O viageiro ainda se atreveu a entrar quando viu que a igreja se parecia vir a compor. Dentro, tosse e catarro ameaçavam o contágio. Volte um homem ao exterior, aqui e ali mete ou metem conversa com ele os relapsos à missa, ora em volta do madeiro: que "arder, já não arde; as vimes foram-se", explica quem parece saber da poda. Faz frio, o homem volta a meter o nariz no lado de dentro da igreja. Hora da homilia. O cura demonstra tantas dificuldades de dicção quão frágil e descabida é a sua mensagem: apela aos novos (onde estariam, que não se vêem?) que ajudem e auxiliem os idosos (sob pena de excomunhão); exalta a família que há muito deixou de existir. Gostaria este intruso de escutar abordagem mais lúcida, virada para a realidade de hoje, mais de acordo com os novos hábitos de vivência em sociedade, com os novos núcleos de afectividade. Debalde: o pároco é um tosco; as cerimónias em Cabeça uma fraude. Vamos embora!

 

Volte-se à pousada.

O jantar na noite de Natal era oferecido a 35 euros / pessoa, bebidas não incluídas Condição prévia: terminar obrigatoriamente às 21H30. As reacções não se fizeram esperar, tão pertinentes quanto o direito dos empregados em irem para suas casas partilharem a noite com as respectivas famílias. O hotel avançou com uma suposta compensação a quem pretendesse prolongar a festa: uma ceia estaria montada e disponível para usufruto noite fora, grátis. O viageiro chegou de Cabeça acabaria de nascer o menino, se acaso houvesse nascido no preciso dia 25, e Maria fosse pontual a dar à luz. O que se afirmara farto e lauto, estava muito longe de o ser: restos de frango, de lombo assado, de doces: sobras do jantar pago a peso de ouro, tudo frio, coisa pouco aceitável num hotel, cujos recursos, certamente, envolvem uma simples lamparina para aquecimento dos pratos ou travessas. Como se não chegasse, eis que o acompanhamento se faria a água... em noite de Natal. Seria investimento para além do recomendável colocar duas ou três garrafas de vinho do Dão? Valeu ao viageiro ser homem prevenido e, por tal, rapidamente uma garrafa de Monte Velho e outra de Porto apareceram a satisfazer as papilas gustativas. O Pum!, efeito provocatório do saca-rolhas e da raposice do viageiro, logo provocaram o espanto e a inveja nos demais hóspedes, tão circunspectos e fechados na sua concha familiar, que nem as boas-noites dão à chegada ou à partida: espírito de Nata, entenda-se. E assim se resolveu o intrincado dilema do que comer e beber em noite de consoada.

 

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O dia de Natal fora atempadamente planeado. O restaurante o Pascoal, no Fajão, aldeia de xisto, oferecia chanfana já conhecida do viageiro.

 

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O passeio é agradável, embora cansativa a condução. A igreja, o madeiro, um presépio donde o Menino havia fugido, lembram ao visitante a época que se atravessa.

 

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A especialidade da casa estava aquém do esperado, e disso ficou conhecedor o dono, que se desculpou com a especificidade do dia. A ver vamos, que ali voltará certamente o viageiro.

 

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Tempo de falar da pousada. As instalações estão longe de se apresentarem degradadas como em muitos outros casos. Tanto quanto soube, as melhorias receberam fundos de apoio da União Europeia, o que parece condicionar futuras decisões, posto que o contrato entre o grupo Pestana e o proprietário, a Fundação Bissaya Barreto, caduca em Julho próximo. Mas antes, falemos do presente. Trata-se de uma unidade hoteleira banal, instalada num convento de localização pouco interessante. A directora procura cativar os hóspedes a que usufruam do espaço que pouco tem para oferecer. Não existe uma piscina interior ou mesmo pequeno ginásio que seja, e até a sala de estar se mostra exígua, não possuindo mais do que duas mesas. Imagine-se que os 25 quartos estejam ocupados e facilmente se compreende a falta de conforto da unidade. Refira-se que me pareceu problema de fácil resolução, posta a existência de duas salas de jantar das quais não lhe visualizo a utilidade. O mobiliário dos quartos faz lembrar a segunda casa de muitas famílias: leva-se para lá o que não se quer na primeira. Não há harmonia; não há uma secretária onde se possa escrever ainda que no próprio computador E internet só junto do lobby.

Existe ainda um salão de eventos, cuja utilidade é bastante duvidosa, posto o reduzido número de quartos não permitir albergar grandes comitivas. Acresce a área de jogos em local tão húmido que de pouco serve.

 

 

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A igreja do convento possui acesso parcial aos coros alto e baixo a partir do interior. Por estar a zona na mais completa obscuridade, é necessário pedir que nos acendam as luzes. Não devia o espaço estar iluminado em permanência? Consumia electricidade, sem dúvida, porém, é uma das partes mais interessantes da pousada... local que, estranhamente ou talvez não, ninguém visita.

 

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O melhor da pousada são os empregados, ainda assim com critérios algo diferenciados em função dos hóspedes, alguns deles habituais, cuja relação chega mesmo à oferta de presentes de Natal, conforme o viageiro pôde observar e com os quais, “compram” tratamento especial. Nada tem este hóspede contra eventuais empatias adquiridas ao longo de meia-dúzia de noites ali passadas. Porém, quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele: se as ofertas fossem deixadas a seu recato na recepção, ninguém se teria apercebido de tal; se a subserviência dos empregados fosse discreta, ainda menos. A família em causa era constituída pela D. Micas, o sr. Dr. o menino Justino de catorze anos, e a infantil Quica, um ano mais nova e presunções de mulher no modo de vestir. Assim que ao hotel chegou, o clã tomou a posse simbólica do edifício. A pobre da Catarina, atenciosa recepcionista, logo se transformou em burra de carga da menina que, telemóvel na destra e trolley na canhota, liderava rumo aos quartos, qual general indicando o caminho para a vitória. O mano, todo ele dado a titilamentos, enfiava os phones e brincava com o Ypad. O perliquitetes papá falava que se desunhava ao pequeno almoço, ante o movimento esvoaçante do responsável de mesas, que fixava o interlocutor como se de Deus se tratasse. A D. Micas era a responsável pela ocupação do alcácer do castelo, área ali denominada pomposamente de “sala de estar”. Como o espaço ficasse estrategicamente situado em frente à lareira, e só possuísse uma mesa e três sofás dignos desse nome, o território foi oficialmente considerado anexado. Manhã cedo cada um dos membros da família ocupava o seu assento, procurando que, mesmo em caso de ausência, a desarrumação e os objectos pessoais deixados por mesa e sofás insinuasse que estava ocupado. Coisa rara de acontecer, diga-se, pois aquelas alminhas tomavam o pequeno-almoço... na pousada; almoçavam... na pousada; faziam reforços de vitualhas pela tarde... na pousada; jantavam... na pousada; não saíam... da pousada; monopolizavam a televisão... da pousada com canais de desenhos animados ouvidos em altos berros; e nenhum dos empregados se comovia dos outros educados hóspedes que tudo penaram... na pousada.

Principais conclusões:

1- Estive em Cabeça a 23 e 24 de Dezembro. Não consigo confirmar o que tanto se apregoa acerca da Aldeia Natal;

2- Cear num qualquer estabelecimento na noite de consoada, custa uma fortuna. O espírito natalício não existe, trata-se, simplesmente, de negócio.

 

FIM

 

 

11
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE QUARTA

Eduardo Gomes

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Quem parte do meio e a dois pontos que se situam em polos opostos pretende ir, forçosamente regressa ao lugar de partida. Lourosa era a nova etapa que obrigava a recruzar, no sentido inverso, Vila Pouca da Beira. A igreja moçárabe da antiga sede concelhia é extraordinária. A vista extasia à chegada ao adro, local onde o visitante estaciona o carro em lugar de conveniência, que só depois repara estar destinado ao pároco. Em dois tempos se viu rodeado de um par de idosos, cada um de seu sexo, discutindo entre si. “Padre possessivo, que nem na ausência deixa que lhe tomem o lugar, ainda que por breves minutos”, pensou o viageiro, enquanto a querela entre os anciãos terminava com a desistência do homem. “Agora é que não percebo nada. É a mulher a guardadora do espaço? Tiro ou não o carro daqui?”, questionou-se o intruso. A senhora Maria – se assim não for, por tal fica baptizada – avançou decidida:

– Quer visitar?

Certamente! Não fora assim e que faria ali o curioso, perplexo a observar a traça exterior do edifício?

– Se quer, venha daí. Entre por aquela porta – diz a velha, dedo espetado, como que a ordenar.

 

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Logo à entrada surge a arcaria monumental, separadora das três naves de que se compõe o templo, em forma de ferradura mourisca, beleza incomum:

 

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– Foi certamente construída sobre uma mesquita árabe ou mesmo templo visigodo – diz o visitante.

– Antiga, senhor! A mais antiga onde alguma vez se proclamou o culto da palavra. Já aqui se celebrava ofício divino antes de ser igreja.

O viageiro não percebe a abrangência da expressão. Tem a certeza que aquela não é a mais antiga igreja em território português, e, por tal, duvida da atribuição da primazia de culto que a anciã salienta. Adiante.

 

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A mulher estuda o homem, observa para onde dirige os interesses: primeiro uma pietá, mais logo, Nossa Senhora Medieval, falsa Senhora do Ó, pois, aparenta gravidez sem o estar de facto (dizem os peritos). Estava dado o mote que a guia tanto esperava:

 

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– Está a ver a imagem? Pois olhe que é a mais valiosa de todas as que aqui dentro estão. O Leitão de Barros queria-a levar um dia que veio por aí. Não deixei e não deixo, que para roubar já cá houve muito quem se aproveitasse.

Um homem vai para responder, porém a mulher não tenciona ouvi-lo:

Saiba o senhor que estive a trabalhar coisa de vinte anos em Lisboa... Olhe, em casa do Dr. Roque Gameiro... Conhece?

– A família do pintor? – retorquiu o ouvidor.

– Pois sim... quero dizer, até à tragédia – olha de soslaio para medir reacções – … depois vim-me embora.

Instala-se o silêncio por alguns segundos, o visitante não foi ali para mexericar em vida alheia. A idosa ganha novas forças:

– Quando voltei, ih, Jesus!, o que por aí ia de descaminho. Então não é que haviam roubado a Cruz Processional? Recuperada a alfaia, fui à diocese e consegui ficar com as chaves da igreja.

 

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– Perturbante este espaço, contudo, belo é o presépio – exclama o visitante a um canto que uma porta encerra.

– É, sim senhor, pertencente à igreja original! E olhe que aí onde bota os pés, estiveram o Cerejeira e o Tomás. Quiseram visitar a igreja, e fui eu mais o senhor bispo quem os recebemos.

 

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Chegara o tempo de passar ao exterior a observar a arquitectura. A senhora Maria segue-me:

– Olhe que a torre era bem maior. Para lá chegar acima, possuía uma escada em caracol. Está a achar estranho? – questiona mais para introduzir o próximo esclarecimento do que para ouvir opinião externa. – Foi trasladada, que aqui não estava originalmente.

 

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– E mais além, naquela laje que, por vedada estar, me parecem sepulturas antropomórficas?

– isso não lhe sei explicar, mas é muito antigo, coisas de mortos.

– E o projectado museu de Lourosa?-- equaciona o viageiro.

– O senhor acredita nisso? Olhe que eu cá, não. Levam tudo para Coimbra, lanças, imagens de santos, azulejos. E até o púlpito que por aí existia levaram para a casa paroquial.

Faltava a investida final:

– O senhor quer comprar uns calendários. São a três euros. E olhe, tenho ali umas fotocópias sobre a igreja. Dois euros e cinquenta cada uma.

O viageiro não precisa nem duns nem doutros. Dá-lhe um euro que a mulher logo enfia no bolso da bata.

 

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Deixe-se agora o que mais importante há a assinalar com referência à Igreja Moçárabe de S. Pedro de Lourosa. O templo, cuja forma basilical nos remete de imediato para a arte visigótica, possui datação romana visível numa pedra: DCCCCL. A reconversão da era de César para a Cristã atribui-lhe o ano da fundação: 912. A senhora Maria labora em vários erros. A igreja não é “romana”, é de arquitectura “pré-românica”, estilo seguido em plena Reconquista, sobretudo no norte da Península, compromisso de transicção até ao aparecimento do “românico” de origem francesa.

 

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O carácter “moçárabe” resulta da inclusão num templo cristão de elementos árabes como as janelas em ajimez e a salientada arcaria. É consistente pensar-se que a igreja possa haver sido construída por cristãos a viverem em território mourisco, num tempo em que a fronteira oscilava que nem ioió, para norte e para sul. Pelo menos, até Fernando I, o Magno, bisavô de Afonso Henriques, ter conquistado definitivamente o território aos sarracenos.

 

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A localização da torre teve a ver com um campanário que lhe havia sido acrescentado no medievo, e, já no século passado, entendida como boa a sua trasladação para as traseiras da igreja por questões visuais. É salientada a existência em tempos de uma iconostase, retábulos em talha, altar-mor em estilo rococó e coro sobre a porta de entrada, actualmente o chamado nártex, os últimos daqueles removidos pelo projecto de restauro datado de 1930/31. Embora nunca sejam pacíficos os planos de recuperação de tão importantes monumentos, parece haver sido intenção dos responsáveis retirar-lhe tudo o que acrescentado fora sem critério ao longo dos séculos. Daí parte das reclamações da senhora Maria.

 

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O cemitério acima assinalado é de origem visigótica, cujas sepulturas se encontram escavadas em laje de xisto no exterior do edifício, sendo crível aceitar-se que as diversas ampliações que o templo foi alvo possam ter coberto importante área daquelas.

 

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Um homem ainda passa pelo belo chalet onde, em tempos, funcionou a câmara municipal, para, logo após, abalar.

 

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A hora do almoço exigia a deslocação a Oliveira do Hospital, posto já se estarem a sentir os efeitos da “greve” dos empresários da “restauração”, vocábulo que, apesar de muito usado, me deixa enormes dúvidas sobre a sua correcção. Avancemos. O eleito foi o restaurante O Túnel, cujo bacalhau é mau de mais para merecer sequer a referência que aqui faço. Preocupado, o viageiro começa a bater a todas as portas no sentido de se precaver com a refeição da noite. Não que aspirasse por uma qualquer consoada à beira de lareira oferecida, que sentimentos de partilha assim já não existem num povo que se tornou egoísta, manipulado por miseráveis líderes. Um “jantarito”... tão-só... coisa para não passar fome. Que não senhor, tal era impossível; que voltasse na próxima semana, pela reabertura. Obrigado, mas não.

 

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Contudo, o dia ainda não acabara. Dá-se o viageiro a buscas pelo que de importante há na cidade. Vai pela Igreja Matriz, tendo por objectivo a gótica capela dos Ferreiros, construção da primeira metade do século XIV, que àquela está anexa, na fachada norte. Ali estão sepultados, túmulos em granito, Domingos e Domingas, Joanes, ele, Sabachais, ela. O sepulcro está gradeado, torça-se quem quer fotografar. O bom gosto é óbvio, o investimento também. A ganhar deve ter ficado o aragonês Mestre Pego, escultor ao serviço de gente abastada.

 

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Ao fundo, tão latâneo que mal o distingue quem arrisca um torcicolo, um alto relevo com cinco imagens encimado pela Virgem e o Menino. Mais ao lado, em pedestal próprio, o proprietário mandou que se esculpisse uma imagem sua a cavalo.

 

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Alguns, escassos, quilómetros decorridos e eis que o viageiro chega às ruínas romanas da Bobadela. O fórum, hoje no centro da localidade, era uma grande praça rodeada de pórticos e edifícios públicos, lugar para onde confluíam as duas vias da civitas splendidissima. O ex-libris do local continua a ser o arco de cerca de quatro metros de altura.

 

 

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O Anfiteatro frustra quem ali se desloca em busca de imagináveis feras em suculentas refeições ou gladiadores em combates mortíferos. Pequeno, sem galerias subterrâneas, deve ter sido usado para festas de carácter popular e religioso.

 

 (Continua)

 

06
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE TERCEIRA

Eduardo Gomes

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O dia 23 começa envolto em azáfama. É que a dona do Sweet Garden Apartment possui uma visão deslocada de direitos e deveres. Se à chegada me obrigou a esperar pelas três e cinco, apesar de saber que ainda não haviam batido as treze e já à porta estacionara, à partida exige o apartamento antes das onze. Manias. Está nervosa a senhora, que não teve a gentileza de se dar a conhecer. Envia mensagem atrás de mensagem pelo telemóvel: quer saber a minha opinião. Não lha dou de borla. Fique a sabê-la por aqui, se quiser. O espaço fica algo afastado do centro de Aveiro, o que, se pessoalmente, não me incomoda por aí além, percebe-se, pelas reacções dos internautas, que não corresponde às expectativas. Porém, o pior, é que a zona está toda dedicada a aluguer para turista. O rés-do-chão e as paredes de “papel” em nada ajudam ao sono reparador. Há gente pela rua em amena e menos amena cavaqueira até ás tantas, e, não nos esqueçamos, estamos em Dezembro. Imagine-se o que sucederá nos meses de Verão.

Como uma desgraça nunca vem só, pretendeu o viageiro despedir-se de Aveiro, levando nos alporches uns ovos moles. Vai um homem de abalada até à famosa confeitaria Peixinho. Não têm, não lhes apetece vender, está a produção toda reservada. Para quem?, pergunta o visitante. Para os aveirenses!, responde a proprietária. Vire-se costas sem entender uma coisa: mas esta gente vive, durante todo o ano, de quem, exactamente? Valha ao viageiro que há concorrência. De muito lhe valeriam os saborosos doces que adquiriu na confeitaria e pastelaria Ramos.

 

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As viagens consomem tempo. Ir de Aveiro ao Folgozinho, algures no sopé da serra da Estrela, é cansativo, não fora... ir com o objectivo de comer no Albertino, "o melhor restaurante" de Portugal.

Ao contrário de outras ocasiões, o Pedro não está. Em compensação, conheça-se o pai, o senhor que deu a conhecer ao mundo a aldeia. Fica um homem a saber as condições em que o espaço foi adquirido, quanto custou e como foi pago, histórias interessantes, ainda assim. 

A almoçarada está impregnada do erro perpetrado pela TVI, a qual, na ânsia, de proporcionar a descoberta das cafuas onde se escondem ignoradas casas de pasto, leva as pessoas ao engano. " Que não, senhor! Não se fazem essas coisas que passaram na televisão. Só por encomenda... e, ainda assim..."

Valha-nos isso. Detesto ver restaurantes desgraçarem-se com a exposição que as televisões lhes dão. O repórter Paulo Salvador é useiro e vezeiro no descaminho que provoca. Não faz muito tempo, fui, a conselho daquele, à Adega Nunes, ali bem perto de Messines. Paguei borrego requentado por cabrito no forno. Adiante.

Para que se entenda a diferença entre o Albertino e os demais, diga-se que não me agradou o leitão, um dos cinco pratos que fazem parte da ementa que se degusta por dezasseis euros, tudo incluído. Reclamação feita, toma lá com nova dose a fumegar, e, a oferta extra de vitelinha acabada de chegar do matadouro. 

É assim que se cativam os clientes. Acrescente-se que frequento o Albertino há tantos anos quantos os que da sua existência se conhece: trinta. Pagava, na altura, mil escudos por pessoa.

A refeição arrastou-se até meio da tarde, posto que, este viageiro, homem prevenido, decidiu comprar pão, queijo e feijoca. A última chegará ao Estoril; os dois primeiros, nem por isso.

 

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Era chegada a hora de rumar ao local que tão longa viagem justificara: Cabeça, a já referida "Aldeia Natal".

À chegada, enorme contratempo: havia obras que impediam que os carros se acercassem da aldeia. Caminhe-se, pois, por entre tubos, lama e tractores. Isto, na véspera da consoada. Lindo serviço.

 

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A aldeia estava engalanada, contudo, não se via vivalma: "Talvez mais logo; talvez amanhã". Pois, talvez.

 

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Com a esperança na alma -- onde quer que ela se situe --, abala o viageiro para a pousada convento de Vila Pouca da Beira, local onde pernoitaria até dia 26.

A primeira impressão é a de faltar pessoal, algo que o futuro confirmaria. É a própria gerente quem me recebe, quem me fala do local, dos espaços que só no Verão são possiveis desfrutar, das condições para ali passar a consoada. À medida que a senhora avança, vou torcendo o nariz. Nada daquilo me agradava, visualizando desde logo que iria passar fome ou pagar uma fortuna para jantar no dia 24. O pão e o queijo trazidos no bornal, mais as vitualhas previamente seleccionadas à saída de Lisboa, começavam a tornar-se atractivas. Porém, não deixo que me estraguem uma viagem.

 

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Estão seis graus às dez horas da manhã do dia 24. Faz um frio de rachar, todavia, o espectacular céu deste Inverno teima em nos convidar a sair, a dar uma volta. Não lhe façamos a desfeita e avancemos até Avô, distância que se cumprirá em menos de dez minutos, não fora a paragem no miradouro onde poetas locais mais ou menos amadores, que não meros anónimos, se celebram em versos carregados de rima, porém de qualidade tosca. A partir do alto rapidamente nos apercebemos ser a vila abençoada pelo rio Alva, que lhe proporciona arquitectura própria deste tipo de localidades: pontes várias com arcaria diferenciada, represas, suaves cascatas e até um pequeno ilhéu a que chamam de Picoto.

 

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Um relance da vista atrai-nos: a fachada da porta do castelo envergonhada por detrás do casario. Algumas pedras à direita e à esquerda do portal parecem querer confirmar que ali existiu amuralhado defensivo da passagem entre margens do rio, pois não descortina o viageiro outra utilidade a uma construção que nem a localização altaneira mereceu dos seus construtores.

 

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Quem viaja gosta de aprender: o que está escrito e o que não está, o que depende do dizer de quem sabe. Umas vezes tem sorte o viageiro e encontra quem o ensine; outras, não. Avô está silenciosa, quiçá os habitantes andem atarefados com a consoada, ou de seu ser não estejam para muitas falas, contudo, há uma fonte que canta; fá-lo baixinho, um rugido quase imperceptível, como que para seduzir quem os lábios lhe oferecer. Está triste, a fonte cantante: debruço-me e ouço-lhe os lamentos; que ninguém a procura durante esta quadra; que o consumismo substitui a água por whiskey. E acaba a chorar no meu ombro, que a não consigo consolar: se uma fonte não dá de beber a quem passa, de que serve? Condescendo, bebo uma pinga de água e percebo o rumor que lhe vem das entranhas: canta, acredite-se... então não é que canta mesmo?! Fique por desvendar o mistério que a fonte cantante me pediu para não revelar. O conselho aqui o deixo: beba-lhe da água e descobrirá o que ora escondo.

 

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Olha o viageiro para o trajecto planeado: anuncia-se a Aldeias das Dez, pertencente à rede das aldeias de xisto, nome curioso, do qual se fica por saber a origem. Viveriam ali, originalmente, dez habitantes, dez famílias? Existiriam apenas dez casas? Dez qualquer coisa, é, certamente, a resposta.

 

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Logo à entrada, uma fonte – hoje deu-me para isto – mostra-se curiosamente enfeitada. Os pinos da estrada habitualmente colocados para impedirem o estacionamento anárquico, encontram-se vestidos tal como se fossem bonecas: todas diferentes; todas coloridas. Bendita fonte que se água não deres doutra forma compensas o viageiro Uma jovem estende um belo sorriso ao cruzar-se com quem não conhece, mas tem cara de ali estar por bem. O visitante saúda-a amavelmente com um bom-dia.

“Onde raio estão as casas de xisto?” é pergunta que acode à mente do viageiro, ao deparar-se-lhe uma aldeia que não se diferencia doutra qualquer de montanha.

 

 

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Na curva seguinte surgem as referências fotogénicas do local: cabina telefónica e marco do correio dos antigos, pintados de vermelho e branco, a que acresce o rodapé em preto no caso do segundo. Anda o visitante de cá para lá e nada de xisto ou ardósia, como se denominavam os quadros negros na escola da sua infância. São mais as vozes do que as nozes, pensa quem se sentiu defraudado na Aldeia das Dez. Fique o sorriso impagável da jovem que passou junto à fonte. Como se chamará?

 

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

 

(Continua)

 

05
Abr17

SEM... CABEÇA - PARTE SEGUNDA

Eduardo Gomes

A manhã do dia 22 seria dedicada à monumentalidade, onde avultava o extraordinário Convento de Jesus, fundado em 1463. O viageiro paga o que lhe exigem e entra na área que foi a portaria do antigo mosteiro dominicano. Olha para as grades, imagina locutórios e parlatórios seleccionados pelo grau de afinidade às monjas. Mais além uma roda servia intentos comerciais e desapegos de filhos não desejados, juízos muitas vezes situados bem para além dos entendimentos do coração. Dois avisos para que não vá ao engano o visitante: a roda não é a original, a que ali se apresenta é oriunda do convento de S. João Evangelista das Carmelitas de Aveiro; a portaria significava o fim da vida civil, sob pena de excomunhão. Pontos nos “is”, prossigamos em direcção ao coro baixo.

 

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– Oh! – Como evitar o êxtase diante do imponente túmulo da princesa Santa Joana?

Não cabe aqui a descrição da defunta que ali jaz, princesa de Portugal por direito próprio, sucessora real até ao nascimento do mais extraordinário rei que reinou em terra lusitana. Para Aveiro foi por sua vontade, contra a opinião de pai e irmão, Afonso V e João II, respectivamente. Morreu a 12 de Maio de 1490, e foi enterrada, também a seu pedido, em campa rasa. Beatificada em 1693, o monarca Pedro II mandou erigir-lhe mausoléu a condizer com o estatuto real.

 

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O projecto assenta num minucioso trabalho de embutidos, de mármores policromos, também aplicados no pavimento e paredes. Um homem dá voltas, observa-lhe as perspectivas, deita-se no chão para confirmar que os querubins não acarretam com o peso da arca, antes só o fingem: malandretes.

A capela do autor da Regra que rege a Ordem Dominicana, é dedicada, obviamente, a Santo Agostinho. Por lá se encontra o túmulo do sétimo duque de Aveiro, Gabriel de Lencastre, o qual deve ter achado por bem vir fazer companhia à tia.

 

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A surpresa seguinta vai para a riqueza barroca expressa na talha dourada da Igreja de Jesus. Ver para crer. Parece ter sido aberta ao culto por volta de 1465, deixando subentender que o arco gótico que se situa por cima do púlpito pertence ao templo primitivo. O altar fronteiro à porta acolhe a imagem de Santa Joana.

 

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Muitas capelas se vão sucedendo até que o viageiro se depara, no coro alto, com um estranho crucifixo gótico, que se afirma ter presidido à procissão de inauguração do mosteiro. À memória vem-lhe a capa da Bíblia oferecida à Sé de Oviedo por Fruela II, muito provavelmente durante o primeiro quartel do século X. Terá este sido testemunha dos votos de Santa Joana. O calvário barroco que lhe fica por detrás, foi adaptado, posteriormente, como envolvente da imagem. Fica intrigado o viageiro, jamais a figura de Cristo lhe pareceu tão terrena: cabelo curto, pernas tortas, olhar vazio. Quem és tu? Deus ou Homem?

 

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Vai o viageiro até à sala de lavor, cuja importância histórica se inicia a partir do momento em que Santa Joana adoeceu. O espaço é preenchido por pinturas que narram a vida da princesa desde que ali chegou até que morreu.

 

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Ali por perto, encontra-se a cruz a que ela se devotou ao pressentir o fim. Imperdível.

 

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A última referência vai, como é óbvio, para a pintura da menina adolescente, ex-libris do museu, atribuída à oficina de Nuno Gonçalves. A princesa é retratada em trajo de corte, conforme ao seu estatuto real. Trata-se duma obra datada do século XV, tão real a face quanto a tristeza que dela emana por saber que o quadro se destinava a encontrar marido a quem dele não carecia.

O viageiro está cansado: passa pela inusitada Barca de Nossa Senhora da Boa Morte e pelo túmulo de D. João de Albuquerque. Outro dia virá, e mais dirá para além do que agora deixa.

 

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Aproxima-se a hora do almoço, contudo, ainda havia visitas a fazer. A Sé Catedral está ali por perto, dê-se lá um saltinho. O templo representa o contraponto ao convento. Este, ainda que dominicano na essência, era dedicado ao género masculino.

 

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A saliência vai para o cruzeiro de S. Domingos no exterior, o qual é uma cópia imperfeita do bem mais belo crucifixo gótico-manuelino que se encontra no interior do templo. Raios me partam, se este não é primo do

bizarro que vi no convento.

Estava na hora de visitar um outro templo, este dedicado à gastronomia. O viageiro é teimoso e conservador no que toca ao paladar: volta ao Adriano para comer o afamado bacalhau. Embora honesto, não o impressionou tanto quanto a vitela do dia anterior.

Continuemos a digressão pelo património religioso.

 

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A igreja da Misericórdia é visitada à pressa. Sofre de anormal síndrome: é que a majestade do convento inibe o pazer a tudo o mais em redor. Sim, sim, interessantes a talha do altar, os azulejos, o coro e, dizem, que não a detectou o visitante, uma imagem do Ecce Homo em pau-cetim.

 

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A meio da tarde, o viageiro achou que bastava de igrejas e conventos. Era tempo se absorver a cidade: o edifício da câmara; o centro, onde se juntam vários braços da ria; os moliceiros ávidos de turistas; as cores das casas; as pontes; as gentes.

 

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Abra-se aqui um parêntesis para ligar a cidade ao movimento estudantil. Por alguma razão, imperceptível ao forasteiro, os estudantes não partiram para casa com a chegada das férias: quiçá tenham melhor vida ali, em grupo; porventura se insiram em algum projecto de dinamização da bela urbe. Não interessa. Estão por ali, brincam, tiram fotografias com os transeuntes, as quais, logo de seguida, colocam nas redes sociais. Fantástico, diz quem adora crianças e jovens positivos.

 

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Prossegue a visita quem traz toda a calma do mundo. As embarcações, slogans sexualmente provocantes, sucedem-se. Aqui é: “ Anda, Manel, abre-me lá o rego!”; ali: “Quem me dera ser cão!”; mais além: “Jasus!, que bela solha”. Dê-se de desconto a pontuação, que é obra do escriba que detesta erros de português, e temos o espírito aveirense em pura ironia.

 

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Aveiro está cada vez mais bonita. Cosmopolita como poucas, fica a dever aos estudantes universitários o movimento pós pôr-do-sol que a caracteriza. A vida nocturna despreza o frio, enche restaurantes, bares e ruas, proporcionando um ambiente de confraternização e segurança, bem ao contrário da maioria das urbes recolhidas em casa, como se cativos fôssemos todos, deixando as ruas aos noctívagos de toda a espécie. 

 

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Volta um homem a jantar no Adriano. A vitela difere da do dia anterior. As vacas são como os homens: todos iguais, todos diferentes. Até o Manel se torna simpático, deseja-nos boa viagem: quem diria?

 

(Continua)

31
Mar17

SEM... CABEÇA - PARTE PRIMEIRA

Eduardo Gomes

DEZEMBRO DE 2016

 

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Com tantas Primaveras apontadas na contabilidade celestial, suponho que foi a primeira vez que decidi passar a época natalícia fora de casa. Não por aquele espírito de comodismo que se tornou moda entre os calaceiros que nada querem fazer. Claro que se tiverem quem trabalhe por eles... porém, dentre os mais idosos -- vítimas preferenciais --, muitos vão morrendo, e outros reconverteram-se e fazem hoje o que criticaram ontem. No primeiro caso, o cerne da questão é fácil de identificar: a auxese proteccionista de papás e mamãs aos seus rebentos, “meninos e meninas” que, com quarenta anos, independentes financeiramente, ainda vivem em casa de família, no conforto de cama, mesa e roupa lavada. Dêem-se de barato as variantes para mais e para menos do sistema, que a paga é feita em falta de educação e agressividade verbal: os “velhos” tudo aguentam. Fiquemos por aqui, evitemos a procela tumultuosa, que muito haveria a dizer acerca do modus vivendi de uma geração transportada ao colo do berço à tumba.

 

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A minha opção prendeu-se com o facto de, conjunturalmente, este ano, não ter comensais dependentes de mim: filhos casados, regime de alternância pai/sogro. Busque um homem cumprir um ideal antigo: passar os dias de festa onde arda um madeiro numa qualquer aldeia de Portugal, no interior, de preferência. Dizem que o pai dos lenhos se situa lá para as bandas de Penamacor. Este viageiro não almeja tanto, fica-se por Cabeça, auto-intitulada “Aldeia Natal”, localizada nas faldas da Serra da Estrela.

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Para que o escrevinhador não perca o fio à meada, abandonemos a introdução, que a ela voltaremos mais tarde, para deixar claro que o Natal começou no dia 21 em Aveiro, por razões de saúde que pouco cabem aqui esclarecer.

 

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A manhã esvai-se com a viagem que apontou directamente ao Zico, tasca de pronto-a-comer. Sentamo-nos na barra, que as mesas estão ocupadas, o que o viageiro já desconfiava pelas informações com que previamente se munira. O ritmo de atendimento é alucinante, os empregados transpiram, percorrem milhares de vezes o estreito corredor que lhes está destinado sem se atropelarem, o que fez o comensal equacionar se seriam matéria, pois para tal precisariam de ter peso e ocupar espaço, o que não ficou totalmente provado. Barriga a dar horas, peça-se um bife com molho de alho, auto-afirmado “o melhor do mundo”, e umas petingas fritas com salada de feijão frade. Se o primeiro é bom, as segundas batem-no aos pontos. O viageiro vem das brumas do tempo, em que bife se associava a doença, altura em que se fazia pelas casas portuguesas um enorme esforço económico para recuperar o ente da enfermidade. Coisas do passado que seria bom não voltarem. Lambuza-se o homem; lambuza-se a mulher, e não de forma meramente literária: é que os peixinhos comem-se à mão e não há guardanapos suficientes para tanta lambuzadela. No final gastou-se pouco mais de vinte euros. O visitante começa a gostar de Aveiro. Aos internautas que tão mal falam do Zico, legue-se um conselho: e que tal, se em vez de resmungarem contra tudo e contra todos, decidissem o que querem antes de entrar, e começassem por respeitar o direito dos outros a serem diferentes?

 

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Salte-se agora a parte da tarde, que já dei a entender ao que ali fora, e arroubemo-nos com o movimento da cidade: fascinante. Aqui apregoam-se castanhas a fumegar; ali bolacha americana em bidão a condizer com as memórias dum homem.

 

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Estarão meia-dúzia de graus e as ruas cheias de gente. O centro comercial, à beira dum braço da ria, comunga de idêntico espírito: é a céu aberto. As lojas têm frentes tanto para a avenida como para as ruas interiores que cruzam o edifício de leste para oeste.

 

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– Começa a fazer-se tarde, se não nos despachamos, corremos o risco de não jantarmos. Li no trip advisor que o responsável pelo Adriano é antipático como o diacho -- recorda a Tânia.

Na rua, extasiado, o viageiro ouve a esposa bem ao longe, coisa oriunda do sub-consciente. O outro, o lado A do cérebro, observa o vendedor da bolacha, recorda a mulher da fava-rica. Transmuta-se a realidade: são cinco da manhã de um qualquer dia dos inícios de 1960: – “Dois tostões, ti Costa” – diz a vendedeira, cartuxo das leguminosas na mão estendida, pronta à troca do produto pelo dinheiro.

Um homem entra no túnel do tempo, são cinquenta e tal anos que se percorrem num ápice:

– Sim, sim, mulher, é melhor irmos andando, e não te esqueças: simpatia atrai simpatia, não é com vinagre que se apanham moscas – diz numa alusão aos epítetos com que o carácter do sr. Manuel é mimoseado nas redes sociais.

A má fama indelével propagada através da net ameaça o mundo: antes fora o Zico; agora o Adriano. Se no primeiro as criticas iam para o tempo de espera, aqui, vão para a decoração, o tamanho do ecrã da televisão, a antipatia do proprietario e tudo o mais que espíritos desfocados conseguem imaginar. Quando compreenderão os maldizentes qual a função dum restaurante? Se querem o mundo duma só cor, rumem a Marte: parece que por lá tudo é vermelho!

À chegada, o primeiro contratempo: a porta estava encostada. Empurre-se com suavidade, saude-se quem está e requeira-se a permissão para entrar. Ou comíamos ou passávamos fome, que alternativa não havia, tão adiantada ia a noite. O funcionário mira-me de alto a baixo, aponta-me a mesa com a mão sem dizer palavra. Entrega-me a ementa em modo taciturno, porém, sem ponta de desrespeito. Poucos são os clientes àquela hora. O Manuel a todos vai servindo com calma olímpica e silêncio significativo. Deu-me alguns minutos: voltou de bloco e lapiseira na mão. Continua sem falar: o gesto significa tudo. Adianto:

– Duas doses de vitela à Lafões, se faz favor.

– Uma chega muito bem!

O homem afinal sempre falava... E para dar um bom conselho... Ora toma!

 

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Caçarola a fumegar, atira-se o viageiro à carne de vitela mais deliciosa que alguma vez comeu: valham-nos os santinhos todos do Céu e da Terra. Imagine-se então que o prato custa dez euros, e que a refeição, com uma “trapalhada” – é mesmo assim o nome da iguaria – por sobremesa e dois cafés pra esmoer não ultrapassa os dezassete euros.

Não nos precipitemos, que ainda há mais para contar. Aconteceu que, dentre os presentes no restaurante à nossa chegada, avultava uma idosa que não parava de tentar ligar a alguém. A cada garfada sucedia-se um novo acesso ao teclado, algo que só acabou quando o gadanho nada mais tinha para picar. Afogueada, eis que entra uma jovem e se desfaz em mil desculpas, enquanto procura poiso para si, para o casaco e para a mala. Debalde. A velha preparara-lhe tamanha reprimenda que a rapariga acabou por perder o apetite. Logo após chegou um grupo de trintões, três, mesa previamente reservada.

Começam mal:

-- Que nos recomenda? O meu primo diz que aqui se come um bom bacalhau -- diz um daqueles.

-- Mau estalajadeiro seria eu se lhe aconselhasse algo. Ao elevar uma especialidade, estaria a diminuir todas as outras -- responde o Manuel, sem qualquer espécie de prurido pacóvio.

O grupo fica estupefacto: ninguém esperaria por uma daquelas. No entanto, um deles mostra-se audaz:

-- Achas que o homem sabe quem é o teu primo? -- pergunta, ainda assim retórica, ao que primeiro falara. 

Sem tugir nem mugir, o Manuel indica-lhes a mesa mesmo por detrás da minha. Calaram-se os histriões. De trapalhada já bastava a original, a que dá o nome à sobremesa da casa. A mim, observador atento, começava a agradar-me a personalidade do Manuel. Continuemos.

A velha e a jovem saem, entretanto, em perfeito conflito de gerações. Mais longe do que o espaço deixa supor, que a vitela não permitia outro tipo de foco, ouço falar de motas: as nossas; as dos outros; as de competição; o conhecimento da mecânica, tudo com'ò ou do caralh...; credo!, os tipos não param com tanta asneira e a vitelinha já se acabou. Aguarde-se a sobremesa. “Eles” mudam de registo, passam ás mulheres: as “boas” e as próprias, logo devidamente catalogadas:

– A minha ficou em casa; só faltava agora trazê-la a reboque.

– Pois eu não estive com meias medidas: não quiseste o miúdo? Agora atura-o.

Para logo rematar o mais velho:

– É bico calado, que mulher é para lavar a loiça e cozer as peúgas

Que mais há para dizer? Quadrupedantes triplicados.

 

(Continua)

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